terça-feira, 15 de novembro de 2011

Cuba avança no desenvolvimento da vacina contra a dengue

Maria Guadalupe
Patricia Grogg, Envolverde

“Não gostamos de falar das metas que temos”, afirma a especialista em vírus Maria Guadalupe Guzmán, evitando entrar em detalhes sobre as pesquisas que dirige com vistas a obter uma vacina contra a dengue. Há várias estratégias em marcha no mundo para encontrar a imunização contra esta febre viral aguda, que pode ser fatal em sua variante mais grave. Enquanto não houver êxito, o mais importante é controlar o Aedes aegypti, o mosquito transmissor do vírus, alerta a pesquisadora cubana.

A dengue não tem fronteiras, é outra de suas mensagens. Sua incidência mundial aumentou “de forma espetacular” nas últimas décadas, e hoje 40% da população do planeta corre risco de contraí-la, afirma a Organização Mundial da Saúde (OMS). Maria Guadalupe trabalha para o Instituto Pedro Kourí (IPK), dirigindo uma equipe de 14 profissionais, a maioria mulheres, em um projeto conjunto com o Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia (CIGB), cujo grupo é encabeçado por Gerardo Guillén.

A grave epidemia que atingiu Cuba em 1981 definiu o caminho desta cientista, chefe do Departamento de Virologia do IPK e diretora do Centro Colaborador da Organização Pan-Americana da Saúde (OPS) e da OMS para o Estudo da Dengue e seu Vetor. O governo cubano afirma que a dengue foi introduzida por agentes dos Estados Unidos. Os estudos dos primeiros casos permitiram inferir que “aquele não foi o padrão de enfermidades transmitidas por mosquitos”, disse Maria Guadalupe em entrevista ao Terramérica.

Pode-se demonstrar que a epidemia de 1981 foi introduzida em Cuba?
Maria Guadalupe Guzmán: Comprovamos que o vírus que circulou naquele momento aqui era semelhante às chamadas cepas velhas do sudeste asiático. Era dos anos 1968 e 1944, e nesse momento já não circulava naquela região. Além disso, um estudo feito pelo Ministério da Saúde Pública permitiu saber que os primeiros casos de dengue apareceram em três lugares diferentes do país, em uma mesma semana e entre pessoas que não haviam viajado a lugar algum. Este não é o padrão de uma doença transmitida por mosquitos.

Como Cuba contribuiu para os estudos sobre a dengue que se desenvolvem no mundo?
MGG: Diria que começam justamente com a epidemia de 1981. Foi a primeira de dengue hemorrágica na região das Américas, e foi preciso aprender durante a epidemia, porque ninguém antes havia enfrentado esse problema. Representou preparar com urgência as condições hospitalares e estabelecer pautas de manejo. Cuba conseguiu em quatro meses eliminar uma epidemia de mais de 300 mil casos, mais de 10 mil severos e 158 mortais. Demonstrou-se que é decisiva a vontade política, a participação da comunidade e de todos os setores do país envolvidos, de uma forma ou de outra, no problema. Com essa experiência, Cuba contribuiu muito, desde a caracterização da epidemia e a clínica dos casos, especialmente nos adultos com dengue hemorrágica –que até esse momento se conhecia apenas no sudeste asiático e em crianças –, até o método de controlar essa epidemia no prazo de quatro meses.

E no campo da virologia?
MGG: No momento da epidemia foi possível comprovar que para haver dengue hemorrágica a infecção secundária é fundamental. Posteriormente, demonstramos que, 20 anos após alguém ter dengue, o perigo de desenvolver a variante hemorrágica é maior, caso a pessoa contraia novamente a doença. Fica-se sob uma espada de Dâmocles por toda a vida. Em Cuba, foi demonstrado que, à medida que uma epidemia avançava e diminuía o número de casos, os graves começavam a aumentar. Aconteceu em três ocasiões. De alguma forma, o vírus muda no tempo em que se desenvolve a epidemia. Também há mudanças na forma de seu genoma. Esta é uma observação nova de Cuba. Em estudos mais recentes se trabalha na pesquisa dos genes do indivíduo, porque seu “estoque” de genes pode favorecer qualquer tipo de doença. Há várias publicações do nosso grupo sobre genes com possível associação à susceptibilidade para dengue hemorrágica ou dengue. Este ano saiu um estudo muito interessante feito no Vietnã sobre a associação de alguns genes à dengue hemorrágica. Nós também fizemos um estudo, com menos casos, publicado este ano. É a mesma observação feita por dois grupos.

Em que medida a mudança climática influi na transmissão da dengue?
MGG: Sabe-se que o clima deve influir, embora haja poucos estudos a respeito. Creio que é um fator, mas não necessariamente o único. A OMS constatou que, quando a temperatura for mais alta em um ou dois graus, o mosquito poderá ser capaz de transmitir o vírus em tempo menor. É uma linha de pesquisa forte.

Há quatro vírus e quatro cepas ou serótipos de dengue. Algum deles está mais relacionado que outros à dengue hemorrágica?
MGG: A dengue hemorrágica é uma classificação clínica, todos os vírus podem produzi-la, embora dentro de um vírus possa haver diferentes cepas. Em geral, aquelas que são isoladas no sudeste asiático ou países asiáticos têm mais potencialidades para produzir dengue hemorrágica. Estes vírus mudam e se transformam ao passarem de uma pessoa para outra. Com o tempo, quando dizemos genótipo asiático já não são as mesmas cepas que chegaram da Ásia.

Estas mutações do vírus complicam a busca pela vacina?
MGG: Sim. Mas agora se avançou muitíssimo neste tema. Atualmente, há seis ou sete candidatas a vacina no mundo. A mais avançada é da Sanofi Pasteur e, segundo as informações, poderá estar pronta dentro de sete anos. É uma vacina viva de vírus quimérico (obtido por DNA recombinado). Há outras candidatas semelhantes que estão em andamento. Nosso projeto é trabalhado entre o IPK e o CIGB. Não é uma vacina viva, mas de subunidade recombinada, com resultados satisfatórios em estudos pré-clínicos com macacos. Ainda não passamos para testes em seres humanos, e não gostamos de falar sobre as metas que temos nesse aspecto.

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