segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Pan 2011: Atleta cubano elogia Fidel e condena desertores

Os atletas da delegação de Cuba usam internet na Vila do Pan
Foto: Gazeta Press

A Revolução de 1959 foi gestada por Fidel Castro no México. Antes de partir com destino a Cuba ao lado do companheiro, Ernesto Che Guevara trabalhou como fotógrafo nos Jogos Pan-americanos da Cidade do México 1955. Se ambos empunharam armas para derrubar o ditador Fulgêncio Batista, Yulio Zorrilla o faz na luta por uma medalha no Pan de Guadalajara. Praticante do tiro esportivo, ele elogia a mira de Fidel e condena as deserções de compatriotas durante competições.

“Se você quiser ir para qualquer país em busca de melhores condições econômicas, por que necessariamente tem que aproveitar uma situação como essa?”, questionou o atleta de 34 anos. Medalha de bronze no Jogos Pan-Americano do Rio de Janeiro 2007, competição na qual alguns membros da delegação cubana desertaram, ele está em Guadalajara com a meta de conquistar o ouro e, consequentemente, garantir presença nas Olimpíadas de Londres 2012.

Zorrilla nasceu na cidade de Bayamo, localizada na Província de Granma, região na qual o barco de mesmo nome chegou procedente do México em 1956 com algumas dezenas de guerrilheiros, entre eles Fidel Castro, seu irmão Raul e Che Guevara. Os poucos que sobreviveram ao desembarque organizaram a resistência armada a partir da Sierra Maestra, uma região de difícil acesso, e precisaram de boas miras para combater o exército de Fulgêncio Batista, em muito maior número.

Formado pelo prolífico programa esportivo cubano, Zorrilla começou a praticar tiro com apenas 12 anos. Ele conciliou a modalidade com os estudos e se graduou em contabilidade e finanças na Universidade de Havana. Após usar o acesso à internet gratuito disponibilizado na Vila Pan-Americana e utilizado em larga escala pelos cubanos, o atirador foi reticente diante do pedido de entrevista da GE.Net e perguntou os assuntos que seriam abordados, mas falou abertamente sobre tudo.

GE.Net: Seus compatriotas estão dominando a sala de acesso à internet aqui na Vila...
Yulio Zorrilla: Cuba não pode ser sócio comercial dos Estados Unidos, mas todos os cabos de fibra ótica ao redor da Ilha são de empresas norte-americanas ou de filiais de empresas norte-americanas. Portanto, elas não fornecem serviço de internet à Cuba, o que faz com que o acesso seja demasiadamente caro e é difícil contratá-lo com um salário mínimo. Na Guatemala, uma hora de Internet custa US$1,00. Em Cuba, custa US$6,00. É uma conexão lenta e cara.

GE.Net: Por isso, todos estão aproveitando aqui...
Zorrilla: Os atletas estão todos se falando entre eles mesmos, se relacionando entre eles nas redes sociais. Tem um aqui e outro lá, mandando mensagens pelo Facebook. Isso também é como se fosse uma diversão.

GE.Net: Muitos atletas também aproveitam as passagens pelo exterior para comprar equipamentos eletrônicos. Você pretende fazer isso?
Zorrilla: Sim, porque indiscutivelmente é mais barato do que em Cuba. Eu quero apenas atualizar o computador que tenho em casa e levar alguns presentes para minha família.

GE.Net: Como o isolamento em relação aos Estados Unidos influencia sua carreira de atirador esportivo?
Zorrilla: Há alguns anos, Cuba importou uma quantidade de balas para eu treinar. A cada vez que as balas chegavam a um determinado porto para seguir o caminho até Cuba, pela política de bloqueio dos Estados Unidos, a mercadoria voltava para o país de origem. Ou seja, não era permitido que Cuba comprasse as balas para tiro esportivo. Essas balas foram adquiridas com o objetivo de treinar para os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007. Sabe quando elas chegaram a Cuba?

GE.Net: Quando?
Zorrilla: Só um mês antes dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008. Uma parte veio de barco e a outra, de avião. Foi incrível a travessia que precisaram fazer. A falta de negócios com os Estados Unidos nos afeta incrivelmente.

GE.Net: Atualmente, você conta com um equipamento adequado ou já começa em desvantagem em relação aos outros competidores?
Zorrilla: Minha pistola de ar é bem moderna, comprei três meses antes do Pan de 2007. A outra é uma pistola da antiga União Soviética, mas que tem uma grande trajetória de campeões olímpicos e mundiais. Atualmente, o recorde mundial da minha modalidade foi feito com essa pistola. Não vou ter qualquer tipo de desvantagem em termos de equipamento. Meu braço e minha mente vão definir tudo.

GE.Net: Alguns atletas cubanos aproveitam as competições no exterior, como o Pan-Americano, para abandonar a delegação e tentar ficar no país-sede. O que você acha desse tipo de atitude?
Zorrilla: Eu lutei contra vários atiradores cubanos para conseguir representar o país em um campeonato como esse. A maioria que deserta o faz por questões econômicas, ninguém está contra o governo. Mas se você quiser ir para qualquer país em busca de melhores condições econômicas, por que necessariamente tem de aproveitar uma situação como essa? Você pode solicitar um visto de outro país, conseguir as licenças, pagar sua passagem e ir embora. Pode sair com a cabeça erguida e ainda levar a base oferecida pelo governo cubano, que gratuitamente te formou como um bom atleta. Você pode utilizar esse conhecimento para ganhar a vida em outro país.

GE.Net: Ou seja, você acha que não é necessário aproveitar eventos como Pan-Americanos e Olimpíadas para fugir...
Zorrilla: Eu penso que não precisa se aproveitar de uma situação como essa. Se no futuro eu quiser sair de meu país, tiro os vistos para mim e para minha família, pago meus trâmites, compro as passagens e vou embora. Conheci alguns atletas que resolveram ficar e, no final das contas, tudo que ofereceram ficou no esquecimento. Cuba não é o melhor país do mundo para viver, mas não são apenas os cubanos que querem sair em busca de melhores condições econômicas. Conheço guatemaltecos, venezuelanos e colombianos que têm o mesmo desejo, mas eles o fazem com seus próprios meios. Por exemplo, ninguém fala: “Saí da Colômbia porque o governo é terrorista.”

GE.Net: No Rio de Janeiro, alguns cubanos desertaram durante os Jogos Pan-Americanos de 2007. Você acha que isso pode se repetir em Guadalajara ou, pelo que sente da delegação, não vai acontecer?
Zorrilla: Isso é difícil de prever. Eu falo por mim, mas não sei o que pensam os demais. Tem gente que não vem com essas intenções, mas chega alguém e promete: “Vou te dar um trabalho, vou te dar um carro, vou te dar uma casa.” No final, depois que os atletas decidem ficar, não cumprem o prometido. O Comitê Organizador aqui em Guadalajara se comportou muito bem, atendeu muito bem aos cubanos e não acredito que houve qualquer tipo de campanha para incitar os atletas a desertarem. Mas cada um é dono de suas decisões e de seus destinos.

GE.Net: Você é praticante de tiro. É verdade que o Fidel Castro tinha uma boa mira?
Zorrilla: Antes da Revolução, o Fidel passou um tempo aqui no México treinando e se preparando. Quando ele estava na Sierra Maestra, um estrangeiro doou um fuzil a ele. Era um bom rifle, com mira telescópica. Dizem que ele era um bom atirador e inclusive há fotos dele caçando.

GE.Net: Então, podemos dizer que o Fidel foi um precursor de seu esporte...
Zorrilla: Foi um precursor [risos]. Tem uma frase dele que envolve meu esporte: “Todo cubano deve saber atirar, e atirar bem”.

GE.Net: Você está prestes a disputar os Jogos Pan-Americanos aqui em Guadalajara. Sabia que o Che Guevara trabalhou como fotógrafo na edição de 1955 do evento, realizada na Cidade do México?
Zorrilla: Não sabia disso, mas eu gosto muito de fotografia e tenho um negócio em Cuba ligado à fotografia.

GE.Net: Além de praticar seu esporte, você tem um trabalho paralelo em Cuba?
Zorrilla: Eu pratico meu esporte e agora, com as novas resoluções do governo, tenho um negócio privado, o que lá chamamos de “trabalho por conta própria”. O Estado permitiu que as pessoas que tenham recursos e interesse em montar algum tipo de negócio particular recebam uma licença para isso. Na década de 1990, houve uma abertura e recentemente isso aumentou, a concessão da licença ficou mais flexível.

GE.Net: O Fidel gosta de esporte e resolveu investir expressivamente nesta área durante sua longa gestão, a ponto de fazer a pequena Ilha rivalizar com as grandes potências em Pan-Americanos e Olimpíadas. A crise dos anos 1990 enfraqueceu Cuba no cenário esportivo?
Zorrilla: Depois dessa grande crise, que ainda atingiu parte da primeira década deste século, Cuba está se recuperando na área econômica e começará a resgatar a antiga estrutura esportiva. Recentemente, se reestruturaram as escolas de iniciação esportiva. Nos centros de alto rendimento, também se projeta um grande processo de investimento a partir do ano que vem para apoiar o desenvolvimento esportivo nos próximos anos.

GE.Net: Você foi descoberto por intermédio do programa de formação de talentos do governo?
Zorrilla: Sim. Em Cuba, há centros esportivos que captam estudantes com qualidades físicas para um determinado esporte. Quando eu tinha uns 12 anos, um treinador de tiro foi à minha escola e perguntou: “Você quer praticar tiro esportivo?”. Eu nem sabia o que era isso, mas ele me captou e começamos a treinar. Esses foram meus primeiros passos, eu nem imaginava que poderia chegar ao time nacional. Só fazia para ocupar meu tempo livre em algum esporte. Graças a isso, cheguei até aqui. O sistema esportivo cubano, ao ser aberto a todo o povo, propicia a descoberta de atletas, que vão passando por diferentes centros. Os mais talentosos e com melhores resultados chegam ao alto rendimento e representam o país internacionalmente.

GE.Net: Como um profissional da área econômica, que caminho você acha que Cuba deve seguir nos próximos anos?
Zorrilla: Cuba precisa dar passos para propiciar processos de investimento mais seguros. No atual contexto mundial, com a globalização dos meios e o intercâmbio econômico em tantos países, é impossível que uma economia se desenvolva de forma isolada. Cuba é o principal sócio comercial da China no Caribe e da Venezuela também. Precisa continuar se inter-relacionando com países do mundo todo para poder desenvolver suas políticas econômicas e sociais.

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