quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Após “sequestro amável”, Fangio foi amigo de cubanos até a morte

De volta a Havana em 1981, Fangio (e) reencontra Faustino Perez,
chefe da operação do sequestro de 1958
Bruno Ceccon, de Havana, via Gazeta Esportiva Net

Para Juan Manuel Fangio, um “sequestro amável”. Para seus captores, uma “retenção patriótica”. Impedido por seguidores de Fidel Castro de participar da corrida organizada pelo ditador Fulgêncio Batista em 1958, o argentino pentacampeão mundial de Fórmula 1 reencontrou os algozes repetidas vezes e manteve laços de amizade com alguns deles até sua morte, em 1995.

Com a corrida, Batista pretendia tirar o foco do progresso da insurreição comandada por Fidel, o que seria potencializado pelas comemorações do dia 24 de fevereiro, data que marca o começo do processo de independência de Cuba. Os revolucionários chegaram a seguir os passos de Fangio antes da edição de 1957 da prova, vencida pelo argentino e explorada em larga escala pelo ditador, mas o sequestro ficou para o ano seguinte.

“Queríamos chamar a atenção sobre o processo revolucionário cubano e fazer com que o mundo conhecesse a existência da guerrilha na Sierra Maestra e a luta clandestina nas cidades. Em poucas palavras, que se conhecesse mais de Cuba e sua confrontação por meio das armas. Por isso, o sequestro seria uma breve retenção, uma retenção patriótica”, explica Arnol Rodriguez, um dos participantes da ação, no livro Operación Fangio, vendido em sebos de Havana por cerca de R$2,50.

Dos 82 guerrilheiros que viajaram do México para Cuba sob as ordens de Fidel Castro, apenas 14 sobreviveram às batalhas com o exército regular após um desembarque desastroso na Ilha em dezembro de 1956. Refugiado na Sierra Maestra, região remota da ilha, o comandante soube como se aproveitar da imprensa para fazer propaganda e ganhar o apoio da opinião pública, inclusive no exterior.

Logo em fevereiro de 1957, Fidel recebeu o jornalista norte-americano Herbert Matthews, do New York Times. O repórter foi levado ao local do encontro de forma clandestina e retratou o cubano como um líder jovem e carismático. A matéria teve grande repercussão, especialmente porque o governo de Batista assegurava que o revolucionário estava morto. No final de abril, ele concedeu entrevista para a CBS, emissora de TV dos Estados Unidos.

Detido em três ocasiões, Arnol Rodriguez passou mais de seis meses preso e, na época do sequestro, era o responsável pelo setor de propaganda dos revolucionários. Por meio de contatos na imprensa, ele apurou data e horário do desembarque de Fangio em Havana, além do quarto em que o piloto ficaria no Hotel Lincoln. “Havia chegado o momento de um enfrentamento entre a propaganda revolucionária e a propaganda mercenária da ditadura”, relatou.

Desta forma, o argentino foi vigiado desde sua chegada ao aeroporto de Havana, no dia 21 de fevereiro de 1958, uma sexta-feira. A princípio, os revolucionários acreditavam que o Hotel Lincoln não era o local adequado para o sequestro e se organizaram para tentar a ação na saída de uma emissora de televisão, mas havia muita gente no local. À noite, o piloto reconheceu o circuito a pé, porém estava fortemente protegido.

Com a proximidade da corrida, os revolucionários resolveram executar a captura no Lincoln. Divididos em três carros, cada um com uma metralhadora, nove seguidores de Fidel se dirigiram ao local. Um deles ligou para o quarto do piloto se passando por um jornalista e apurou que o argentino desceria para o jantar. A porta do elevador abriu-se às 20h40 e Fangio, ao lado de seu empresário, encontrou alguns amigos que o esperavam.

Imediatamente, Manuel Uziel se aproximou do grupo e chamou o piloto. “Para que me quer?”, questionou Fangio. “Sou do Movimento 26 de Julho e vamos sequestrá-lo”, anunciou o cubano. O argentino sorriu e pareceu achar que se tratava de uma brincadeira, mas mudou de ideia ao sentir uma pistola contra suas costelas. Um dos acompanhantes do astro fez menção de reagir e ouviu a ameaça: “Se você se mexer outra vez, eu disparo.”

Ao lado do companheiro Primitivo Aguilera, Uziel conduziu Fangio para a rua sob a mira do revólver. O restante do grupo, incluindo uma mulher grávida, protegia a operação do lado de fora. O piloto foi colocado em um carro Plymouth verde e levado até a casa de Uziel, que apresentou o pentacampeão do mundo à mulher e ao filho pequeno.

Como qualquer dano a Fangio seria desastroso para a reputação da guerrilha, os captores procuraram tratá-lo de forma cordial. Ao encontrar o piloto, Faustino Perez, chefe da operação, cumprimentou-o e pediu desculpas, dizendo que “Cuba não estava para festas”. “O corredor parecia sereno e chegou a oferecer cigarros aos presentes”, relatou Arnol Rodriguez. Colocado em outro veículo, foi levado a uma nova casa, em um bairro de classe média.

Após o sucesso da operação de captura, os revolucionários enviaram a seguinte mensagem a membros da imprensa: “Fala o 26 de Julho. Fangio está em nosso poder, não competirá amanhã.” Os captores contataram a embaixada argentina e garantiram que a integridade física do piloto seria preservada, além de solicitar que a família do astro na Argentina fosse informada.

Fangio jantou na segunda casa e depois conversou com todos os presentes. De acordo com Rodriguez, contou de sua visita a Cuba no ano anterior e se interessou pelas vidas pessoais dos sequestradores, além de demonstrar surpresa com a juventude do grupo e a disposição de lutar. Descontraído, disse que sua mulher já o teria encontrado se estivesse em Havana.

“Ele se mostrava tranquilo e talvez surpreso pelo tratamento oferecido. Era um ambiente aprazível, não isento de certa tensão, que todos nos empenhávamos em encobrir”, relatou Rodriguez em seu livro. “Ele nos observava e analisava, na verdade nos esquadrinhava. Alguns de nós fazíamos exatamente o mesmo com ele.”

No dia seguinte, Fangio recebeu o café da manhã no quarto, tomou banho, fez a barba e vestiu terno. Ao ver os jornais com a notícia do sequestro, teria dito: “Se vê que vocês estão organizados e sabem o que querem!” No dia 24 de fevereiro, os revolucionários procuraram colocar o argentino a par do momento político da Ilha. Um encontro com jornalistas chegou a ser cogitado, mas a ideia foi descartada em seguida.

Arnol Rodriguez (d) visita Fangio
em Balcarce, na Argentina,
sua cidade natal, em 1992
Segundo o relato de Rodriguez, o piloto preferiu não acompanhar a prova e apenas ouviu o começo da disputa pelo rádio. Em seguida, sentou-se no terraço e escutou músicas instrumentais. Informado do acidente com vítimas fatais que provocou o final da corrida, ficou seriamente abalado. Os revolucionários queriam libertar Fangio logo depois do evento para evidenciar que a única intenção foi impedir sua participação na disputa.

Os captores combinaram o local da soltura com pessoas ligadas à embaixada argentina. Após certa tensão, o processo de entrega, chefiado por Rodriguez, teve sucesso. “Na hora da devolução, Fangio, quase sorrindo, disse aos três homens que o esperavam com caras serias: ‘Esses são meus amáveis sequestradores, meus amigos sequestradores’”, relatou o cubano. O piloto portava uma carta dirigida ao embaixador, a seu país e ao povo argentino.

O Museu da Revolução, uma das principais atrações turísticas de Cuba, exibe um texto escrito de próprio punho por Fangio, datado de 24 de fevereiro de 1958, dia de sua soltura. “Esclareço que durante meu sequestro amável o trato foi completamente familiar, com atenções cordiais e somente me pediram desculpas por esta situação, alheia a minha pessoa”, diz a mensagem assinada pelo piloto.

Para os revolucionários, a ação foi um sucesso à medida que ganharam a simpatia de Fangio e a notícia foi veiculada nos cinco continentes. “É provável que, em alguns lugares, determinadas pessoas se inteiraram pela primeira vez da existência de Cuba e souberam que se tratava de um país em luta tenaz por sua soberania, sua liberdade e sua independência”, escreveu Arnol Rodriguez.

Em 1981, Fangio voltou a Cuba como membro de uma delegação da Mercedez-Benz para assuntos comerciais e foi recebido no aeroporto por Rodriguez, então integrante do Ministério de Comércio Exterior. Após reconhecer um de seus sequestradores, o já ex-piloto cumprimentou-o afetuosamente. Durante a semana que ficou em Havana, reencontrou outros captores, conheceu Fidel Castro e viu alguns dos logros da Revolução.

Nos anos de 1982 e 1984, Rodriguez foi a Buenos Aires e voltou a encontrar Fangio. Em 1983, Faustino Perez, chefe da operação de sequestro, enviou uma saudação a Fangio com a assinatura “seus amigos sequestradores” para festejar o 25º aniversário da “retenção patriótica”. Já em 1992, o argentino mandou condolências pela morte de Perez.

No mesmo ano de 1992, Fangio convidou os captores para o aniversário de seis anos do museu que leva seu nome na cidade de Balcarce, sua terra natal. Na ocasião, Rodriguez conheceu a família do argentino e ofereceu ao acervo do memorial um troféu pela corrida que o piloto não pôde participar. Em 1995, autorizado pela sobrinha do amigo seriamente doente, o cubano foi um dos poucos a visitá-lo. No mesmo ano, Fidel Castro e Rodriguez enviaram coroas de flores ao enterro.

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