segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Os últimos soldados da Guerra Fria passaram pelo Fórum Social em Porto Alegre

Fernando Morais relança seu livo no FST. Foto: Ramiro Furquim/Sul21

Samir Oliveira, via Sul21

Ao ouvir uma notícia no rádio enquanto estava num táxi em São Paulo, em 1998, Fernando Morais pensou que poderia escrever um livro de aventuras sobre o assunto. Mas acabou colidindo com uma história política. Ao longo de três anos de trabalho, o jornalista descobriu que também havia amor, sonhos e personagens fascinantes por trás da trajetória dos cinco cubanos presos nos Estados Unidos, acusados de conspiração contra o governo. O resultado está condensado nas 416 páginas do livro Os últimos soldados da Guerra Fria, relançado na sexta-feira, dia 27, em Porto Alegre, dentro das atividades da edição temática do Fórum Social Mundial.

Fernando Morais contou os bastidores da obra numa descontraída conversa com leitores no Sindibancários. Ele explicou que enfrentou preconceitos tanto em Cuba quanto nos Estados Unidos. Os primeiros desconfiavam de suas intenções, achavam que ele poderia preparar material contrário à Revolução. Os norte-americanos viam o autor – que também escreveu a biografia de Olga Benário – como um comunista convicto.

Persistente, o jornalista insistiu, incomodou, fez inúmeras e complicadas viagens a Havana e Miami, até que conseguiu ter acesso a documentos oficiais. Também conversou com agentes aposentados do FBI que participaram da prisão dos cubanos e, inclusive, entrevistou os detidos.

“Percebi que metade dessa história é cubana e a outra metade, norte-americana”, comentou. Para contar a história de Gerardo Hernandez, Ramon Labañino, Fernando Gonzalez, Antônio Guerrero e René Gonzalez, o escritor chegou a interceder junto ao presidente venezuelano, Hugo Chavez, e ao amigo Frei Betto – que se encontraria com Raul Castro, comandante da ilha comunista – para que ambos aliviassem as restrições que o regime estava impondo à liberação de documentos oficiais sobre o caso.

As investidas funcionaram. “Uma semana depois recebi um e-mail informando que os documentos estariam disponíveis”, conta. A partir daí, ele mergulhou num “megadossiê” que Fidel Castro havia enviado ao então presidente norte-americano, Bill Clinton, expondo o perigo das atividades que a comunidade anticastrista em Miami estava realizando.

As informações haviam sido coletadas justamente pelos agentes cubanos enviados à Flórida em 1990, que viveram até 1998 totalmente infiltrados nas organizações de extrema-direita que planejavam e executavam atos terroristas contra o regime de Cuba. Fernando Morais também conseguiu por as mãos num relatório feito por Gabriel Garcia Marquez, que intermediou as conversas entre Fidel e Clinton. “O informe é uma delícia, qualquer coisa escrita por ele é uma delícia, até bula de remédio”, brincou.

O jornalista conversou, em Havana, com um dos mercenários contratados pelas organizações de extrema-direita em Miami para colocar bombas na capital cubana. “Uma pessoa totalmente fora de esquadro. Disse que não fez aquilo por dinheiro ou ideologia, mas porque queria ser igual ao Silvester Stallone”, contou, arrancando risos do público.

O salvadorenho Raul Ernesto Cruz, que está preso em Cuba, era segurança de celebridades e decidiu largar tudo para colocar bombas em Havana. Ganhava US$1,5 mil por artefato. Quando Morais passou mais de 12 horas conversando com ele na prisão, Raul Ernesto ainda estava condenado à morte – posteriormente, sua pena foi abrandada.

Na ocasião, o ex-terrorista confessou ao escritor brasileiro que teria um final bem diferente de seu ídolo. “Sabe qual a merda? O Stallone termina os filmes na cama da Sharon Stone e eu vou terminar na frente de um pelotão de fuzilamento”, comparou.

O livro de Fernando Morais já vendeu mais de 70 mil exemplares e será comercializado no Estados Unidos, em Cuba, na Espanha, em Portugal e no México. Além disso, já está com os direitos comprados para se tornar um filme.

O escritor espera que a penetração da obra nos Estados Unidos ajude a informar melhor os norte-americanos sobre a história dos cinco cubanos detidos no país. “A sociedade norte-americana praticamente não tem notícias desse caso, há uma profunda desinformação”, critica.

Tarso Genro: “Esquerda precisa perder
o medo da mídia.”
O jornalista considera que o processo contra os cubanos – agentes do governo comunista infiltrados em organizações anticastristas de extrema-direita nos Estados Unidos – acusados de conspiração é uma “indecência” e uma “hipocrisia” do governo norte-americano. “Com o livro, tenho a possibilidade de contar a história dessa indecência para o maior número de pessoas possível”, anima-se.

O governador Tarso Genro (PT) esteve presente no lançamento do livro de Fernando Morais, Os últimos soldados da Guerra Fria, e disse que os partidos políticos de esquerda não costumam debater temas complexos, como o caso do governo cubano, por exemplo, por terem medo das reações da imprensa ao tema. “Há um esvaziamento dos valores da esquerda mundial. Em regra, as esquerdas secundarizam debates como esse sobre Cuba porque sabem que serão mastigados negativamente pela mídia, que cria uma série de ‘pré-conceitos’”, criticou.

O governador disse que esses “pré-conceitos” da mídia sobre determinados temas constituem-se numa “arma política de dominação contra a esquerda”. “Esses temas ácidos não têm composto a agenda da esquerda no país por medo da mídia. Esse medo tem que ser vencido, senão a esquerda não se recupera. É preciso coragem”, conclamou Tarso.

Ele diz que, nos Estados Unidos, a mídia consolidou na “cidadania média” norte-americana a informação de que os cubanos presos são “espiões e terroristas”. “Estavam lá para investigar dentro da comunidade civil cubana atos de terrorismo praticados por cubanos”, explicou o governador.

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