quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Cuba e seu futuro, sem o bloqueio informativo da mídia dominante


O livro Cuba sem bloqueio apresenta um retrato da realidade cubana, substancialmente diferente do que costuma ser mostrado pelos oligopólios da comunicação. O trabalho traz revelações surpreendentes até para os mais bem informados. Seus autores questionam: se o socialismo cubano é uma experiência fracassada, como explicar suas redes de educação, de atenção à saúde e de assistência social, que rivalizam com as dos países mais ricos do mundo? 


Acaba de sair o livro Cuba sem bloqueio: a Revolução Cubana e seu futuro, sem as manipulações da mídia dominante, de Hideyo Saito e Antônio Gabriel Haddad, da Radical Livros. Como anuncia o título, o trabalho procura mostrar a realidade cubana atual de forma direta e fundamentada, sem o bloqueio informativo que distingue a cobertura da mídia dominante. Cuba costuma ser caracterizada por esses órgãos de comunicação como uma ditadura decadente, com população empobrecida e oprimida, disposta a escapar para Miami ao menor descuido da polícia, graças ao fracasso indiscutível do regime socialista. Em contraste, Cuba sem bloqueio revela uma sociedade pobre, sim, mas razoavelmente harmônica, sem miséria, sem fome, sem analfabetismo, sem violência social e sem crianças abandonadas, imersa em um clima de debate aberto sobre como criar um socialismo capaz de unir prosperidade econômica, democracia e progresso social.

Para chegar a esse resultado, os autores pesquisaram em fontes cubanas e de vários outros países, independentemente de sua orientação política. Foram consultados livros, estudos acadêmicos, estatísticas, relatórios de organizações cubanas e internacionais (Unesco, Organização Mundial da Saúde, Cepal, Banco Mundial e muitas outras), publicações de think tanks (como o Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos), além de periódicos, portais noticiosos da internet e outras fontes. Nos 12 capítulos redigidos com base no material reunido, Saito e Haddad relatam como a ilha caribenha decidiu permanecer socialista depois do súbito desaparecimento de seus parceiros comerciais do leste europeu, do recrudescimento do bloqueio econômico dos Estados Unidos e da expansão mundial da hegemonia neoliberal. Eles narram um processo de construção social que ainda luta para superar seus problemas, encarados como consequência de erros e de dificuldades políticas e econômicas de toda ordem, mas também de agressões e de obstáculos criados pelas potências dominantes.

O livro reconstitui a saída do líder histórico Fidel Castro do poder, a emoção do povo com seu afastamento e o início do governo dirigido por Raul Castro, caracterizado pelas medidas econômicas tomadas para corrigir distorções que se acumularam devido às políticas emergenciais dos anos 1990. As decisões foram amadurecidas em debates públicos travados por economistas, sociólogos, cientistas sociais e dirigentes governamentais, que têm tido ecos em assembleias de trabalhadores e de estudantes em todo o país e repercutem ainda em conversas particulares, em obras artísticas, em publicações acadêmicas e também na mídia local.

Reinventar o socialismo
As discussões são dominadas por temas econômicos, mas abrangem também questões como o modelo eleitoral em vigor, a ampliação da liberdade de expressão artística e cultural, o reconhecimento pleno das uniões homoafetivas. Mais especificamente, constam da agenda os seguintes pontos: redefinição dos objetivos do sistema socialista; construção de um sistema econômico funcional, com a adoção complementar de formas de propriedade mista, cooperativada e privada; elevação qualitativa da participação popular; maior poder para a Assembleia Nacional; descentralização administrativa; fim do controle burocrático sobre a produção artística e cultural. Para o sociólogo Aurélio Alonso, subdiretor da revista Casa de las Américas, trata-se de criar um modelo capaz de assegurar a complementação entre justiça social e desenvolvimento econômico. No plano político, analisa Alonso, a História mostrou que o socialismo não se mantém sem democracia. Para ele, se houvesse um verdadeiro poder popular na União Soviética, Gorbatchov poderia ter sido bem-sucedido em reinventar o sistema socialista. 

Cuba sem bloqueio relata que os projetos de lei mais importantes são debatidos antes pela população, para só então serem enviados à Assembleia Nacional do Poder Popular já com as alterações sugeridas. Foi em um processo desse tipo que, no início da década de 1990, o povo cubano se manifestou pela continuidade da construção socialista no país, apesar da conjuntura crítica surgida pela derrocada do socialismo europeu. Mostra também que os deputados eleitos (equivalentes aos nossos representantes da Câmara Federal) continuam a receber o salário que tinham em seus respectivos trabalhos, sem mordomia. Relata ainda o caso de um dissidente que tentou se candidatar a representante municipal, obtendo apenas 5% dos votos dos moradores de sua região. O livro conta que a posição do judiciário cubano, que deu ganho de causa a trabalhadores das áreas de arte e cultura vitimados por atos arbitrários do período conhecido como “quinquênio cinza” (década de 1970), ajudou a derrubar a própria política repressiva. 

Cuba sem bloqueio disseca a chamada dissidência cubana. Em 2006, segundo relatório da Anistia Internacional, foi realizado em Cuba um encontro de “mais de 350 entidades dissidentes”, ao qual compareceram, paradoxalmente, apenas 171 delegados (isto é, menos de meio representante por organização!). O governo cubano diz que são entidades de fachada, criadas para facilitar o recebimento de dinheiro do escritório de representação dos EUA em Cuba. A verdade é que esses grupos guardam pouca semelhança com a oposição democrática que, na maioria dos países da América Latina, lutou contra ditaduras militares. Em que pese a repressão do período no Brasil, por exemplo, a oposição se organizou, ocupou espaços, promoveu manifestações de rua, enfim, enfrentou a ditadura. Muito sangue foi derramado, mas cada vez mais gente se uniu à exigência pelo fim do regime, até que este desmoronou. A dissidência cubana, ao contrário, não consegue crescer e aparecer, mesmo com todo o apoio de Washington e da mídia. É patético, a propósito, que o jornal O Estado de S. Paulo estampe como manchete, com direito à principal foto da edição, uma manifestação de protesto que reuniu dez (isso mesmo, uma dezena!) mulheres no centro de Havana. 

Sítio medieval
Outro ponto forte do livro está no relato de como funciona o bloqueio econômico contra Cuba e como ele repercute no dia a dia da população. A medida de força é mantida unilateralmente por Washington, apesar da condenação anual de praticamente todos os países membros da ONU. Em outubro de 2011, a resolução que pedia o fim do bloqueio teve o apoio de 186 países, com o voto contrário apenas dos Estados Unidos e de Israel. O bloqueio fecha a Cuba o acesso ao maior mercado consumidor do mundo e proíbe os seguintes tipos de empresas de comercializar com a Ilha: subsidiárias de empresas estadunidenses no exterior, companhias que tenham participação acionária ou cujos produtos contenham pelo menos 10% de peças, componentes ou tecnologia estadunidense e, de forma ampla e irrestrita, todas as firmas que pretendam negociar com os EUA.

Mais ainda: o navio mercante que aportar em território cubano não poderá utilizar portos estadunidenses durante os seis meses seguintes. Proíbe ainda qualquer organização que receba fundos estadunidenses de conceder crédito a Cuba, além de impedir o país de utilizar o dólar em suas transações internacionais, de operar por meio de bancos que mantenham negócio com os Estados Unidos e de usar a rede de fibra óptica para conexão à internet. Por último, cidadãos dos EUA não podem viajar a Cuba e vice-versa.
Ou seja, o bloqueio é uma versão moderna do sítio medieval, que tem o objetivo de estrangular economicamente o país. Cuba é obrigada a utilizar intermediários e empresas de fachada em seu comércio exterior, pagando cada transação à vista e incorrendo em comissões, fretes adicionais e taxas de risco que representam um custo adicional de 20 a 100% do valor de mercado do bem importado, segundo cálculos oficiais. Um estudo de 1992 da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), da ONU, avaliou que, enquanto Cuba contou com seus parceiros comerciais do mundo socialista, o bloqueio repercutia sobre 15% do intercâmbio do país; depois, passou a afetar toda a economia.

Outra nefasta política do governo estadunidense enfocada pelos autores é a Lei de Ajuste Cubano, que concede a condição de refugiado político e visto de residência permanente a qualquer cubano que chegar aos Estados Unidos, em contraste com o tratamento dado aos demais latino-americanos. Washington costuma usar a atração exercida por essa lei e a não concessão de visto regular de entrada nos EUA a cidadãos cubanos, esperando provocar saídas ilegais e desordenadas, que possam servir de propaganda contra a revolução. O livro de Saito e Haddad cita números oficiais estadunidenses para comprovar que, mesmo nessas condições, o fluxo de cubanos que vão aos Estados Unidos é proporcionalmente menor do que o de muitos países latino-americanos. Menciona também o crescente ativismo de exilados favoráveis à revolução, que criaram associações de solidariedade a Cuba em pelo menos 45 países das Américas, da Europa, da Ásia e da África, incluindo o Brasil. 

O verdadeiro crime de Cuba
Cuba sem bloqueio também aborda fatos que costumam ser omitidos ou minimizados pelos órgãos dominantes de comunicação. É o caso das políticas sociais do país, elogiadas por estudos de organizações internacionais tão insuspeitas (para o caso) como o Banco Mundial e os órgãos ligados à ONU. Num relatório intitulado “Panorama Social da América Latina e do Caribe 2000-2001”, a Cepal observa que, além de investir mais que seus vizinhos da região em programas sociais, Cuba não sacrificou o bem-estar da população quando sua economia entrou em depressão, nos idos de 1990. Os investimentos reais per capita na área social cresceram aproximadamente 23% ao ano entre 1993 e 2001, enquanto o incremento médio do PIB foi de 1,6% anual no mesmo período.

Os resultados são visíveis para quem quiser enxergá-los. Um exemplo apenas: os estudantes cubanos foram os grandes destaques das duas pesquisas comparativas organizadas pela Unesco para avaliar as redes de ensino de países da América Latina, nos moldes dos famosos levantamentos da OCDE. Na primeira delas, o desempenho cubano foi tão superior ao dos demais países que a Unesco pensou ter havido algum equívoco. Por isso refez o teste com outra amostra de estudantes cubanos, mas os excelentes resultados foram confirmados. O mesmo desempenho cubano se repetiu na segunda pesquisa. A imprensa brasileira noticiou as pesquisas, mas não informou sobre a façanha cubana, ao contrário do The New York Times, que destacou o fato até no título da sua matéria. Em suas análises técnicas sobre as pesquisas, a Unesco coloca a educação cubana no nível da dos países líderes do primeiro mundo, da mesma forma como a OMS classifica os indicadores de saúde do país. Outro exemplo de apagão informativo ocorreu quando a revista Veja entrevistou o pedagogo e economista Martin Carnoy, que estava no Brasil para lançar o livro A vantagem acadêmica de Cuba: por que seus alunos vão melhor na escola. Na entrevista com o especialista divulgada em seu portal, a publicação cometeu a proeza de não mencionar o ensino cubano e o livro.

Como vimos, Cuba sem bloqueio não fala de paraíso terrestre. Mas levanta algumas questões: Esse país é mesmo o retrato do fracasso do socialismo, como pretende a classe dominante capitalista e sua mídia? Nesse caso, como se explica que Cuba, apesar das pressões e agressões que sofre e em meio a uma crise econômica, consegue manter padrões de saúde e de educação que se igualam aos dos países capitalistas mais ricos? Provavelmente a fúria da mídia dominante se deve justamente à sua incapacidade de responder satisfatoriamente a perguntas como essas. Como disse Noam Chomsky: “O que é intolerável para essa mídia [“o verdadeiro crime de Cuba”] são os êxitos cubanos, que podem servir de exemplo para povos de países subdesenvolvidos”. 

Nota: O livro tem 448 páginas, custa R$45,00 e pode ser adquirido no portal da editora: www.radicallivros.com.br. A Radical Livros ainda não conseguiu divulgar o livro na grande imprensa, nem colocá-lo nas vitrines das redes de livrarias.

Diogo Nogueira: Cuba tem muitas lições a nos dar


Filho do mestre João Nogueira (1941-2000), o carioca Diogo Nogueira, 31 anos, até tentou ser jogador de futebol. O DNA acabou falando mais alto e o talentoso cantor, que tem quatro vitórias consecutivas no concurso de sambas-enredos da Portela, não para de acumular façanhas desde que lançou seu primeiro disco, em 2007. 

Via Vermelho 

Já são 400 mil cópias vendidas – entre CDs e DVDs –, sete canções em novelas, um Grammy Latino de melhor álbum de samba e um programa como apresentador na TV Brasil: Samba na Gamboa. Agora, ele lança um DVD gravado em Cuba e homenageia o pai com o Sambabook João Nogueira, projeto grandioso que reúne Blu-Ray, DVD, dois CDs, livro e um fichário com 60 partituras. Confira entrevista com o esperto flamenguista Diogo Nogueira. 

Correio 24 Horas: Como surgiu a ideia de fazer um show em Havana e transformá-lo em DVD? O que te fascina na cultura cubana?
Diogo Nogueira: Recebi um convite para fazer um show na Fihav [Feira Internacional de Havana], em novembro. Fiz questão de levar a minha banda completa e também os músicos que vêm me acompanhando. Pouco depois do convite, tivemos a ideia de registrar a passagem por Cuba e, em apenas dez dias, montamos esse show. Quando voltamos pro Brasil, apresentei a gravação do show e também o DOC. Show pro pessoal da EMI, minha gravadora, que se empolgou com o projeto e nos deu o maior apoio para o lançamento. Cuba é um dos países mais musicais do mundo. Temos muitas semelhanças culturais, mas Cuba tem uma riqueza em sua música que sempre me fascinou. 

Correio 24 Horas: EUA, Brasil e Cuba são os países americanos com grande riqueza musical popular. Imagino que você desejasse ter a participação especial de alguns grupos lendários de Havana. Por que a opção pelos Los Van Van e como foi a experiência?
Diogo Nogueira: Los Van Van é um dos grupos mais tradicionais da música cubana e foi maravilhoso contar com eles no projeto. Cantamos El Cuarto de Tula, sucesso gravado pelo Buena Vista Social Club. Na época, pensamos em convidar a grande cantora Omara Portuondo, mas ela estava exatamente no Brasil na mesma ocasião em que fomos para Cuba. 

Correio 24 Horas: E, politicamente, você tem uma opinião sobre a realidade cubana?
Diogo Nogueira: Acho que Cuba tem muitas lições para nos dar, em vários aspectos. Nos quatro dias que fiquei em Havana conheci um povo sofrido, lutador, mas feliz, consciente, e que sabe dar valor a tudo que tem. Isso mexeu comigo, ver que é possível ser feliz com pouco, com o básico. Esse é um exemplo no qual deveríamos refletir. Vivemos em um mundo consumista e nada nos satisfaz. Isso é que é ser livre? Acho que eles estão encontrando os caminhos para avanços e transformações em prol de uma vida cada vez melhor. 

Correio 24 Horas: Você é um artista vitorioso desde sua estreia-solo, em 2007, e mesmo antes já fazia sucesso entre os compositores da Portela. A influência e a grandeza da obra do seu pai, João Nogueira, foram fundamentais para você se tornar um músico? Quando caiu a ficha que isso era o que você queria ser na vida?
Diogo Nogueira: Com certeza, meu pai foi fundamental na minha formação. Ele sempre foi uma importante referência para mim, tanto nas artes quanto em tudo na minha vida. Mas nunca havia refletido sobre isso até me tornar cantor e ver que as escolhas que fiz, os caminhos que busquei, tinham total relação com tudo que aprendi com ele. Eu não queria ser cantor. Como era mais novo, queria mesmo era ser jogador de futebol. Mas a vida me tirou dos campos e me colocou nos palcos... E hoje sou muito feliz com o que faço. 

Correio 24 Horas: Por falar nisso, você chegou a temer comparações com seu pai – ou sempre tirou isso de letra?
Diogo Nogueira: Não deu muito tempo para temer nada. Foi tudo muito rápido e sempre lidei com muita naturalidade, deixando as coisas acontecerem espontaneamente. Desde quando comecei a cantar, a fazer shows, nunca me preocupei em ser comparado ao João. Quando isso acontecia, até me sentia feliz, pois ser comparado a um cara tão importante para a nossa música é um privilégio. Mas levo a vida com a mesma naturalidade de sempre, buscando fazer o que gosto, o que sei, da minha forma, do meu jeito... E hoje em dia todos sabem diferenciar o João do Diogo, e o Diogo do João. 

Correio 24 Horas: Sua formação é de samba tradicional. O que você acha do samba “romântico e pop” que ganhou força a partir dos anos 90 com vários grupos? E do pagode baiano de grupos como É o Tchan!, Harmonia do Samba e Psirico? Tudo é samba, variedade de um mesmo gênero?
Diogo Nogueira: Acho que tudo isso é música popular brasileira. O que diferencia mesmo as coisas é a qualidade. Tem música boa e música ruim. A grande verdade é que tem espaço para todo mundo e precisamos saber respeitar a onda de cada um. 

Correio 24 Horas: Você mergulhou no cancioneiro do seu pai para fazer o Sambabook João Nogueira. Fale desse reencontro com parte essencial de sua própria história.
Diogo Nogueira: O Sambabook é um projeto do qual me orgulho muito. A ideia surgiu de uma conversa minha com meu empresário, Afonso Carvalho, para homenagear os 70 anos que o João Nogueira teria feito, se estivesse vivo, em 2011. Reunimos um time de bambas, tanto na banda, quanto no elenco que interpretou as grandes obras do velho João. Tive a oportunidade de relembrar fatos, músicas esquecidas, obras fantásticas que chegam agora para as novas gerações em forma de livro, DVD, CD e fichário com as partituras das principais obras dele. Estou muito orgulhoso de ter participado e produzido esse projeto. João merece. E nós também.

Salim Lamrani: Cuba, a ilha da saúde

Sede da Escola Latino-Americana de Medicina em Havana.
Após a Revolução, a medicina virou prioridade e transformou a Ilha em referência. Atualmente, Cuba concentra o maior número de médicos por habitante. 

Desde o triunfo da Revolução de 1959, o desenvolvimento da medicina tem sido a grande prioridade do governo cubano, o que transformou a Ilha em uma referência mundial neste campo. Atualmente, Cuba é o país que concentra o maior número de médicos por habitante.

Em 2012, Cuba formou mais 11 mil novos médicos, os quais completaram sua formação de seis anos em faculdades de medicina reconhecidas pela excelência no ensino. Trata-se da maior promoção médica da história do país, que tornou o desenvolvimento da medicina e o bem-estar social as prioridades nacionais. Entre esses médicos recém-graduados, 5.315 são cubanos e 5.694 vêm de 59 países da América Latina, África, Ásia e até mesmo dos Estados Unidos, com maioria de bolivianos (2.400), nicaraguenses (429), peruanos (453), equatorianos (308), colombianos (175) e guatemaltecos (170). Em um ano, Cuba formou quase o dobro de médicos do total que dispunha em 1959.

Após o triunfo da Revolução, Cuba contava somente com 6.286 médicos. Dentre eles, três mil decidiram deixar o país para ir para os Estados Unidos, atraídos pelas oportunidades profissionais que Washington oferecia. Em nome da guerra política e ideológica que se opunha ao novo governo de Fidel Castro, o governo Eisenhower decidiu esvaziar a nação de seu capital humano, até o ponto de criar uma grave crise sanitária.

Como resposta, Cuba se comprometeu a investir de forma maciça na medicina. Universalizou o acesso ao ensino superior e estabeleceu a educação gratuita para todas as especialidades. Assim, existem hoje 24 faculdades de medicina (contra apenas uma em 1959) em 13 das 15 províncias cubanas, e o país dispõe de mais de 43 mil professores de medicina. Desde 1959, se formaram cerca de 109 mil médicos em Cuba. Com uma relação de um médico para 148 habitantes (67,2 médicos para 10 mil habitantes ou 78.622, no total), segundo a Organização Mundial da Saúde, Cuba é a nação mais bem dotada neste setor. O país dispõe de 161 hospitais e 452 clínicas.

No ano universitário 2011-2012, o número total de graduados em Ciências Médicas, que inclui 21 perfis profissionais (médicos, dentistas, enfermeiros, psicólogos, tecnologia da saúde etc.), sobe para 32.171, entre cubanos e estrangeiros. 

A Elam
Além dos cursos disponíveis nas 24 faculdades de medicina do país, Cuba forma estudantes estrangeiros na Elam (Escola Latino-Americana de Medicina de Havana). Em 1998, depois que o furacão Mitch atingiu a América Central e o Caribe, Fidel Castro decidiu criar a Elam – inaugurada em 15 de novembro de 1999 – com o intuito de formar em Cuba os futuros médicos do mundo subdesenvolvido.

“Formar médicos prontos para ir onde eles são mais necessários e permanecer quanto tempo for necessário, esta é a razão de ser da nossa escola desde a sua fundação”, explica a doutora Miladys Castilla, vice-reitora da Elam. Atualmente, 24 mil estudantes de 116 países da América Latina, África, Ásia, Oceania e Estados Unidos (500 por turma) cursam uma faculdade de medicina gratuita em Cuba. Entre a primeira turma de 2005 e 2010, 8.594 jovens doutores saíram da Elam. As formaturas de 2011 e 2012 foram excepcionais com cerca de oito mil graduados. No total, cerca de 15 mil médicos se formaram na Elam em 25 especialidades distintas.

A Organização Mundial da Saúde prestou uma homenagem ao trabalho da Elam: “A Escola Latino-Americana de Medicina acolhe jovens entusiasmados dos países em desenvolvimento, que retornam para casa como médicos formados. É uma questão de promover a equidade sanitária [...]. A Elam [...] assumiu a premissa da “responsabilidade social”. A Organização Mundial da Saúde define a responsabilidade social das faculdades de medicina como o dever de conduzir suas atividades de formação, investigação e serviços para suprir as necessidades prioritárias de saúde da comunidade, região ou país ao qual devem servir.

A finalidade da Elam é formar médicos principalmente para fornecer serviço público em comunidades urbanas e rurais desfavorecidas, por meio da aquisição de competências em atendimento primário integral, que vão desde a promoção da saúde até o tratamento e a reabilitação. Em troca do compromisso não obrigatório de atender regiões carentes, os estudantes recebem bolsa integral e uma pequena remuneração, e assim, ao se formar, não têm dívidas com a instituição.

No que diz respeito ao processo seletivo, é dada preferência aos candidatos de baixa renda, que de outra forma não poderiam pagar os estudos médicos. “Como resultado, 75% dos estudantes provêm de comunidades que precisam de médicos, incluindo uma ampla variedade de minorias étnicas e povos indígenas”.

Os novos médicos trabalham na maioria dos países americanos, incluindo os Estados Unidos, vários países africanos e grande parte do Caribe de língua inglesa.

Faculdades como a Elam propõem um desafio no setor da educação médica do mundo todo para que adote um maior compromisso social. Como afirmou Charles Boelen, ex-coordenador do programa de Recursos Humanos para a Saúde da OMS: “A ideia da responsabilidade social merece atenção no mundo todo, inclusive nos círculos médicos tradicionais. O mundo precisa urgentemente de pessoas comprometidas que criem os novos paradigmas da educação médica”. 

A solidariedade internacional
No âmbito dos programas de colaboração internacional, Cuba também forma, por ano, cerca de 29 mil estudantes estrangeiros em ciências médicas, em três especialidades: medicina, enfermagem e tecnologia da saúde, em oito países (Venezuela, Bolívia, Angola, Tanzânia, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Timor Leste).

Desde 1963 e o envio da primeira missão médica humanitária a Argélia, Cuba se comprometeu a curar as populações pobres do planeta, em nome da solidariedade internacional e dos sete princípios da medicina cubana (equidade, generosidade, solidariedade, acessibilidade, universalidade, responsabilidade e justiça). As missões humanitárias cubanas abrangem quatro continentes e têm um caráter único. De fato, nenhuma outra nação do mundo, nem mesmo as mais desenvolvidas, teceram semelhante rede de cooperação humanitária ao redor do planeta. Desde o seu lançamento, cerca de 132 mil médicos e outros profissionais da saúde trabalharam voluntariamente em 102 países. No total, os médicos cubanos curaram 85 milhões de pessoas e salvaram 615 mil vidas. Atualmente, 31 mil colaboradores médicos oferecem seus serviços em 69 nações do Terceiro Mundo.

Segundo o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), “um dos exemplos mais bem-sucedidos da cooperação cubana com o Terceiro Mundo é o Programa Integral de Saúde para América Central, Caribe e África”.

Nos termos da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), Cuba e Venezuela decidiram lançar em julho de 2004 uma ampla campanha humanitária continental com o nome de Operação Milagre. Consiste em operar gratuitamente latino-americanos pobres, vítimas de cataratas e outras doenças oftalmológicas, que não tenham possibilidade de pagar por uma operação que custa entre cinco e dez mil dólares. Esta missão humanitária se disseminou por outras regiões (África e Ásia). A Operação Milagre possui 49 centros oftalmológicos em 15 países da América Central e do Caribe. Em 2011, mais de dois milhões de pessoas de 35 países recuperaram a visão. 

A medicina de catástrofe
No que se refere à medicina de catástrofe, o Centro para a Política Internacional de Washington, dirigido por Wayne S. Smith, ex-embaixador dos Estados Unidos em Cuba, afirma em um relatório que “não há dúvida quanto à eficiência do sistema cubano. Apenas alguns cubanos perderam a vida nos 16 maiores furacões que atingiram a Ilha na última década e a probabilidade de perder a vida em um furacão nos Estados Unidos é 15 vezes maior do que em Cuba”.

O relatório acrescenta que “ao contrário dos Estados Unidos, a medicina de catástrofe em Cuba é parte integrante do currículo médico e a educação da população sobre como agir começa na escola primária […]. Até mesmo as crianças menores participam dos exercícios e aprendem os primeiros socorros e técnicas de sobrevivência, muitas vezes através de desenhos animados e, ainda, como plantar ervas medicinais e encontrar alimento em caso de desastre natural. O resultado é a assimilação de uma forte cultura de prevenção e de uma preparação sem igual”. 

Alto IDH
Esse investimento no campo da saúde (10% do orçamento nacional) permitiu que Cuba alcançasse resultados excepcionais. Graças a sua medicina preventiva, a Ilha tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa da América e do Terceiro Mundo – 4,9 por mil (contra 60 por mil em 1959) – inferior à do Canadá e dos Estados Unidos. Da mesma forma, a expectativa de vida dos cubanos – 78,8 anos (contra 60 anos em 1959) – é comparável à das nações mais desenvolvidas.

As principais instituições internacionais elogiam esse desenvolvimento humano e social. O Fundo de População das Nações Unidas observa que Cuba, “há mais de meio século, adotou programas sociais muito avançados, que possibilitaram ao país alcançar indicadores sociais e demográficos comparáveis aos dos países desenvolvidos”. O Fundo acrescenta que “Cuba é uma prova de que as restrições das economias em desenvolvimento não são necessariamente um obstáculo intransponível ao progresso da saúde, à mudança demográfica e ao bem-estar”.

Cuba continua sendo uma referência mundial no campo da saúde, especialmente para as nações do Terceiro Mundo. Mostra que é possível atingir um alto nível de desenvolvimento social, apesar dos recursos limitados e de um estado de sítio econômico extremamente grave, imposto pelos Estados Unidos desde 1960, que situe o ser humano no centro do projeto de sociedade. 

Salim Lamrani é jornalista, especialista sobre relações entre Cuba e Estados Unidos, doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos da Universidad Paris Sorbonne-Paris IV e professor nas universidades Paris Sorbonne-Paris IV e Paris-Est Marne-la-Vallée.

Cuba: Uma escola de solidariedade

Os vídeos a seguir foram enviados por Miriam Brandão, que mostram a realidade dos estudantes brasileiro de medicina em Cuba e o Projeto da Escola Latino-Americana de Medicina em Cuba. Miriam é brasileira, filha de agricultores do nordeste brasileiro e nunca teria oportunidade de fazer uma faculdade de Medicina no Brasil. 

Atualmente, ela está em fase de conclusão do curso e voltará ao Brasil para ajudar seus companheiros na saúde.

Morales pedirá a Obama a libertação dos cinco cubanos antiterroristas

O presidente boliviano, Evo Morales, escreverá uma carta a Barack Obama para pedir a libertação dos cinco cubanos antiterroristas que colhiam informações nos Estados Unidos sobre atos extremistas contra Cuba, informou o ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana. 

O mandatário boliviano se reuniu no Palácio de Governo com Adriana Perez, esposa de Gerardo Hernandez, um dos cinco detidos, com quem abordou a situação de Antônio Guerrero, Fernando Gonzalez, Ramón Labañino e René Gonzalez.

Segundo dados oficiais, os cinco cubanos foram detidos em setembro de 1998 quando monitoravam os planos de organizações terroristas financiadas pelos Estados Unidos e assentadas no sul da Flórida, com a intenção de informar os mesmos às autoridades cubanas.

A atividade anônima dos cinco permitiu frustrar numerosas ações que iam desde a entrada ilegal de armas a Cuba e a explosão de aviões civis em pleno voo, até a preparação de atentados contra a vida dos principais dirigentes da Revolução.

“O presidente manifestou à companheira Adriana e ao governo de Cuba e a todo o mundo sua absoluta solidariedade, seu apoio incondicional aos cinco cubanos detidos injustamente, também o presidente Evo se comprometeu a escrever uma carta ao presidente Obama para pedir-lhe a liberdade desses cinco compatriotas da Pátria Grande que deram sua vida pela liberdade”, explicou Quintana.

Informou que o mandatário se comunicou por telefone com Hernandez, a quem lhe ratificou seu apoio e solidariedade incondicional com os prisioneiros cubanos. Igualmente, disse que Morales se comprometeu com a execução de “todas” as gestões necessárias ante a comunidade internacional e organismos multilaterais para levantar a voz “clara e firme”pela liberdade dos cinco cubanos.

O ministro da Presidência recordou que o governo boliviano é por princípio antiimperialista e anticapitalista, por isso “reprova” as formas de colonização e militarismo imperial, além da expansão desse modelo no mundo.

Por sua vez, a esposa de Hernandez agradeceu ao Governo boliviano por seu apoio aos cinco cubanos que cumpriram 14 anos de prisão. “Estes homens são acusados por conspiração para cometer espionagem, seu trabalho fundamental era proteger Cuba de ações terroristas. Hoje com cinco antiterroristas presos em cárceres dos Estados Unidos”, manifestou.

Sua visita à Bolívia se enquadra em uma campanha internacional a favor da liberdade dos cinco cubanos.

Aniversário da Casa da América Latina

A Casa da América Latina, na comemoração do seu 5º aniversário, concede a Medalha Abreu e Lima a cinco internacionalistas, que contribuem ou que tenham contribuído para a solidariedade, a integração soberana e progressista dos povos, nações e países latino-americanos. 

Para o ano de 2012, foram eleitos: Eduardo Galiano, Grupo Tortura Nunca Mais, Luís Carlos Prestes (in memoriam), Maurício Azedo e Osny Duarte Pereira (in memoriam).

A solenidade será na terça-feira, dia 4 de setembro, às 17:30, na sede da Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio de Janeiro (Seaerj), localizada na Rua do Russel, nº 1, bairro da Glória, no Rio de Janeiro.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Cuba tem melhor desempenho da América Latina nas Olimpíadas

A cubana Yanet Bermoy, medalha de ouro em Londres, vence
seu primeiro combate na categoria até 78 quilos.
Levando 110 atletas, a Ilha terminou à frente do próximo anfitrião dos Jogos, o Brasil, que levou 257 atletas.


Com uma população de apenas 11 milhões de habitantes, a ilha de Cuba encerrou, no domingo, dia 12, sua participação na Olimpíada de Londres na honrosa 16ª posição no quadro geral de medalhas, o terceiro melhor país das Américas e o melhor desempenho entre todos os países da América Latina.

No total, o país obteve cinco medalhas de ouro, três de prata e seis de bronze, totalizando 17 premiações. Em todo o continente americano, ficou atrás apenas dos Estados Unidos, que venceu a competição segundo os critérios do quadro de medalhas (46 medalhas de ouro, 29 de prata e 29 de bronze, com 106 no total) e da Jamaica (4 de cada peso, 12 no total), que contou com a excepcionalidade de uma geração imbatível no atletismo, comandada pelo velocista Usain Bolt, detentor das melhores marcas em provas de velocidade plena. Cuba também ficou na frente do Canadá (apenas uma de ouro, 5 de prata e 12 de bronze).

Cuba recuperou o posto de nação latino-americana mais bem-sucedida, perdido em 2008 para o Brasil (três medalhas de ouro contra duas na ocasião). Nesta Olimpíada de Londres, os brasileiros obtiveram o mesmo número de medalhas dos atletas da Ilha, mas em colocações mais baixas. Voltaram para casa com 3 medalhas de ouro, cinco de prata e nove de bronze. Enquanto o país sul-americano levou 257 atletas aos jogos deste ano, Cuba conseguiu uma atuação melhor levando apenas 110 esportistas.

As cinco medalhas de ouro cubanas foram obtidas pelos pugilistas Roniel Iglesias (até 64 kg) e Robeisy Ramírez (até 52 kg); a judoca Idalys Ortiz (até 78 quilos), o lutador greco-romano Mijaín López (até 120 quilos). O único medalhista de ouro cubano não-lutador foi o atirador Leuris Pupo, na pistola rápida 25 metros.

A grande decepção ficou no atletismo, onde o país ficou em branco, apesar da expectativa em torno do fundista Dayron Robles nos 110 metros com barreira. O campeão olímpico de 2008 e recordista mundial se lesionou na prova final.

Os demais países latino-americanos tiveram um desempenho discreto: Colômbia (1 de ouro, três de prata e quatro de bronze), México (1, 3 e 3 respectivamente), Argentina (1, 1 e 2), República Dominicana (1, 1 e 0) e Venezuela (uma de ouro). Trinidad e Tobago (1 de ouro e 3 e prata), Bahamas e Granada (uma de ouro) foram as outras nações americanas a terminar em primeiro lugar em alguma modalidade. Porto Rico (uma de prata e outra de bronze) e Guatemala, com uma de prata, também conseguiram uma menção no quadro.

13 de agosto: Símbolo da resistência, Fidel completa 86 anos

Fidel Castro se inscreveu entre os mártires da América Latina e segue sendo uma referência, mesmo sem cargos políticos.

O líder cubano Fidel Castro, ícone do século 20, comemora na segunda-feira, dia 13, mais um aniversário. Ex-presidente da Ilha, esse “soldado das ideias” chega aos 86 anos contrariando aqueles que insistiam em prever desde seu ocaso até uma morte prematura. Fidel, no entanto, continua bem vivo, lúcido e ativo.

Afastado do comando de Cuba desde 2006, ele abriu mão de seu posto à frente do Partido Comunista Cubano, mas continua um observador atento do mundo, registrando seu pensamento por meio de suas reflexões. Além disso, suas ideias, bandeiras e realizações continuam a ser exaltadas no cotidiano da Ilha e além-mar – prova de que a ausência de cargos não lhe sonegou a influência.

Sobrevivente de mais de 600 atentados contra a sua vida, Fidel é a parábola perfeita para a própria resistência cubana. Um homem cuja história pode contar também a saga de seu país.

Nascido no povoado humilde de Birán, no Leste da Ilha, Fidel é filho de um bem-sucedido imigrante espanhol, um latifundiário vindo da Galiza chamado Ángel Castro, e de uma trabalhadora que conseguiu emprego em sua fazenda, Lina Ruz.

Foi educado em colégios jesuítas, em Havana. Em 1945, ingressou na universidade para estudar Direito. Tornou-se conhecido por seus pontos de vista nacionalistas e de oposição à influência norte-americana em Cuba. Em 1950, começou a trabalhar como advogado.

Desde 1952, com a subida ao poder de Fulgêncio Batista, por meio de um golpe de Estado, Fidel fez oposição clandestina ao ditador. No ano seguinte, planejou um ataque ao quartel de La Moncada. Acabou preso com seu irmão Raul Castro. Foi condenado a 15 anos de prisão.

Em 1955, anistiado, partiu para o exílio no México. Retornou a Cuba no ano seguinte, clandestinamente, chefiando uma fileira de 82 homens decididos a empreender a guerrilha revolucionária. Os guerrilheiros foram obrigados a se esconder nas montanhas de Sierra Maestra, mas obtiveram cada vez mais apoio civil.

Fidel Castro e seus comandados entraram em Havana em 1958 e terminaram por derrotar de maneira esmagadora Batista e o aparelho militar criado pelos Estados Unidos. No dia 1º de janeiro de 1959, o ditador fugiu do país.

Castro assumiu o governo e a partir de então criaria um modelo próprio para Cuba, que os próprios cubanos se encarregam de aperfeiçoar: um comunismo caribenho, alimentado pelo marxismo-leninismo, com uma base nacionalista legada por José Martí.

Lançou uma política de nacionalização de propriedades e empresas de estrangeiros e cubanos, com reforma agrária e amplos benefícios sociais, que levaram a pequena ilha caribenha a alcançar indicadores que a colocam ao lado dos países mais desenvolvidos. Cuba é hoje referência em áreas como educação, saúde e esportes.

O líder também estimulou a solidariedade internacional, o combate ao imperialismo e a integração regional. Seu humanismo revolucionário desagradou àqueles que não queriam conviver com uma alternativa bem-sucedida ao capitalismo.

Assim como o socialismo cubano, Fidel resistiu às mais diferentes pressões – em especial ao bloqueio norte-americano – e manteve suas posições. Em 31 de julho de 2006, debilitado por uma cirurgia no intestino, transmitiu o poder ao irmão Raul. Em 2008, renunciou oficialmente à Presidência. No mês de abril desse ano, abriu mão também do comando do Partido Comunista de Cuba.

“Fidel é Fidel, e não precisa de cargo algum para ocupar sempre o lugar no topo da história no presente e no futuro da nação cubana. Enquanto tiver forças para fazê-lo, e felizmente está na plenitude de seu pensamento político, a partir de sua modesta condição de militante do partido e soldado das ideias, continuará levando a luta revolucionária e aos propósitos mais nobres da humanidade”, disse seu irmão Raul Castro, que o substituiu nas duas missões.

O ex-presidente passou um período sem atividades públicas, dedicando-se apenas a escrever seus artigos. Em 2010, contudo, voltou a aparecer, mostrando-se bem disposto e lúcido, desmentindo recorrentes boatos sobre sua saúde.

Sobre seu amigo Fidel, o escritor Gabriel Garcia Márquez escreveu: “Esse é o Fidel Castro que creio conhecer: um homem de costumes austeros e ilusões insaciáveis, com uma educação formal à antiga, de palavras cautelosas e modos tênues, incapaz de conceber nenhuma ideia que não seja descomunal”.
Texto retirado do Portal Vermelho

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A exuberância do teatro em Cuba


O teatro cubano está ao alcance do povo. O governo investe em escolas e grupos, que respondem com bons espetáculos.

Amanda Cotrim, especial para Caros Amigos

“Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contentes querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.” Bertold Brecht

As palavras de Bertold Brecht, dramaturgo alemão do século 20, podem indicar o efeito que o teatro tem na vida de quem faz e na de quem recebe: despertar. Fazer sair do conforto e ir para algum lugar; aproximar pessoas. Pelas artes cênicas ser um bem simbólico, não têm nos cálculos do PIB (Produto Interno Bruto) a justificativa para existir. Se com o advento da indústria cultural a arte tornou-se o resultado da força de trabalho de seu artista, que precisa vendê-la para viver, resta saber qual é a papel do teatro num lugar onde o lucro não parece ser o objeto de desejo. Para isso, a reportagem desceu em Cuba, que há 53 anos vive a revolução socialista.

Na Ilha é possível que a população assista a maioria das peças gratuitamente, tanto as realizadas por companhias profissionais quanto por grupos amadores. Entretanto, vez ou outra para assistir a um espetáculo profissional é preciso pagar um valor popular (5 pesos cubanos, que valem menos de R$0,50), subsidiado pelo governo. Parte dessa quantia é destinada aos gastos do próprio grupo, a outra vai para o Ministério da Cultura de Cuba, que com esse dinheiro fomentará outros grupos. De acordo com o diretor de teatro da Universidade de Havana, o cubano Armando Del Rosário (foto), “5 pesos cubanos está ao alcance de todos que têm interesse no teatro”. O salário em média do cidadão é de 400 pesos. “As salas de teatro estão sempre cheias. O público cubano gosta muito de teatro. Em Cuba há grande aceitação”, ressalta.

Rosário é diretor de teatro universitário desde 1966. “Comecei como ator, passei um tempo no teatro profissional, com uma companhia, que mais tarde se dissolveu. Estreei como diretor teatral em 1970, quando o diretor da peça ficou doente de repente e me pediram para dirigir. A partir daí, cada vez dirigia mais e atuava menos”, conta rindo.

Revolução, cultura e arte
O hábito adquirido pelos cubanos de irem ao teatro é explicado a partir do início da revolução, em 1959. A cultura e a arte, conforme argumenta Rosário, foram as maiores beneficiárias, pois foram expandidas por toda a Ilha até se tornarem ao alcance de todos.

Em Cuba, o artista é admirado. Durante uma entrevista, informal, com um gerente de um restaurante estatal em Vedado (distrito de Havana), lhe disse que estava em Cuba para estudar cinema. Com os olhos surpresos, ele em seguida se manifestou: “É uma artista? Que bom! Que bom! Cinema é muito lindo. Eu gosto muito de cinema.” Em terra de José Martí, a arte se coloca como transformadora social. A justificativa para a adesão do povo ao teatro está na ponta da língua: “Um povo culto é um povo livre.” (José Martí).

Curiosidade
O teatro cubano existe desde o século 19 e tem sua data lembrada todo o dia 27 de março. A origem se deu quando Cuba era colônia da Espanha. Rosário lembra que certa vez os cubanos realizavam uma peça na qual sua Metrópole acreditava ser subversiva e, por isso, não aceitava que o espetáculo fosse encenado. Quando a Espanha rompeu com Cuba, a peça foi realizada. Dessa data em diante é celebrado o Dia do Teatro Cubano.

Teatro e sociedade
A atividade cênica praticada em Cuba dialoga com a vida cultural, política e social do país. Os anseios e inquietações dos atores são manifestados de múltiplas formas. A sociedade cubana ainda passa por uma transformação e a arte também se relaciona com esse complexo processo de mudanças. E o teatro, tanto da encenação quanto da dramaturgia, absorve isso e imprime estilos. Nos espetáculos, de um modo geral, é possível notar as contradições humanas que sequestram o espírito de todo artista; com o cubano isso não seria diferente.

Rosário conta que em todas as cidades e províncias de Cuba existem companhias teatrais profissionais. Ao todo são 15 províncias e 177 municípios (ou distritos). Em todas as cidades há casas de cultura, movimentos artísticos e artistas amadores. Alguns atores, além de trabalharem com teatro, também atuam em novelas cubanas. Existe ainda a Escola Nacional de Arte, que tem carreira de Artes Cênicas, além da Faculdade de Teatro.

As companhias teatrais em Cuba, destaca Rosário, são heterogêneas. Cada grupo tem suas características. Há coletivos que fazem excelentes trabalhos infantis, outros encontram no teatro o lugar para se manifestar politicamente, com espetáculos que criticam o governo cubano; algumas peças se valem dos clássicos, outras, nem tão políticas, discutem as complexas relações humanas, a identidade, o amor, e encenam que o “trágico” do homem está no fato de existir. “No grupo de estudantes universitários que eu dirijo, trabalho com obras de qualidade. Gosto muito de Eugene Ionesco, do teatro espanhol de Lorca e Alejandro Casso, além do teatro russo”, resume.

O professor de teatro cubano Francisco Lopez Sacha detalha que o personagem teatral está em cima de um mecanismo trágico. Para justificar essa premissa, ele cita Shakespeare: “Somos todos vítimas da História.” O teatro atua nessa linha conflituosa entre indivíduo e sociedade.

Em Cuba, valorizar o artista é valorizar, sobretudo, o povo, que tem na cultura seu maior patrimônio. Sasha explica que o teatro cubano, por ser um bem imaterial, ganha ainda mais notoriedade numa sociedade que não é pautada pela indústria cultural, cuja origem se deu na Europa, onde os personagens criavam uma estrutura dramática “perfeita”, como o que conhecemos hoje das telenovelas.

Investimento
O Ministério da Cultura de Cuba foi criado em 1976 para substituir o Conselho Nacional de Cultura. Rosário explica que isso foi uma tentativa do governo Cubano, pós-revolução, de corrigir erros, restituir os artistas afetados e recuperá-los para os seus trabalhos.

Luz Maria Rolelos é mãe de Jorge Rolelos, produtor de teatro em Havana. Além disso, ela é uma entusiasta das artes cênicas. Segundo Luz, dentro do Ministério da Cultura existe o Conselho de Artes Cênicas (CAC). Cada grupo de teatro profissional tem uma direção que administra o dinheiro recebido do governo. As direções dos grupos estão associadas ao CAC e são elas que repassam o dinheiro (salário) aos integrantes das companhias teatrais.

Os grupos amadores, no entanto, não são remunerados (como em todo o lugar do mundo, já que a própria etimologia da palavra revela: faz por amor), mas ainda assim o governo Cubano ajuda esses grupos cedendo-lhes espaços para ensaios e vestuários, conforme destaca o diretor.

A Universidade de Havana tem 18 faculdades e cada uma tem um grupo de teatro amador. “No meu grupo de teatro na Universidade tem estudantes de todos os cursos. As faculdades de engenharia e ciências da computação também têm grupos de teatro”, ressalta Rosário. “Os grupos profissionais também são muitos”, destaca.

Mas Rosário lembra que não é só dos palcos que vivem os grupos, há coletivos que se fazem nas ruas. “Em Havana há dois grupos que fazem teatro de rua. Há um grupo maravilhoso... não me lembro bem o nome, mas é algo como ‘Estátuas vivas’. Maravilhoso”, diz empolgado.

Além de fomentar a cultura e arte, valorizando os profissionais, não só com dinheiro, mas principalmente com reconhecimento e prestígio, Cuba realiza vários festivais de teatro. Todos os anos, no mês de setembro, há o festival da província de Camagüey (ela fica no centro de Cuba e é a terceira maior província do país). O diretor de teatro enfatiza que se trata de um festival de muito valor e que “todos os grupos vão para lá participar. Mas não se trata de um festival competitivo.”

O país também enxerga nas artes um caminho para ativar a sensibilidade em seu povo, desde as crianças. “Aulas de teatro nas escolas tem com certeza”, diz Rosário espantado, como se o contrário fosse um absurdo. “Há muito teatro para crianças, marionetes, teatro para adultos, teatro para todos os cubanos. Há muitos grupos de teatro formados por crianças; elas cantam, dançam, atuam. É fascinante”, empolga-se.

Espaços culturais
Durante as tardes, em Havana Velha (distrito de Havana), é possível ser surpreendido com o teatro de rua, que aparece quase sempre às 16h (horário de Cuba). Acompanhados com músicas, os artistas interagem com o público e ocupam as principais ruas do município. Com roupas coloridas e muita maquiagem se misturam com o público e brilham em meio a suas encenações “improvisadas”. Eles são homens e mulheres de teatro reconhecidos profissionalmente por isso. Os atores são um evento nas ruas, capazes de provocar no público uma alegria momentânea ou uma grande vontade de fugir com eles pelas fantasias cênicas. O que não há é como passar impunemente pelo teatro praticado nas ruas.

O teatro em Cuba não tem apenas um caráter profissional, mas também educativo. O “fazer teatral” não está restrito aos artistas profissionais. O povo cubano também tem garantido seu direito de fazer teatro. A população encontra nas casas de cultura espalhadas pelo país o reduto artístico que potencializa qualquer criatividade mais tímida. As apresentações de espetáculos amadores também são bastante contempladas pelos cubanos, como conta o diretor.

Armando Rosário, além de exercer suas funções na Universidade de Havana, também dirige dois monólogos, um deles é com a Débora Dora, uma atriz de televisão. O espetáculo estreou em 2011, mas Rosário não sabe quando apresentará novamente, “porque há mais grupos de teatro do que teatros”, diz orgulhoso. Apesar disso, ele reconhece que é possível apresentar os espetáculos em espaços alternativos. “As únicas coisas que necessito é um banco, uma tela branca para colocar em cima e nada mais... ah, e uma atriz”.

O diretor é adepto do teatro menor, com poucos recursos, no qual o ator é mais importante que qualquer grande cenário. Tudo isso, sem abrir mão da qualidade. “Cubano adora teatro e vai ao teatro, tem cultura teatral. É um público exigente, sabe? Os teatros sempre estão cheios”, ressalta. Rosário é um apaixonado por Shakespeare, Ionesco, Lorca e Brecht. Não conhece muito dos dramaturgos e diretores brasileiros, mas confessa que se deixa envolver pela música tupiniquim. Villa-Lobos está entre seus preferidos.

Cuba denuncia ação subversiva de grupos estrangeiros

Via Vermelho

Cuba denunciou os vínculos entre organizações políticas europeias de direita e agências especiais do governo dos Estados Unidos para promover novas ações subversivas na Ilha.

Igualmente, criticou que políticos de direita e meios de imprensa internacionais utilizaram um acidente de trânsito ocorrido em 22 de julho último no qual faleceram dois cidadãos cubanos, como novo pretexto para condenar este país.

A televisão cubana transmitiu no horário nobre da sexta-feira, dia 3, entrevistas com os cidadãos europeus Ángel Carromero (Espanha) e Jens Aron Modig (Suécia), que estavam no carro no qual morreram Harold Cepero e Oswaldo Payá, membros do ilegal Movimento Cristão Libertação.

Carromero, dirigente juvenil do Partido Popular espanhol, negou as versões de que um veículo bateu na parte traseira do carro em que estava no momento do acidente e solicitou à opinião pública internacional para não utilizar o fato com fins políticos.

Apesar das declarações dos implicados, o material referiu a publicação de mais de 900 informações e 120 mil mensagens sobre o fato nos meios de imprensa e nas redes sociais, enquanto políticos de direita responsabilizaram o governo da ilha com o ocorrido.

Depois desse fato, por exemplo, o Escritório de Imprensa da Casa Branca expressou suas intenções de apoiar a subversão interna em Cuba. Por sua vez, o candidato presidencial estadunidense, Mitt Romney, duvidou da investigação das autoridades cubanas.

Por sua parte, Modig admitiu que os objetivos da visita à Ilha eram reunir-se com Payá e com membros da organização ilegal dirigida por ele, assim como entregar-lhe uma soma em dinheiro para suas atividades. O líder juvenil do Partido Democrata Cristão da Suécia assegurou ter realizado a viagem a Cuba com instruções do Departamento Internacional dessa organização política.

Segundo revelou o material, esse partido acolhe grupos como um fundo para os presos políticos, o qual subvenciona a contrarrevolução interna e se vincula, além do mais, com uma Organização Não Governamental checa dedicada a realizar eventos anticubanos.

Esta e outras organizações, apontou, recebem financiamento do Fundo Nacional para a Democracia da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), com o fim de promover novas formas de subversão, que já não são executadas apenas pelo núcleo anticubano radicado em Miami.

Entre os criadores da estratégia está o Instituto Republicano Internacional (IRI), um dos chamados centros de formulação de pensamento do governo norte-americano, cujos planos eram conhecidos por Modig, que poucas semanas antes de sua viagem a Cuba assistiu a uma conferência internacional desse centro.

O IRI desempenha um ativo papel no desenho dos procedimentos de subversão, e sua intenção é fazer chegar meios tecnológicos à contrarrevolução através de emissários estrangeiros, para o que envolve organizações políticas de vários países.
Somente entre 2009 e 2012, o Departamento de Estado e a Usaid receberam uma dotação orçamentária de 75 milhões de dólares para programas subversivos contra Cuba, denunciou o material.

José Martí, 160 anos: Conferência mundial reunirá ativistas e intelectuais em Cuba

Encontro debateu parceria para presença de militantes do Cebrapaz na
conferência mundial em comemoração aos 160 anos do
nascimento de José Martí
O aniversário de 160 anos do herói cubano José Martí (1853-1895) – mártir da guerra da independência do país – será marcado por uma grande conferência mundial que deverá reunir, em Havana, entre os dias 28 e 30 de janeiro de 2013, milhares de estudantes, acadêmicos e militantes da paz e da solidariedade de todas as partes do mundo.

Mariana Viel, via Vermelho

Na sexta-feira, dia 3, foi definida a construção de uma parceria com o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) para a mobilização de uma delegação de ativistas e intelectuais brasileiros. A reunião teve a presença da diretora de Relações Internacionais do Instituto de Filosofia de Cuba (CITMA), doutora Regina de la Caridad Agramonte Rosell, e da representante do Consulado de Cuba em São Paulo e especialista da Sociedade Cultural José Martí, Esperanza Newhall de la Cruz.

O encontro debateu as raízes do pensamento martiano no processo de independência cubano e seu papel no atual aperfeiçoamento do modelo econômico do país. A representante do Instituto de Filosofia ressaltou que Cuba é um país que não negocia princípios. “Para nós, a solidariedade é um princípio tão importante como satisfazer as necessidades de alimentação de todos os cubanos”.
Um exemplo dessa afirmação são as missões humanitárias de médicos cubanos presentes em países como o Haiti e nos continentes africano e asiático. “Não pode haver um divórcio entre o discurso e a prática. Ajudar ao próximo é uma orientação, uma filosofia de vida. José Martí dizia que a melhor maneira de dizer é fazer”, afirmou.

Regina explicou que o trabalho desenvolvido no Instituto de Filosofia cubano está relacionado à pesquisa sócio-filosófica, vinculada ao aperfeiçoamento da realidade cubana atual e dos fenômenos que ocorrem em todo o mundo. “Martí dizia que ‘ser culto é o único modo de ser livre’. E é por isso que a primeira tarefa da Revolução Cubana, após seu triunfo, foi a alfabetização. Um povo que se ensina a pensar, a analisar sua realidade, a construir e ser protagonista de seu projeto social. Imagina se este não é um povo livre”.

Segundo a presidenta do Cebrapaz e do Conselho Mundial da Paz, Socorro Gomes, o estudo da filosofia desenvolvida em Cuba, voltada para a vida e para a educação, é uma referência. “É a filosofia do ponto de vista revolucionário. É necessário o conhecimento da verdade para podermos garantir a independência dos povos e a soberania das nações que hoje são extremamente ameaçadas”.

“Para nós é fundamental o conhecimento. Tanto do ponto de vista das informações atuais, como no sentido do acesso amplo das populações. Cuba é uma referência da utilização mais nobre e mais generosa do conhecimento. E esparrama o conhecimento, promovendo o acesso à educação pelo mundo de forma solidária”.

Segundo Regina, a parceria com a entidade – além de reforçar os laços de amizade – tem o objetivo de fortalecer o intercâmbio entre os dois países na luta pela paz. “O que o meu povo mais ama é a paz. Mesmo que nos obriguem diariamente a nos preparar para a guerra. Não é paz dentro de Cuba, mas a paz mundial. É possível observar que Cuba é sempre contra a dominação e a injustiça em qualquer parte do mundo”.

A presidenta da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), Luana Bonone, reforçou a importância da aproximação da entidade com a comunidade científica, com a finalidade de pautar temas importantes para o desenvolvimento da sociedade. “José Martí, além de defensor da soberania, foi um grande elaborador sobre a questão da educação. A universidade brasileira não consegue, muitas vezes, estar inserida no processo de desenvolvimento, dando respostas às grandes questões da sociedade. Em Cuba isso se faz com muito mais naturalidade, porque essa é a base histórica do pensamento e da democracia no país”.

Socorro Gomes abordou ainda o monopólio da informação, como um instrumento da hegemonia do imperialismo e a forte campanha midiática contra o país. “Nas mãos dos grandes meios de comunicação, a informação é um instrumento de domínio imperialista. É uma arma contra as forças mais avançadas como, por exemplo, Cuba e a Síria. A informação é deformada com o objetivo de desestabilizar e para que os Estados Unidos mantenham o controle sobre os povos”.

A diretora do Instituto de Filosofia enfatizou que Cuba é um país que nunca negociará sua soberania. Segundo ela, é necessário que as pessoas tenham a oportunidade de visitar o país para poder construir sua própria opinião. “Não se pode ver o processo democrático cubano a partir da perspectiva e do modelo de outro país. Porque o processo democrático cubano é feito pelos cubanos para os cubanos. E nós o estamos aperfeiçoando à maneira cubana”.