domingo, 9 de outubro de 2011

A imperdível volta de Fernando Morais a Cuba

Aos 65 anos, o escritor mineiro atinge seu melhor nível formal, numa narrativa cinematográfica – além de impagáveis incursões ao humor –, como na caracterização de Garcia Marquez como dublê de diplomata internacional.

Maurício Caleiro, Cinema & Outras Artes, mas visto em Outras Palavras

É uma leitura fascinante a que nos oferece o mais recente livro de Fernando Morais, Os últimos soldados da Guerra Fria (Companhia das Letras).

A pretexto de retratar a infiltração de agentes castristas entre as organizações terroristas mantidas, em Miami, por cubanos no exílio, o livro oferece um saboroso painel humano e uma introdução realista ao complicado xadrez geopolítico jogado por Cuba e EUA nos estertores da Guerra Fria.

O resultado é um exame aguçado das relações entre Cuba e a então maior potência mundial durante o chamado “Período Especial”, nos anos de 1990 – em que, ante o colapso soviético, Cuba teve de se reinventar como atração turística internacional para salvar sua economia.

Apoiado em farta documentação, a obra reconstitui a escalada da violência anticastrista, baseada em violação sistemática do espaço aéreo cubano (para fins propagandísticos ou por mera provocação) e em ataques terroristas a alvos turísticos, visando espalhar o pânico e minar o fluxo de capital estrangeiro na Ilha – tudo sob o silêncio cúmplice dos EUA. (Visto sob a perspectiva histórica pós-11 de setembro, o alerta de Fidel Castro a Clinton de que tais ataques tinham de ser combatidos, pois no futuro qualquer país poderia ser vítima deles, soa não só premonitório, mas como mais uma evidência da leniência dos EUA com sua própria segurança interna).

Ápice formal
Aos 65 anos, o escritor mineiro radicado em São Paulo, autor de best-sellers como Olga (1985) e Chatô, o Rei do Brasil (1994), atinge, em termos formais, seu melhor nível, dotando a narrativa de uma estrutura inteligente, cinematográfica, com um começo arrebatador e uma tensão permanente a perpassá-la – além de impagáveis incursões ocasionais ao humor –, como na caracterização pícara de Gabriel Garcia Marquez como dublê de diplomata internacional.

A artificialidade de tais estratagemas, no entanto, jamais se evidencia como tal, encoberta por uma aparência de objetividade jornalística e mitigada por um texto informativo porém escorreito, que flui com rapidez. Não obstante tais qualidades, por diversas vezes a narrativa produz sentidos epifânicos que se projetam para além da superfície do texto. O capítulo em que se fornece um retrato do lúmpen terrorista Cruz Léon a partir de sua obsessão pelo Silvester Stallone do filme O Especialista (1994) é, a despeito da objetividade do texto, um primor nesse sentido, resultando em um pequeno ensaio sobre a banalidade do mal por meio da ligação entre a ideologia belicista hollywoodiana, a trip egóica de um jovem segurança de boate e a desfaçatez com que este perpetua, por algumas centenas de dólares, uma série de atentados terroristas – que acabam resultado em dezenas de feridos e na morte do turista italiano Fabio Di Celmo.

Mesmo estudiosos de Cuba familiarizados com os principais livros publicados sobre a Ilha em inglês, espanhol ou português terão, por intermédio da nova obra de Morais – a segunda sobre Cuba, depois do seminal A Ilha (1976) –, uma visão diferenciada da relação entre o poder castrista, o terrorismo cubano made in Miami e os EUA. Isso se deve, sobretudo, ao acesso privilegiado a fontes cubanas, a entrevistas exclusivas com protagonistas do período e ao tratamento criterioso que Morais dispensa às evidências materiais.

Direitos humanos
Embora não esteja entre as principais temáticas do livro, o bloqueio dos EUA a Cuba (no período em questão, agravado pelas improcedentes e insensatas medidas de endurecimento impostas por Clinton) evidencia-se, uma vez mais, como um ato covarde contra um país e um povo vítimas de uma privação material longa e despropositada, a qual constitui uma grave violação dos direitos humanos. Que tal constatação não justifica a violação de tais direitos por parte do governo cubano é um fato que não a torna perdoável ou menos grave, ainda mais se se leva em conta o disparate de forças em conflito. Tal assimetria se evidencia a todo instante em Os últimos soldados da Guerra Fria, notadamente na diferença de postura de cada um dos dois governos ante os acontecimentos e durante as tratativas diplomáticas.

O autor constrói, assim, de forma indireta, por contraste e sem enunciá-la explicitamente, uma denúncia contra uma das mais perversas manifestações de imperialismo ao final do século 20: aquela que opôs uma então toda-poderosa potência militar e econômica a uma ilhota que ousou livrar-se do jugo das potências capitalistas e adotar o socialismo. Não há como não ter lado nessa história.

Reportagem de fôlego
Além de todos os atrativos que o livro oferece para o público em geral, ele deveria ser adotado e estudado nas faculdades de Jornalismo do País, pois oferece o equivalente a um curso de como pautar, pesquisar, alinhavar dados e redigir uma reportagem de grande fôlego, um subgênero que as atuais condições materiais da imprensa parecem sempre prestes a extinguir.

A história verídica que Os últimos soldados da Guerra Fria acaba por atingir, ao final, uma grandiosidade épica que nos leva a refletir sobre os aspectos grandiosos e mesquinhos da política, os limites entre a ética pessoal e o comprometimento ideológico, a essência do mal, e a odisseia de batalhas, criatividade e sobrevivência que forma a essência da história da Cuba socialista.

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