quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Max Altman: Impressões de uma viagem a Cuba

Max Altman
A fim de assistir, em representação do Comitê Brasileiro pela Libertação do 5, ao 7ºColóquio pela Libertação dos 5 Heróis Cubanos e Contra o Terrorismo, que teve lugar em Holguin, na província oriental de Holguin, Cuba, neste mês de novembro, passei dez dias na Ilha, metade dos quais na mencionada cidade e a outra em Havana.

Defensor dos princípios que nortearam e norteiam a Revolução Cubana, antes ainda do triunfo da guerra revolucionária comandada por Fidel Castro e seus companheiros, sempre que a visito – foi a minha 12ª estada – procuro inteirar-me da situação social e econômica do país, buscando conversar com as pessoas comuns e com quadros mais responsáveis.

Como foi a primeira visita depois da aprovação pelo parlamento cubano das Linhas Gerais da Política Econômica e Social do Partido e da Revolução meu interesse se centrou em como estão evoluindo as medidas adotadas e as reações das pessoas.

Cuba enfrenta dificuldades na obtenção de investimentos em larga escala para a construção de obras cruciais para o desenvolvimento acelerado de seu potencial econômico e de infraestrutura, embora esteja em pleno andamento uma delas: a construção do novo porto de Mariel e seu complexo rodoferroviário com financiamento brasileiro. O país necessita seriamente de novas e adicionais fontes de energia. O foco principal está voltado para o incremento da produção agrícola. Terras foram cedidas em comodato de longa duração para dezenas de milhares de agricultores. Se alcançar a esperada produção alimentar destinada ao consumo popular e à rede hoteleira em expansão – esse ano são esperados 2,7 milhões de turistas – haverá uma economia na importação de perto de 2 bilhões em moeda forte que poderão ser destinados a outros setores. Viajando pela província de Holguin, que é essencialmente agrícola, pudemos observar áreas planas sem cultivo, uma rareada presença de gado vacum e em alguns casos a utilização de arado rudimentar puxado por parelha de bois.

E a reação popular? Em grande medida é mais de esperança do que ceticismo. As novas medidas que vêm sendo implementadas são recebidas favoravelmente. Setores ligados ao turismo – hotelaria, locomoção, transporte, atividades artísticas, restaurantes e cafeterias – mostram-se mais animados. Habana Vieja, por exemplo, a par da reconstrução acelerada de seus edifícios, vê nascer uma quantidade de restaurantes, cafeterias e lojas mais modernas. A queixa generalizada, porém, é quanto ao baixo poder aquisitivo do peso cubano mais ainda do que um certo ressentimento quanto aos que ganham total ou parcialmente em Cucs, moeda cubana equivalente ao dólar. Mas as pessoas têm consciência dos serviços oferecidos gratuitamente – saúde, educação, lazer – ou altamente subsidiados – alimentação, transporte, cultura. E mais consciência ainda de que o problema salarial só será paulatinamente enfrentado com o crescimento da produção e da produtividade agrícola e industrial.

Enfim, as observações acima suscitadas são temas amplamente discutidos em todas as esferas de decisão e entre a população em geral. Os amigos de Cuba e da Revolução esperam que os enormes obstáculos sejam superados nos próximos anos. O povo cubano já mostrou em outras cruciais oportunidades sua resistência, persistência e tenacidade.

Gostaria, por fim, de ressaltar três aspectos pontuais da visita:

O Colóquio pela Libertação dos 5 recebeu a participação de 413 representantes de 50 países, numa demonstração eloquente de que mais e mais gente em todo o mundo passa a conhecer a enorme injustiça que se pratica contra os cinco lutadores antiterroristas.

Foram jornadas de reflexão, de combate, de reclamação por justiça e de denúncia ao terrorismo e à injustiça. Depois de 13 anos de injusta prisão, a situação dos 5 continua sendo crítica. René Gonzalez cumpriu até o último segundo, em 7 de outubro, sua condenação, porém em vez de ser devolvido a Cuba, recebeu um novo castigo: obrigá-lo a permanecer em território dos Estados Unidos por mais três anos sob liberdade supervisionada, sem poder receber a visita de sua esposa Olga Salanueva, a quem até hoje o governo de Washington nega o direito de visitá-lo, expondo-o aos grupos terroristas com sede em Miami, pondo sua vida em risco.

A situação de Gerardo Hernandez continua sendo a mais grave dos 5, condenado que está a duas prisões perpétuas mais 15 anos, e a quem lhe negam sistematicamente a visita de sua esposa, Adriana Perez. As condenações de Ramón Labañino, Antônio Guerrero e Fernando González, mesmo após as comutações, somam coletivamente 70 anos de prisão. Ainda se espera a resposta dos recursos de habeas corpus, porém há consciência do esgotamento das vias legais. O caso deixou o terreno judicial para entrar no campo político. Soluções aventadas no colóquio vão desde a troca de prisioneiros, ação a ser tramitada entre os governos de Cuba e dos Estados Unidos até um indulto que poderia ser firmado pelo presidente Obama, submetido à forte pressão internacional. Enquanto os antiterroristas guardam injusta prisão, Luís Posada Carriles, responsável pela morte de centenas de seres inocentes, passeia livremente pelas ruas de Miami, sob proteção de Washington, celebrando seus crimes, sem o menor arrependimento, propondo novos atentados terroristas contra Cuba, seu povo e seus dirigentes.

O povo trabalhador cubano continua oferecendo forte apoio à Revolução e às lideranças do país. Na visita que parte dos participantes do colóquio fez a uma cooperativa de produção de arroz, sob assistência técnica do Vietnã, no município de Calixto Garcia, zona rural de Holguin, pude verificar no contato direto com camponeses, que eles mantém firme sua confiança nos destinos da Revolução e nas medidas para fazer avançar o processo. Estão dispostos a trabalhar duro para aumentar a produção agrícola. Esperam receber mais equipamentos com o fim de mecanizar o plantio e a colheita. Imaginam que este mesmo sentimento é o de milhares de camponeses e cidadãos que se estão incorporando ao trabalho na terra.

Holguin é uma província de cerca de 1,1 milhão de habitantes. Sua capital possui 130 mil habitantes. Pudemos, no decurso do colóquio, atestar pessoalmente a notável atividade artística dessa pequena cidade. Há pouco inauguraram um moderno e bem equipado teatro para 876 espectadores, o Teatro Eddy Suñol, destinado a espetáculos teatrais, musicais e balé. Nele exibiram durante o colóquio uma emocionante apresentação de um elenco infantil contando a história de Cuba e um belo espetáculo musical de canções e dança. Pessoalmente, entrei em contato com artistas do Teatro Lírico de Holguin Rodrigo Prats e, ao assistir a um longo ensaio, facilitado pelo secretário de Cultura da província, Alexis Triana, constatei o alto nível artístico de cantores como Jose Tauler, Liudmila Perez, Maria Dolores Rodriguez e Yuri Hernandez, que brilhariam em qualquer palco lírico do mundo, além da pianista Rosário Aguilera que tocou o Odeon de Ernesto Nazareth, de uma partitura que lhe havia enviado há tempos, com a qualidade dos melhores pianistas brasileiros. É de impressionar a quantidade e qualidade do material humano artístico de uma localidade distante de centros como Havana e Santiago, apesar dos parcos recursos materiais de que dispõem.

Max Altman
25 de novembro de 2011

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Apesar do bloqueio, Cuba mantém elevado desenvolvimento humano

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O Fundo de População das Nações Unidas assegurou que Cuba conta com um desenvolvimento equivalente ao avanço de um quarto de século, se comparado aos demais países da América Latina e do Caribe.


O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA em inglês), na apresentação do Informe sobre o Estado da População Mundial 2011, afirmou que Cuba é a nação com o mais alto desenvolvimento humano na América Latina e conta com um desenvolvimento equivalente a um quarto de século de avanço em relação aos demais países da América Latina e do Caribe.

Isso ocorre devido aos baixos níveis de mortalidade do país, a elevada esperança de vida, seu acesso à saúde e educação, sua saúde sexual e reprodutiva, e os indicadores de envelhecimento de sua população, todos com valores similares e, inclusive, maiores aos de nações industrializadas.

Esta conquista de Cuba se soma a sua reconhecida luta contra o racismo, a desnutrição infantil e sua comprovada qualidade em todos os níveis de educação.

Com respeito ao enfoque sobre os 7 bilhões de pessoas no mundo, a UNFPA não só evidenciou dados demográficos, como também o aprofundamento das problemáticas sociais e econômicas que implicam crescimento da população, onde alguns questionamentos foram levantados: de que maneira reduzir as lacunas entre ricos e pobres e retificar as desigualdades entre homens e mulheres, e entre meninos e meninas? Ou ainda: Como alcançar que as cidades sejam lugares aptos para viver?

O documento mostrou os grandes contrastes sociais e as necessidades de se trabalhar unidos pelo progresso, como, por exemplo, a questão da natalidade. Enquanto nas nações europeias mais industrializadas nascem 1,5 criança por mulher, na África – de alarmantes indicadores sócio-demográficos e grande pobreza –, nascem cinco bebês por mãe.

Tradução: Maria Fernanda M. Scelza (PCB)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Beth Carvalho: “A CIA quer acabar com a cultura brasileira.”

Beth Carvalho: “Só acredito no modelo socialista,
é o único que pode salvar a humanidade.”
Publicado no iG, mas lido no Vermelho

Em entrevista ao jornalista Valmir Moratelli, do iG por ocasião do lançamento do CD de músicas inéditas “Nosso samba tá na rua” – dedicado a dona Ivone Lara, com canções sobre a negritude, o amor e o feminismo –, a cantora Beth Carvalho é mordaz: “A CIA quer acabar com o samba. É uma luta contra a cultura brasileira. Os Estados Unidos querem dominar o mundo através da cultura”, diz a cantora, presidente de honra do PDT.

iG: Em seu novo CD, a letra “Chega” é visivelmente feminista. Por que é raro o samba dar voz a mulheres?
Beth Carvalho: O mundo, não só o samba, é machista. Melhorou bastante devido à luta das mulheres, mas a cada cinco minutos uma mulher apanha no Brasil. É um absurdo. Parece que está tudo bem, mas não é bem assim. Sempre fui ligada a movimentos libertários.

iG: De que forma o samba é machista?
B.C.: A maioria dos sambistas é homem. Depois de mim, Clara Nunes e Alcione, as coisas melhoraram. O samba é machista, mas o papel da mulher é forte. O samba é matriarcal, à medida que dona Vicentina, dona Neuma, dona Zica comandam os bastidores da história. Eu, por exemplo, sou madrinha de muitos homens [risos].

iG: A senhora é vizinha da favela da Rocinha. Como vê o processo de pacificação?
B.C.: Faltou, por muitos anos, a força do estado nestas comunidades. Agora estão fazendo isso de maneira brutal e, de certa forma, necessária. Mas se não tiver o lado social junto, dando a posse de terreno para quem mora lá há tanto tempo, as pessoas vão continuar inseguras. E os morros virarão uma especulação imobiliária.

iG: Alguns culpam o governo Leonel Brizola [1983–1987/1991–1994] pelo fortalecimento do tráfico nos morros. A senhora, que era amiga do ex-governador, concorda?
B.C.: Isso é muito injusto. É absurdo [diz em tom áspero]. Se tivessem respeitado os Cieps, a atual geração não seria de viciados em crack, mas de pessoas bem informadas. Brizola discutia por que não metem o pé na porta nos condomínios da Avenida Viera Souto [em Ipanema] como metem nos barracos. Ele não podia fazer milagre.

iG: Defende a permanência de Carlos Lupi no Ministério do Trabalho?
B.C.: Olha, sou presidente de honra do PDT porque é um título carinhoso que Brizola me deu, mas não sou filiada ao PDT. Não tenho uma opinião formada sobre isso, porque não sei detalhes. Existe uma grande rigidez a partidos de esquerda. Fizeram isso com o PCdoB do Orlando Silva, e agora fazem com o PDT. O que conheço do Lupi é uma pessoa muito correta. Eles deveriam ser menos perseguidos pela mídia.

iG: Aqui na sua casa há várias imagens de Che Guevara e de Fidel Castro. Acredita no modelo socialista?
B.C.: Eu só acredito no modelo socialista, é o único que pode salvar a humanidade. Não tem outro [fala de forma enfática]. Cuba diz ‘me deixem em paz’. Os Estados Unidos, com o bloqueio econômico, fazem sacanagem com um país pobre que só tem cana-de-açúcar e tabaco.

iG: Mas e a falta de liberdade de expressão em Cuba?
B.C.: Eu não me sinto com liberdade de expressão no Brasil.

iG: Por quê?
B.C.: Porque existe uma ditadura civil no Brasil. Você não pode falar mal de muita coisa.

iG: Como quais?
B.C.: Não falo. Tem uma mídia aí que acaba com você. Existe uma censura. Não tem quase nenhum programa de TV ao vivo que nos permita ir lá falar o que pensamos. São todos gravados. Você não sabe se vai sair o que você falou, tudo tem edição. A censura está no ar.

iG: Mas em países como Cuba a censura é institucionalizada, não?
B.C.: Não existe isso que você está falando, para começo de conversa. Cuba não precisa ter mais que um partido. É um partido contra todo o imperialismo dos Estados Unidos. Aqui a gente está acostumada a ter vários partidos e acha que isso é democracia.

iG: Este não seria um pensamento ultrapassado?
B.C.: Meu Deus do céu! Estados Unidos têm ódio mortal da derrota para oito homens, incluindo Fidel e Che, que expulsaram os norte-americanos usando apenas o idealismo cubano. Os norte-americanos dormem e acordam pensando o dia inteiro em como acabar com Cuba. É muito difícil ter outro Fidel, outro Brizola, outro Lula. A cada 100 anos você tem um Pixinguinha, um Cartola, um Vinicius de Moraes... A mesma coisa na liderança política. Não é questão de ditadura, é dificuldade de encontrar outro melhor para ocupar o cargo. É difícil encontrar outro Hugo Chavez.

iG: Chavez é acusado por muitos de ter acabado com a democracia na Venezuela.
B.C.: Acabou com o quê? Com o quê? [indaga com voz alta]

iG: Com a democracia...
B.C.: Chavez é um grande líder, é uma maravilha aquele homem. Ele acabou com a exploração dos Estados Unidos. Onde tem petróleo estão os Estados Unidos. Chavez acabou com o analfabetismo na Venezuela, que é o foco dos Estados Unidos porque surgiu um líder eleito pelo povo. Houve uma tentativa de golpe dos norte-americanos apoiado por uma rede de TV.

iG: A emissora que fazia oposição ao governo e que foi tirada do ar por Chavez...
B.C.: Não tirou do ar [fala em tom áspero]. Não deu mais a concessão. É diferente. Aqui no Brasil o governo pode fazer a mesma coisa, televisão aberta é concessão pública. Por que vou dar concessão a quem deu um golpe sujo em mim? Tem todo direito de não dar.

iG: A senhora defende que o governo brasileiro deveria cassar TV que faz oposição?
B.C.: Acho que se estiver devendo, deve cassar sim. Tem de ser o bonzinho eternamente? Isso não é liberdade de expressão, é falta de respeito com o presidente da República. Quem cassava direitos era a ditadura militar, é de direito não dar concessão. Isso eu apoio.

iG: Por ser oriundo dos morros, o samba foi conivente com o poder paralelo dos traficantes?
B.C.: Não, o samba teve prejuízo enorme. Hoje dificilmente se consegue senhoras para a ala das baianas nas escolas de samba. Elas estão nas igrejas evangélicas, proibidas de sambar. Não se vê mais garoto com tamborim na mão, vê com fuzil. O samba perdeu espaço para o funk.

iG: Quem é o culpado?
B.C.: Isso tem tudo a ver com a CIA [Agência Central de Inteligência dos EUA], que quer acabar com o samba. É uma luta contra a cultura brasileira. Os Estados Unidos querem dominar o mundo através da cultura. Estas armas dos morros vêm de onde? Vem tudo de fora. Os Estados Unidos colocam armas aqui dentro para acabar com a cultura dos morros, nos fazendo achar que é paranoia da esquerda. Mas não é, não.

iG: O samba vai resistir a esta “guerra” que a senhora diz existir?
B.C.: Samba é resistência. Meu disco é uma resistência, não deixa de ser uma passeata: “Nosso samba tá na rua”.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Fernando Morais dá uma merecida surra no politicamente incorreto Leandro Narloch

Sem graça, Narloch foi fisgado pela própria inconsistência e por uma necessidade fantasiosa de acreditar no que quer, como quando diz que o “capitalismo é o que de melhor já aconteceu na história da humanidade”. Assista ao vídeo no final do texto.


Nem as batatas cubanas ficaram de fora da mais animada e polêmica entre as mesas da 7ª Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), que reuniu, em Olinda, os jornalistas Fernando Morais, Leandro Narloch e Samarone Lima. O tema proposto era América Latina para o bem e para o mal e Cuba dominou boa parte da conversa. A segunda parte do debate ficou concentrada nos dois livros de Narloch: Guia politicamente incorreto do Brasil (hoje, o quinto mais vendido no Brasil) e o Guia politicamente incorreto da América Latina (Leya).

Quem deu a largada foi o moderador Vandek Santiago. Ele questionou o jornalista sobre as fontes usadas na produção do livro, dentre as quais estavam “as más línguas” em capítulo sobre o relacionamento de Perón, na Argentina, com jovens meninas.

Morais se juntou ao debate quando Narloch disse que “vários” cubanos desertaram durante os Jogos Pan-Americanos do Rio, em 2007. “Foram dois”, respondeu. Em outro momento, Narloch afirmou que as conquistas nas áreas econômica e de saúde não valeram a pena para Cuba, o que mereceu o deboche de Morais. “Essa fala me lembrou Nelson Rodrigues, que era um grande dramaturgo e um péssimo político, e que disse que preferia a liberdade ao pão. Pergunte a uma mãe que está enterrando o filho de cinco anos por desnutrição o que ela pensa disso”, disse Morais, que tinha acabado de citar dados da Unesco que mostram que Cuba tem o menor índice de mortalidade infantil entre os países concentrados do sul dos Estados Unidos à Patagônia.

Mais um pouco de conversa sobre liberdade e Cuba e a atenção voltou para Narloch. Fernando Morais, que não leu o livro, mas acompanhou algumas entrevistas do autor, mencionou o caráter marqueteiro das obras. O autor chegou a comentar em uma dessas entrevistas que tinha começado a coleção, que terá um novo volume sobre a história do mundo, para ganhar algum dinheiro. “Estou em pânico. Passei a faculdade lendo Fernando Morais e agora estamos quebrando o pau.”

“Leandro Narloch se reconhece como uma pessoa de direita. Em um país onde Paulo Maluf se diz de centro-esquerda, alguém de 30 e poucos anos se assumir de direita é de uma honestidade política”, comentou. “Mas seus livros deveriam ter uma errata dizendo que eles se chamam “Guias politicamente corretos”, porque estão remando a favor da maré e absolutamente a favor do vento que sopra na imprensa, especialmente na revista Veja”, completou.

Samarone Lima, que trazia um dos exemplares cheios “post-it”, disse que encontrou uma série de problemas no livro, mas que o principal dizia respeito ao capítulo dedicado ao general Augusto Pinochet. “É de uma inconsistência dolorosa. Nós, jornalistas, trabalhamos com fontes. Você não pode escrever sobre Pinochet usando como fonte um livro lançado pelo governo golpista”, disse Lima, que encontrou 12 referências ao tal livro oficial no capítulo.

Enquanto Lima procurava outra passagem, Narloch, já sem graça com a repercussão que seu trabalho tinha ganhado naquele painel, brincou: “Acabou, não dá mais tempo.” Mas deu. Ainda desconfortável, perdeu o fio da meada e foi vaiado quando, mais calmo, também citou Nelson Rodrigues: “Quem não é socialista com 20 anos não tem coração. Quem é com 40 não tem cérebro.”

Foi então a vez de ele contestar uma informação publicada por Morais sobre o episódio das larvas jogadas pelo governo norte-americano nas plantações de batatas em Cuba. “Use um pouco do dinheiro que você ganha com direitos autorais e vá até os Estados Unidos checar isso. Nós não vamos ficar aqui brigando pelas batatas cubanas”, finalizou Morais.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Oliver Stone: “Não há democracia nos EUA, mesmo com Obama.”


O cineasta norte-americano Oliver Stone (foto) declarou no sábado, dia 19, em Argel, Argélia, que os Estados Unidos não vivem na democracia, mesmo sob a presidência de Barack Obama, eleito em 2008, e criticou Wall Street, a atitude bélica norte-americana e a indiferença de seus compatriotas com relação ao resto do mundo.

Em entrevista coletiva em francês, intercalada por algumas expressões em inglês, Stone, cuja mãe é francesa, disse que os “indignados” norte-americanos que protestam contra Wall Street deveriam deslocar seu movimento de protesto contra o sistema financeiro “a Washington e não a Nova Iorque, para ter maior impacto”.

Segundo o diretor de filmes como Wall Street, poder e cobiça (1987) e Wall Street: o dinheiro nunca dorme (2010), é assim que as pressões sobre os políticos para sanear o sistema financeiro serão “eficazes”.

O cineasta, cujo pai é um ex-operador financeiro de Wall Street, foi convidado ao festival de cinema autoral de Argel, que começa na terça-feira, dia 29. Ele se disse “consternado de ver como o dinheiro é venerado pelos norte-americanos” e com os efeitos da crise econômica.

“A classe média [norte-americana] é a primeira vítima, mas nada consegue mexer com o sistema” norte-americano, ao qual qualificou de “não democrático, mesmo depois da chegada de Obama” ao poder.

O cineasta denunciou “30 anos de mentiras” contadas nos Estados Unidos e mencionou a guerra do Vietnã, que o inspirou a dirigir Platoon (1986). Segundo ele, os norte-americanos viveram com a ideia de que “o comunismo vai dominar o mundo”, enquanto ele caiu em 1989.

Perguntado sobre o apoio norte-americano a Israel, Stone afirmou que “não se pode falar disso nos Estados Unidos. Há um poder tal, o dinheiro, a imprensa e o lobby são mais que os fatos, a verdade, não aparece”, disse.

Stone julgou seus compatriotas com severidade. “Os norte-americanos não estão tão interessados nos problemas do exterior”, disse. “Não têm empatia por eles”, acrescentou.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Cuba rejeita retorno da Líbia ao Conselho de Direitos Humanos


Após ter declarado abstenção na sexta-feira, dia 18, em votação na Assembleia Geral que definiria o retorno da Líbia ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, Cuba retificou seu voto posteriormente, declarando ser contrária à questão.

“Durante o dia de hoje, a Missão Permanente de Cuba perante as Nações Unidas está dando os passos necessários para retificar o voto e que assim figure nas atas da Assembleia Geral”, afirmou um comunicado do Ministério das Relações Exteriores cubano divulgado em Havana.

A declaração oficial indica que “a delegação cubana se absteve perante dito projeto, quando as intenções de voto da República de Cuba era a de votar contra”.

“As razões para fazê-lo são claras. Não acreditamos que existam as condições para tomar a decisão de restituir tais direitos, quando ainda não existe governo constituído na Líbia e quando não se esclareceram as circunstâncias do assassinato de Muamar Kadafi”, adverte.

A Assembleia Geral da ONU aprovou na sexta-feira, dia 18, a readmissão da Líbia no Conselho de Direitos Humanos da organização, em uma votação na qual Bolívia, Equador, Nicarágua e Venezuela votaram contra a medida.

A readmissão da Líbia nesse órgão, do qual foi expulsa quando teve início o golpe patrocinado pela Otan e outras potências imperialistas, foi adotada com o voto a favor de 123 países, quatro votos contra e a abstenção de outros seis países, entre eles Cuba.

Anteriormente, a delegação cubana assinalou que sua abstenção se devia à manipulação do assunto dentro dos órgãos da ONU, particularmente nas resoluções do Conselho de Segurança que permitiram à Otan violar o direito internacional.

Em setembro, o governo de Cuba anunciou que não reconhecia o Conselho Nacional de Transição (CNT) líbio nem “nenhuma autoridade provisória” na Líbia, de onde retirou seu pessoal diplomático.

Em declaração oficial emitida naquele mesmo mês, Havana ressaltou que só reconhecerá um Governo líbio que se constitua “de maneira legítima e sem intervenção estrangeira, mediante a livre, soberana e única vontade do povo líbio”.

Cuba também denunciou a intervenção estrangeira e a agressão militar da Otan na Líbia, criticando as resoluções do Conselho de Segurança da ONU e a resposta desse organismo perante o conflito.

domingo, 20 de novembro de 2011

Governo cubano reforça fronteiras contra tráfico de drogas


O governo cubano reforça a proteção das fronteiras para prevenir o tráfico de drogas na Ilha, que está localizada na rota de entorpecentes para os EUA e a Europa. Os trabalhadores alfandegários estão atentos às bagagens dos passageiros que chegam ao aeroporto José Martí.

sábado, 19 de novembro de 2011

Em carta a Obama, CMP pede a libertação dos 5 heróis cubanos


Em reunião realizada entre os dias 16 e 17 de outubro, em Bruxelas, na Bélgica, o Secretariado do Conselho Mundial da Paz (CMP) aprovou a confecção de uma carta endereçada ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pedindo a libertação dos Cinco patriotas cubanos que foram presos injustamente naquele país. Em entrevista concedida ao Vermelho, a presidente do CMP e do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), Socorro Gomes, esclarece a importância dessa luta.

Socorro lembra que os cubanos detidos nos EUA, na verdade são heróis que lutavam para impedir os diversos atentados terroristas executados por anticubanos erradicados em Miami. Estes atentados vão desde a explosão de um avião que partia de Barbados, que provocou a morte de mais de 70 pessoas, até o lançamento de bactérias contra a ilha caribenha. “O governo cubano encaminhou ao presidente Bill Clinton, através do grande escritor Gabriel García Marques [os dossiês com as denúncias que desmantelavam a rede]. Só que o governo estadunidense em vez de prender os terroristas e desmontar as redes, prendeu os patriotas cubanos”. Eles foram julgados em Miami, “que é um antro anticubano e, em um clima de ódio, condenaram, de forma injusta, sem nenhuma prova, os patriotas cubanos a prisões que vão até 2 perpétuas e 15 anos”.

Ela destaca, no entanto, o caso de René González, que foi libertado em outubro, mas deverá permanecer mais três anos nos Estados Unidos, sob liberdade vigiada. “Ele corre risco de morte neste país”, alerta.

Paz e soberania
A medida faz parte das diretrizes do Conselho Mundial da Paz, que luta pela defesa da paz e da soberania dos países, das nações, como explicou Socorro. A presidente ressaltou ainda a importância dessa luta: “a libertação dos antiterroristas é fundamental para o estabelecimento do respeito entre as nações e para cessar as hostilidades e esse clima de ódio contra Cuba, que nunca atacou nenhum país”.

Fim do bloqueio e aprovação Palestina
Outras diretrizes abordadas pelo Conselho Mundial da Paz foram: o fim do bloqueio imposto pelos Estados Unidos contra Cuba e a defesa da criação imediata do Estado Palestino: “O que acontece com o Estado da Palestina há décadas, é um crime, uma ignomínia do Estado sionista de Israel contra o direito, inclusive determinado pela ONU, de criação do Estado da Palestina. Israel continua com a política de genocídio, de apartheid, de colonato e de militarização. O governo de Israel se transformou em um Estado fascista. Para nós, essa também é uma questão de justiça”, frisou Socorro.

Carta
Leia a íntegra da carta endereçada a Obama:

São Paulo, 24 de outubro de 2011
Excelentíssimo Senhor Barack Obama
Presidente dos Estados Unidos da América.

Senhor presidente Barack Obama,

No último dia 12 de setembro de 2011, completaram-se 13 anos da prisão nos EUA, de forma injusta e sem comprovação de culpabilidade, de cinco cubanos lutadores antiterroristas. Seu julgamento realizou-se em um tribunal parcial e acompanhado por uma campanha midiática preconceituosa que os buscava incriminar.

Durante o período de suas detenções, inúmeras violações aos direitos humanos têm sido sistematicamente cometidas: negação do recebimento de visita de seus familiares, dificuldades para o contato com seus advogados, além do submetimento a longos períodos de isolamento, prejudicando a saúde física e mental dos mesmos.

Um desses patriotas cubanos, René Gonzalez, saiu da prisão em 7 de outubro último, mas uma decisão judicial o obriga a permanecer na cidade de Miami, sob liberdade supervisionada, durante três anos, correndo sério risco de ser atingido por atentados de grupos terroristas anticubanos que se abrigam naquela cidade.

Diante da gravidade dos fatos acima descritos, vimos por meio desta manifestar nosso integral apoio à exigência do povo cubano e dos movimentos de solidariedade que em todo o mundo clamam pela libertação, sem condicionamentos, desses cubanos que só defenderam seu país de atos de terror, dando fim a esta enorme injustiça que se prolonga por 13 anos.

Acreditamos que Vossa Excelência pode usar as prerrogativas constitucionais de presidente da República dos Estados Unidos da América para satisfazer tal exigência legítima.

No caso particular de René González, associamos nossa voz à de todos os homens e mulheres amantes da paz e da justiça, que clamam por seu imediato regresso a Cuba.

Atenciosamente,

Socorro Gomes
Presidente do Conselho Mundial da Paz (CMP)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Governo Obama intensifica bloqueio contra Cuba

O governo do presidente Barack Obama intensificou as medidas de bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto a Cuba desde a década de 1960, o qual ocasionou perdas milionárias ao país caribenho.

Publicado na Prensa Latina, mas lido no Vermelho

No dia 2 de setembro de 2010, Obama anunciou a Lei de Comércio com o Inimigo, que na prática mantém o bloqueio a Cuba. Em um memorando assinado pelo presidente e pela secretária de Estado, Hillary Clinton, e o titular do Tesouro, Timothy Geithner, afirma-se que “a continuação destas medidas referentes a Cuba convém aos interesses nacionais dos Estados Unidos”.

A Lei de Comércio com o Inimigo (TWEA, sigla em inglês) foi promulgada como norma de guerra em 1917 para restringir o comércio com nações consideradas hostis.

Posteriormente, expandiu sua aplicação para autorizar o presidente a regulamentar as transações de propriedade que envolveram em países estrangeiros alguns de seus nacionais, tanto em tempo de guerra como durante qualquer outro período de emergência nacional declarada pelo gestor.

Nesta lei se baseiam as primeiras normas de bloqueio contra Cuba em 1962, diz um relatório sobre a Resolução 65/6 da Assembleia Geral da ONU, intitulado Necessidade de pôr fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos contra Cuba apresentado pela ilha em outubro passado na entidade.

Apesar das crescentes exigências da comunidade internacional ao governo norte-americano para uma mudança em direção a Cuba, o presidente Barack Obama mantém intacta esta política, recorda o documento citado anteriormente.

Em sua essência e objetivo, trata-se de um ato de agressão unilateral e uma ameaça permanente contra a estabilidade de um país, assinala o documento.

O dano econômico direto ocasionado ao povo de Cuba até dezembro de 2011, a preços correntes, calculados de forma muito conservadora ascende a uma cifra que supera os US$104 bilhões.

Se for levada em consideração a depreciação do dólar em relação ao ouro no mercado financeiro internacional, que foi muito alta durante o ano de 2010, o efeito sobre a economia cubana seria superior a US$975 bilhões.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Fernando Morais participa do Flipipa (RN) com seu livro sobre os 5 heróis cubanos

Um dos mais importantes biógrafos brasileiros, Fernando Morais, mineiro de Mariana, participará, na sexta-feira, 18 de outubro, do Festival Literário da Pipa (Flipipa). Na oportunidade, apresentará seu mais recente livro Os últimos soldados da Guerra Fria.

Em sua nova obra, lançado pela Companhia das Letras, Fernando Morais retoma a reportagem literária em torno de Cuba e aborda a injustiça que é cometida contra os Cinco heróis cubanos, que é ignorado pela grande mídia.

A obra é fruto de uma pesquisa minuciosa sobre a Rede Vespa, uma agência secreta cubana que infiltrou agentes em organizações estadunidenses de extrema-direita, na década de 1990. O turismo era a indústria cubana que mais crescia e essas organizações recebiam dinheiro para promover ataques terroristas à Ilha (por exemplo, jogar pragas em lavouras cubanas, interferir nas transmissões da torre de controle do aeroporto de Havana, plantar bombas e disparar rajadas de metralhadora em locais cheio de turistas e cidadãos cubanos).

Para o escritor, o que surpreende é que seu livro conta novidades do passado, e isso significa muito quando se trata de Cuba. “Essa história, na verdade, é um furo jornalístico. O que revela que a postura da grande imprensa em relação à Ilha permanece inalterada mesmo após 52 anos de Revolução”, diz.

SERVIÇO
Festival Literário da Pipa (Flipipa)
Local: Rota Natal–Pipa, Tibau do Sul (RN)
Dia: Sexta-feira, 18 de novembro
Horário: 21 horas, Tenda dos Autores

Clique aqui para ver a programação completa

Cuba pede mobilização das redes sociais pela libertação dos Cinco

Mais de 300 delegados de 45 países protagonizarão, a partir de quarta-feira, dia 16, em Havana, capital de Cuba, o 7º Colóquio Internacional pela Liberdade dos Cinco antiterroristas cubanos condenados a longas penas nos Estados Unidos.

Publicado no Prensa Latina, mas lido no Vermelho, com tradução de Vanessa Silva

O fórum, previsto até domingo, dia 20, inclui várias atividades em solidariedade a Gerardo Hernandez, Ramón Labañino, René Gonzalez, Antônio Guerrero e Fernando Gonzalez, sentenciados após se infiltrarem em grupos de cubanos-estadunidenses violentos que, desde Miami (EUA), executam operações terroristas contra a Ilha, com a complacência do governo de Obama.

Segundo os organizadores, se destaca a convocatória para a intensificação do uso das redes sociais para exigir a Washington a liberdade incondicional e plena dos Cinco, como se conhecem no mundo os antiterroristas.

Também está prevista uma passeata de cerca de 15 mil mulheres das cidades de Holguín, em que se espera a participação da pacifista estadunidense Cindy Sheehan.

Após 13 anos de cárcere, cresce em nível internacional a mobilização para pedir ao presidente estadunidense, Barack Obama, a liberdade incondicional e plena de Gerardo, Ramón, René, Antônio e Fernando. Em 7 de outubro, René Gonzalez foi libertado da prisão, mas tem de cumprir pena de três anos de liberdade vigiada em solo ianque.

Manifestações, coleta de assinaturas, cartas enviadas a Obama, cartazes em cidades centrais e mensagens nas redes sociais fazem parte dos métodos empregados para respaldar a causa dos antiterroristas condenados em um processo repleto de irregularidades.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Cuba avança no desenvolvimento da vacina contra a dengue

Maria Guadalupe
Patricia Grogg, Envolverde

“Não gostamos de falar das metas que temos”, afirma a especialista em vírus Maria Guadalupe Guzmán, evitando entrar em detalhes sobre as pesquisas que dirige com vistas a obter uma vacina contra a dengue. Há várias estratégias em marcha no mundo para encontrar a imunização contra esta febre viral aguda, que pode ser fatal em sua variante mais grave. Enquanto não houver êxito, o mais importante é controlar o Aedes aegypti, o mosquito transmissor do vírus, alerta a pesquisadora cubana.

A dengue não tem fronteiras, é outra de suas mensagens. Sua incidência mundial aumentou “de forma espetacular” nas últimas décadas, e hoje 40% da população do planeta corre risco de contraí-la, afirma a Organização Mundial da Saúde (OMS). Maria Guadalupe trabalha para o Instituto Pedro Kourí (IPK), dirigindo uma equipe de 14 profissionais, a maioria mulheres, em um projeto conjunto com o Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia (CIGB), cujo grupo é encabeçado por Gerardo Guillén.

A grave epidemia que atingiu Cuba em 1981 definiu o caminho desta cientista, chefe do Departamento de Virologia do IPK e diretora do Centro Colaborador da Organização Pan-Americana da Saúde (OPS) e da OMS para o Estudo da Dengue e seu Vetor. O governo cubano afirma que a dengue foi introduzida por agentes dos Estados Unidos. Os estudos dos primeiros casos permitiram inferir que “aquele não foi o padrão de enfermidades transmitidas por mosquitos”, disse Maria Guadalupe em entrevista ao Terramérica.

Pode-se demonstrar que a epidemia de 1981 foi introduzida em Cuba?
Maria Guadalupe Guzmán: Comprovamos que o vírus que circulou naquele momento aqui era semelhante às chamadas cepas velhas do sudeste asiático. Era dos anos 1968 e 1944, e nesse momento já não circulava naquela região. Além disso, um estudo feito pelo Ministério da Saúde Pública permitiu saber que os primeiros casos de dengue apareceram em três lugares diferentes do país, em uma mesma semana e entre pessoas que não haviam viajado a lugar algum. Este não é o padrão de uma doença transmitida por mosquitos.

Como Cuba contribuiu para os estudos sobre a dengue que se desenvolvem no mundo?
MGG: Diria que começam justamente com a epidemia de 1981. Foi a primeira de dengue hemorrágica na região das Américas, e foi preciso aprender durante a epidemia, porque ninguém antes havia enfrentado esse problema. Representou preparar com urgência as condições hospitalares e estabelecer pautas de manejo. Cuba conseguiu em quatro meses eliminar uma epidemia de mais de 300 mil casos, mais de 10 mil severos e 158 mortais. Demonstrou-se que é decisiva a vontade política, a participação da comunidade e de todos os setores do país envolvidos, de uma forma ou de outra, no problema. Com essa experiência, Cuba contribuiu muito, desde a caracterização da epidemia e a clínica dos casos, especialmente nos adultos com dengue hemorrágica –que até esse momento se conhecia apenas no sudeste asiático e em crianças –, até o método de controlar essa epidemia no prazo de quatro meses.

E no campo da virologia?
MGG: No momento da epidemia foi possível comprovar que para haver dengue hemorrágica a infecção secundária é fundamental. Posteriormente, demonstramos que, 20 anos após alguém ter dengue, o perigo de desenvolver a variante hemorrágica é maior, caso a pessoa contraia novamente a doença. Fica-se sob uma espada de Dâmocles por toda a vida. Em Cuba, foi demonstrado que, à medida que uma epidemia avançava e diminuía o número de casos, os graves começavam a aumentar. Aconteceu em três ocasiões. De alguma forma, o vírus muda no tempo em que se desenvolve a epidemia. Também há mudanças na forma de seu genoma. Esta é uma observação nova de Cuba. Em estudos mais recentes se trabalha na pesquisa dos genes do indivíduo, porque seu “estoque” de genes pode favorecer qualquer tipo de doença. Há várias publicações do nosso grupo sobre genes com possível associação à susceptibilidade para dengue hemorrágica ou dengue. Este ano saiu um estudo muito interessante feito no Vietnã sobre a associação de alguns genes à dengue hemorrágica. Nós também fizemos um estudo, com menos casos, publicado este ano. É a mesma observação feita por dois grupos.

Em que medida a mudança climática influi na transmissão da dengue?
MGG: Sabe-se que o clima deve influir, embora haja poucos estudos a respeito. Creio que é um fator, mas não necessariamente o único. A OMS constatou que, quando a temperatura for mais alta em um ou dois graus, o mosquito poderá ser capaz de transmitir o vírus em tempo menor. É uma linha de pesquisa forte.

Há quatro vírus e quatro cepas ou serótipos de dengue. Algum deles está mais relacionado que outros à dengue hemorrágica?
MGG: A dengue hemorrágica é uma classificação clínica, todos os vírus podem produzi-la, embora dentro de um vírus possa haver diferentes cepas. Em geral, aquelas que são isoladas no sudeste asiático ou países asiáticos têm mais potencialidades para produzir dengue hemorrágica. Estes vírus mudam e se transformam ao passarem de uma pessoa para outra. Com o tempo, quando dizemos genótipo asiático já não são as mesmas cepas que chegaram da Ásia.

Estas mutações do vírus complicam a busca pela vacina?
MGG: Sim. Mas agora se avançou muitíssimo neste tema. Atualmente, há seis ou sete candidatas a vacina no mundo. A mais avançada é da Sanofi Pasteur e, segundo as informações, poderá estar pronta dentro de sete anos. É uma vacina viva de vírus quimérico (obtido por DNA recombinado). Há outras candidatas semelhantes que estão em andamento. Nosso projeto é trabalhado entre o IPK e o CIGB. Não é uma vacina viva, mas de subunidade recombinada, com resultados satisfatórios em estudos pré-clínicos com macacos. Ainda não passamos para testes em seres humanos, e não gostamos de falar sobre as metas que temos nesse aspecto.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Reflexões de Fidel: A esmagadora vitória de Daniel Ortega e da FSLN

No domingo, 6 de novembro, houve uma eleição geral na Nicarágua na qual Daniel Ortega e a FSLN obtiveram uma esmagadora vitória.

Por acaso, no dia seguinte se comemorou o 94º aniversário da gloriosa Revolução Socialista Soviética. Páginas inapagáveis da história foram escritas por trabalhadores, campesinos e soldados russos. O nome de Lênin brilhará sempre entre os homens e mulheres que sonham com um destino justo para a humanidade.

Estes temas que são cada vez mais complexos, e nunca serão suficientes os esforços aplicados para educar as novas gerações. Dedico hoje um espaço para comentar este feito, em meio a tantos que ocorrem diariamente no planeta, que chegam noticiados por um número crescente de vias apenas imaginadas há algumas décadas.

Devo dizer que as eleições na Nicarágua foram ao estilo tradicional e burguês, que nada têm de justo ou equitativo – já que os setores oligárquicos, de caráter antinacional e pró-imperialista, dispõem como norma do monopólio dos recursos econômicos e publicitários, que, em geral, e de modo especial em nosso hemisfério, estão a serviço dos interesses políticos e militares do império – o que ressalta a magnitude da vitória sandinista.

É uma verdade que se conhece bem em nossa pátria desde que Martí desceu em Dois Rios em 19 de maio de 1895, para “impedir a tempo com a independência de Cuba, que os Estados Unidos se estendessem pelas Antilhas e, com essa força a mais, desabassem sobre nossas terras da América”. Não nos cansaremos nunca de repeti-lo, especialmente depois de nosso povo ter sido capaz de suportar duramente meio século de bloqueio econômico e as mais brutais agressões desse império.

Sandinismo
Não é, no entanto, o ódio o que move nosso povo, são as ideias. Delas nasceu nossa solidariedade com o povo de Sandino, o general de homens livres, cujos feitos líamos com admiração, quando há mais de 60 anos éramos estudantes universitários e sem as maravilhosas perspectivas culturais dos que, há poucos dias, juntamente com estudantes de ensino médio, participaram no que já é uma bela tradição: o Festival Universitário do Livro e da Leitura.

A morte heroica do herói nicaraguense, que lutou contra os ocupantes ianques de seu território, foi sempre uma fonte de inspiração para os revolucionários cubanos. Nada tem de estranho nossa solidariedade com o povo nicaraguense, expressada desde os primeiros dias do triunfo revolucionário em Cuba, o 1º de janeiro de 1959.

O diário Granma nos lembrava na terça, dia 8, a morte heroica, em novembro de 1976, apenas dois anos e meio antes do triunfo, do fundador da FSLN, Carlos Fonseca Amador, “valente vencedor da morte”, como diz uma bela canção escrita em sua memória “namorado da Pátria vermelha e negra, Nicarágua inteira te grita presente”.

Conheço bem Daniel; nunca adotou posições extremistas e foi sempre invariavelmente fiel a princípios básicos. Responsabilizado com a presidência a partir de uma direção política colegiada, se caracterizou por sua conduta respeitosa frente aos pontos de vista dos companheiros de tendências surgidas dentro do Sandinismo em determinada etapa da luta antes do triunfo. Converteu-se assim em um fator de unidade entre os revolucionários e sustentou constantes contatos com o povo. A isso se deveu a grande ascendência que adquiriu entre os setores mais humildes de Nicarágua.

Revolução
A profundidade da Revolução Sandinista conquistou o ódio da oligarquia nicaraguense e do imperialismo ianque.

Os crimes mais atrozes foram levados a cabo contra seu país e seu povo, na guerra suja que Reagan e Bush promoveram a partir da presidência e da Agência Central de Inteligência.

Numerosos bandos contrarrevolucionários foram organizados, treinados e fornecidos por eles; o tráfico de drogas se converteu em um instrumento de financiamento da contrarrevolução e dezenas de milhares de armas introduzidas no país provocaram a morte ou mutilação de milhares de nicaraguenses.

Os sandinistas mantiveram as eleições em meio àquela desigual e injusta batalha.

A esta situação se somou o colapso do socialismo, a iminente desintegração da URSS e o início do Período Especial em nossa pátria. Em tão difíceis circunstâncias e apesar do apoio majoritário do povo nicaraguense, expressado em todas as pesquisas de opinião, foi impossível uma eleição vitoriosa.

O povo nicaraguense se viu obrigado a suportar novamente quase 17 anos de governos corrompidos e pró-imperialistas. Os índices de saúde, alfabetização e justiça social instaurados na Nicarágua começaram a cair dolorosamente. No entanto, os revolucionários sandinistas sob a direção de Daniel continuaram sua luta ao longo daqueles amargos anos, e de novo o povo recuperou o governo, ainda que em condições extremamente difíceis que exigiam o máximo de experiência e sabedoria política.

Cuba continuava sob o brutal bloqueio ianque, sofrendo também as duras consequências do Período Especial e a hostilidade de um dos piores assassinos que já governaram os Estados Unidos, George W. Bush, o filho do pai que havia promovido a guerra suja na Nicarágua, a liberdade do terrorista Posada Carriles para distribuir armas entre os contrarrevolucionários da Nicarágua e perdoou Orlando Bosch, o outro autor do crime de Barbados.

No entanto, uma nova etapa se iniciava em nossa América com a Revolução Bolivariana na Venezuela e a chegada ao poder, no Equador, Bolívia, Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai, de governos comprometidos com a independência e a integração dos povos latino-americanos.

Solidariedade de Cuba
Com satisfação posso afirmar, contudo, que a solidariedade de Cuba com a pátria de Sandino jamais cessou no campo da solidariedade política e social. Devo enfatizar com toda justiça que a Nicarágua foi um dos países que melhor utilizou a colaboração de Cuba na saúde e na educação.

Os milhares de médicos que prestaram seus serviços nesse heroico país irmão se sentem realmente estimulados pelo excelente uso e o emprego que os sandinistas têm dado a seus esforços. O mesmo se pode afirmar com relação aos milhares de professores que um dia, na primeira fase do processo, foram para as mais longínquas montanhas para ensinar os campesinos a ler e escrever. Hoje, as experiências educativas em geral, e de modo especial as práticas de ensino de medicina da Escola Latino-americana de Medicina, onde se formam milhares de excelentes médicos, foram transferidas para a Nicarágua. Tais realidades constituem um excelente estímulo para nosso povo.

Estes detalhes que menciono não constituem mais que um exemplo do fecundo esforço dos revolucionários sandinistas em prol do desenvolvimento de sua pátria.

Daniel Ortega
O fundamental do papel de Daniel e a razão, a meu ver, de sua esmagadora vitória, é que nunca se distanciou do contato com o povo e a incessante luta por seu bem-estar.

É hoje um líder verdadeiramente experimentado que foi capaz de manejar situações complexas e difíceis a partir dos anos em que seu país esteve de novo sob a égide do capitalismo predatório. Sabe manejar problemas complicados de forma inteligente, o que pode ou não pode, o que deve ou não deve fazer para garantir a paz e o avanço sustentável do desenvolvimento econômico e social do país. Sabe muito bem que deve a arrebatadora vitória ao seu povo heroico e valente, por sua ampla participação e quase dois terços dos votos a seu favor. Foi capaz de vincular-se estreitamente com os trabalhadores, campesinos, estudantes, jovens, mulheres, técnicos, profissionais, artistas e todos os setores e forças progressistas que sustentam e fazem o país avançar. É, a meu ver, muito correto o chamado a todas as forças políticas democráticas dispostas a trabalhar pela independência e desenvolvimento econômico e social do país.

No mundo atual, os problemas são extremamente complexos e difíceis. Mas, enquanto o mundo existir, os países pequenos podem e devem exercer seus direitos à independência, à cooperação, ao desenvolvimento e à paz.


Fidel Castro

Tradução: Vermelho, Vanessa Silva.