segunda-feira, 11 de março de 2013

Convocação para a 7ª Brigada Internacional 1º de Maio em Cuba

 
De 21 de abril a 5 de maio, acontecerá a 7ª Brigada Internacional 1° de Maio, em Cuba. Os brigadistas participarão de jornadas de trabalho voluntário para ter melhor compreensão da realidade cubana, além do desfile do Dia Internacional dos Trabalhadores, que acontece na Praça da Revolução. Os interessados podem se inscrever até 30 de março.
 
INFORMAÇÕES
Data: 21 de abril a 5 de maio de 2013
 
Objetivos: Possibilitar a maior compreensão da realidade cubana e realização de jornadas de trabalho voluntário.
 
Atividades: Visitas a lugares de interesses históricos, econômicos, cultural e social na capital e na província; conferências sobre atualidade nacional e encontros com organizações da sociedade cubana e trabalho no campo.
 
Locais de visita: Havana, Artemisa e Cienfuegos.
 
Hospedagem: São 14 noites sendo 11 noites no Cijam, localizado em Caimito, a 45 quilômetros de Havana e três noites em Cienfuegos.
 
Preço: 325 CUC + 25 CUC (taxa de embarque na volta) = 350 CUC é aproximadamente €280,00 ou US$389,00 a serem pagos em Cuba. Deve-se fazer o câmbio de euros ou dólares no aeroporto de Havana por CUC.
 
Incluem: Alojamento (quartos com seis pessoas no Cijam) e hotel em Cienfuegos, alimentação completa, traslado de ida e volta do aeroporto, transporte para todas as atividades e visitas a museus.
 
Passagem: Pode adquirida em qualquer agência ou companhia aérea.
 
Dicas: A Copa Airlines tem voos para Cuba via Panamá, saindo de Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Porto Alegre, Manaus e Recife.
 
Outra opção é a Cubana Aviacion via Caracas, saindo de São Paulo, e a Avianca etc. Consulte uma agência de turismo ou via internet para obter informações.
 
Documentação: Passaporte válido e seguro viagem. O visto de entrada é comprado no momento do embarque na própria Copa Airlines por US$25,00, pagos em reais pela cotação do dia, no Consulado de São Paulo e ou em uma agência de viagem.
 
Inscrições: As inscrições se encerrarão em 30 de março de 2013 e poderão ser feitas com Telma Araújo, brigadista do Movimento de Solidariedade a Cuba, pelo correio eletrônico telma.araujo25@gmail.com ou pelos telefones (31) 3261-5148; (31) 8828-9288 (operadora Oi); (31) 9176-3263 (operadora TIM).
 
O brigadista deve se comprometer a cumprir toda a programação e observar as normas de conduta, disciplina e convivência social.

Reflexões de Fidel: Perdemos nosso melhor amigo

Via Reflexões de Fidel
 
Em 5 de março, no período da tarde, faleceu o melhor amigo que o povo cubano teve ao longo de sua história. Uma chamada por satélite comunicou a amarga notícia. O significado da frase empregada era inconfundível. Se bem que conhecêssemos o estado crítico de sua saúde, a notícia nos golpeou com força. Recordava as vezes que brincou comigo dizendo que, quando ambos concluíssemos nossa tarefa revolucionária, me convidaria a passear pelo rio Arauca no território venezuelano, que lhe fazia recordar o descanso que nunca teve.
 
Coube-nos a honra de haver compartilhado com o líder bolivariano dos mesmos ideais de justiça social e de apoio aos explorados. Os pobres são os pobres em qualquer parte do mundo.
 
“Dê-me a Venezuela, em que posso servi-la: ela tem em mim um filho”, proclamou o herói nacional e apóstolo de nossa independência, José Martí, um viajante que ainda sem limpar o pó do caminho, perguntou onde estava a estátua de Bolívar.
 
Martí conheceu o monstro porque viveu em suas entranhas. Seria possível ignorar as profundas palavras que verteu em carta inconclusa a seu amigo Manuel Mercado na véspera de sua queda em combate? “Encontro-me todos os dias em perigo por entregar minha vida pelo meu país e por ser meu dever – posto que assim entendo e me animo a assim agir – de impedir a tempo, com a independência de Cuba, que os Estados Unidos se estendam pelas Antilhas e caiam, com mais essa força, sobre nossas terras da América. O que fiz até hoje, e o que farei, é para esta finalidade. Teve de ser em silêncio, portanto indiretamente, porque existem coisas que para serem alcançadas têm de andar ocultas.”
 
Havia transcorrido então 66 anos desde que o libertador Simón Bolívar escrevera: “Os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a infestar a América de misérias em nome da Liberdade.”
 
Em 23 de janeiro de 1959, 22 dias depois do triunfo revolucionário em Cuba, visitei a Venezuela para agradecer a seu povo e ao governo que assumiu o poder após a ditadura de Perez Jimenez, o envio de 150 fuzis no final de 1958. Disse então:
 
“A Venezuela é a pátria do Libertador, onde se concebeu a ideia da união dos povos da América. Nós, os cubanos, respaldamos nossos irmãos da Venezuela.
 
Tenho falado destas ideias não porque me mova qualquer ambição de cunho pessoal, tampouco ambição de glória, porque, afinal de contas, a ambição de glória não deixa de ser uma vaidade e como disse Martí: ‘Toda a glória do mundo cabe num grão de milho.’
 
De modo que, ao vir falar assim ao povo da Venezuela, o faço pensando honrada e profundamente, que se quisermos salvar a América, se quisermos salvar a liberdade de cada uma de nossas sociedades, que, ao fim e ao cabo, fazem parte de uma grande sociedade, que é a sociedade da América Latina; se se trata de salvar a revolução de Cuba, a revolução da Venezuela e a revolução de todos os países de nosso continente, teremos de nos unir e teremos de nos apoiar solidamente, porque sozinhos e divididos iremos fracassar.”
 
Disse isto naquele dia e hoje, 54 anos depois, o ratifico!
 
Devo apenas incluir naquela lista os demais povos do mundo que, durante mais de meio século, têm sido vítimas da exploração e do saque.
 
Esta foi a luta de Hugo Chavez.
 
Nem sequer ele mesmo suspeitava de quão grande era.
 
“Hasta la victoria siempre!”, inesquecível amigo!
 
Fidel Castro Ruz
11 de março de 2013
00h35

quinta-feira, 7 de março de 2013

Em Cuba, locais históricos recebem homenagens a Hugo Chavez

Centenas de cubanos esperam em fila, na Praça da Revolução, em Havana,
para homenagear o líder venezuelano.
 
Da Praça da Revolução, em Havana, à Puerta del Sol, em Madri, simpatizantes lembram presidente venezuelano.
 
 
O governo cubano iniciou, na quinta-feira, dia 7, uma série de homenagens a Hugo Chavez, morto na terça-feira, dia 5, após uma extensa luta contra um câncer na região pélvica. País onde o venezuelano foi operado e passou mais de dois meses internado, Cuba cumprirá três dias de luto nacional.
 
No início da jornada, durante a manhã, autoridades locais realizaram uma oferenda floral no Memorial José Martí, localizado na Praça da Revolução, em Havana. No local, para onde se dirigiram centenas de pessoas, há uma foto do presidente venezuelano, para que os cubanos prestem suas homenagens.
 
Na praça homônima da cidade de Santiago de Cuba, no leste do país, o presidente cubano, Raul Castro, depositou uma flor em frente à imagem de Chavez, disposta no monumento a Antonio Maceo. Após a notícia da morte do par venezuelano, Castro havia expressado que “Chavez também é cubano”, além de declarar “eterna lealdade” a sua “memória e legado”, e apoio “irrestrito” à Revolução Bolivariana.
 
Ainda na quinta-feira, se repetiu na Ilha um ato já realizado na abertura do cortejo fúnebre de Chavez, na Venezuela, no qual disparos de canhão são efetuados. As bandeiras de todos os edifícios públicos cubanos foram hasteadas a meio mastro, segundo a Telesur.
 
Além da Praça da Revolução da capital cubana, outro local simbólico de resistência ao avanço do capitalismo recebeu homenagens ao líder da Venezuela: a Puerta del Sol, em Madri, onde na quarta-feira, dia 6, centenas de pessoas choraram, cantaram e levantaram cartazes com mensagens de apoio ao povo venezuelano. Entre os cantos entoados estava o de “Chavez vive, a luta continua!”.
 
Consulados e embaixadas da Venezuela de diversos países do mundo, como Argentina, Brasil, Espanha, Chile, México, Colômbia, Uruguai, Peru e Rússia, também foram cercadas, nos últimos dias, por grupos de simpatizantes que realizaram demonstrações de solidariedade à população venezuelana e homenagens posturas ao presidente do país.
 
Clique aqui para ler o comunicado do governo cubano sobre a morte de Hugo Chavez.

Filha de Raul Castro compara morte de Chavez com a de Che Guevara

 
Via EFE
 
A deputada Mariela Castro (foto), filha do presidente de Cuba, Raul Castro, comparou na quarta-feira, dia 6, a morte do presidente da Venezuela, Hugo Chavez, com a do guerrilheiro argentino-cubano Ernesto Che Guevara.
 
“Chavez realmente é um grande exemplo para as novas gerações. Eu o relaciono com a profunda dor que sentiu o povo de Cuba com o desaparecimento físico de Ernesto Che Guevara”, afirmou Mariela ao canal Telesur, com sede em Caracas.
 
“Quando da morte de Che, eu era uma menina, mas sempre, sempre a estamos vivendo como uma perda presente, mas também como uma inspiração para o futuro e isso é o que começa a acontecer [com Chavez]”, considerou a deputada.
 
Em 2011, o líder cubano, Fidel Castro, foi quem recomendou a Chavez que fizesse uma revisão de saúde depois de reclamar de fortes dores que o incomodavam há tempos.
 
Mais de 20 meses depois, Chavez faleceu na terça-feira, dia 5, em Caracas de um câncer que lhe levou a passar quatro vezes pela sala de cirurgia. O presidente venezuelano tratou a maior parte de sua doença em Havana, a última operação ocorreu em 11 de dezembro.
 
“Amanhã [6/3] em todo nosso país, o povo cubano fará uma grande demonstração de seu amor profundo, seu respeito e sua admiração por esse presidente valente”, considerou Mariela Castro.
 
Desde a chegada de Chavez ao poder, Venezuela e Cuba mantêm estreitas relações políticas e econômicas, que concretizam-se com o envio de Caracas a Havana de 100 mil barris diários de petróleo em troca de equipes médicas, educativas e esportivas.

Eduardo Galeano: A demonização de Chavez

 
Eduardo Galeano, via Brasil de Fato, texto escrito em janeiro deste ano.
 
Hugo Chavez é um demônio. Por quê? Porque alfabetizou 2 milhões de venezuelanos que não sabiam ler nem escrever, mesmo vivendo em um país detentor da riqueza natural mais importante do mundo, o petróleo. Eu morei nesse país alguns anos e conheci muito bem o que ele era. O chamavam de “Venezuela Saudita” por causa do petróleo. Havia 2 milhões de crianças que não podiam ir à escola porque não tinham documentos…
 
Então, chegou um governo, esse governo diabólico, demoníaco, que faz coisas elementares, como dizer: “As crianças devem ser aceitas nas escolas com ou sem documentos”. Aí, caiu o mundo: isso é a prova de que Chavez é um malvado malvadíssimo.
 
Já que ele detém essa riqueza, e com a subida do preço do petróleo graças à guerra do Iraque, ele quer usá-la para a solidariedade. Quer ajudar os países sul-americanos, e especialmente Cuba. Cuba envia médicos, ele paga com petróleo. Mas esses médicos também foram fonte de escândalo.
 
Dizem que os médicos venezuelanos estavam furiosos com a presença desses intrusos trabalhando nos bairros mais pobres. Na época que eu morava lá como correspondente da Prensa Latina, nunca vi um médico. Agora sim há médicos. A presença dos médicos cubanos é outra evidência de que Chavez está na Terra só de visita, porque ele pertence ao inferno.
 
Então, quando for ler uma notícia, você deve traduzir tudo. O demonismo tem essa origem, para justificar a diabólica máquina da morte.

Atílio Borón: ¡Gloria al bravo Chavez! ¡Hasta la victoria, siempre, comandante!

 
Atílio Borón, via Democracia Ya!
 
Custa muito assimilar a dolorosa notícia do falecimento de Hugo Chavez Frias. Impossível não maldizer o infortúnio que priva Nossa América de um dos poucos “imprescindíveis”, no dizer de Bertolt Brecht, na luta ainda em curso por nossa segunda e definitiva independência.
 
A história dará seu veredito sobre a tarefa que Chavez cumpriu, e não se duvida de que será veredicto muito positivo. À parte qualquer discussão que se possa travar legitimamente no interior do campo antiimperialista – nem sempre suficientemente sábio para distinguir com clareza entre amigos e inimigos –, é preciso começar por reconhecer que o líder bolivariano virou uma página da história da Venezuela e, por que não?, também da história da América Latina.
 
A partir de hoje se falará de uma Venezuela e de uma América Latina antes e de outras depois de Chavez, e não seria temerário conjecturar que as mudanças que impulsionou e que protagonizou como bem poucos em nossa história levam a marca da irreversibilidade. Os resultados das recentes eleições na Venezuela – reflexo da maturidade da consciência política de um povo – dão base a esse prognóstico. Talvez haja regressões na trilha das nacionalizações e se privatizem empresas públicas, mas é infinitamente mais difícil conseguir que um povo que afinal conheceu a própria liberdade e a própria potência, volte atrás e se deixe outra vez submeter.
 
Em sua dimensão continental, Chavez foi o protagonista na derrota que o continente impôs ao mais ambicioso projeto do Império para a América Latina: a Alca. Bastaria isso para instalá-lo na galeria dos grandes de Nuestra América. Mas fez muito mais.
 
Líder popular, representante genuíno de seu povo, com o qual se comunicava como nenhum governante antes dele soubera fazer, sentia desde jovem o mais visceral repúdio pela oligarquia e o imperialismo. Esse sentimento evoluiu até tomar a forma de projeto racional: o socialismo bolivariano, socialismo do século 21.
 
Chavez foi quem, em plena noite neoliberal, reinstalou no debate público latino-americano – e, em grande medida, também no debate internacional – a atualidade do socialismo. Mais que isso, a necessidade do socialismo como única alternativa real, não ilusória, ante o inexorável desmonte do capitalismo, denunciando as falácias das políticas que procuram solucionar sua crise integral e sistêmica preservando os parâmetros fundamentais de uma ordem econômico-social historicamente já desencaminhada.
 
Como recordávamos acima, foi Chavez, também, o comandante em campo que impôs ao imperialismo a histórica derrota da Alca em Mar del Plata, em novembro de 2005. Se Fidel foi o general estrategista dessa longa batalha, aquela vitória teria sido impossível sem o protagonismo do Chavez bolivariano, cuja eloquência persuasiva precipitou a adesão do anfitrião da Cúpula de Presidentes das Américas, Néstor Kirchner; de Luiz Inácio “Lula” da Silva; e da maioria dos chefes de Estado ali presentes e, de início, pouco propensos – quando não abertamente contrários – a desagradar o imperador bem ali, nas barbas dele.
 
Quem, senão Chavez, teria podido virar aquela mesa?
 
O instinto de sobrevivência dos imperialistas explica a implacável campanha que Washington lançara contra seu governo, desde antes do primeiro dia. Cruzada que, ratificando uma deplorável constante histórica, contou com a colaboração do infantilismo ultraesquerdista que, dentro e fora da Venezuela, pôs-se objetivamente a serviço do Império e da reação.
 
Por isso, a morte de Chavez deixa um vazio difícil, senão impossível, de preencher. Àquela excepcional estatura como líder de massas unia-se a clareza de visão de que, como poucos, sobre decifrar e agir inteligentemente na complexa trama geopolítica do Império que visa a perpetuar a subordinação da América Latina.
 
Àquela trama só se poderia dar combate se se fortalecesse – alinhado às ideias de Bolívar, San Martín, Artigas, Alfaro, Morazán, Martí e, mais recentemente, de Che e de Fidel – a união dos povos da América Latina e Caribe.
 
Força livre da natureza, Chavez “reformatou” a agenda dos governos, partidos e movimentos sociais da região, com uma interminável torrente de iniciativas e de propostas integracionistas: da Alba à Telesur; da Petrocaribe ao Banco do Sul; da Unasul e do Conselho Sul-Americano de Defesa à Celac. Iniciativas, todas essas, que têm um mesmo indelével código genético: o fervente, firme, jamais vacilante anti-imperialismo de Chavez.
 
Chavez já não estará entre nós, irradiando essa transbordante cordialidade; o rico, fulminante senso de humor que desarmava os arranjos de protocolo; sua generosidade e altruísmo que o faziam tão querido. Martiano até a medula, sabia que, como disse o Apóstolo cubano, nenhum homem sem leitura será jamais livre. Foi homem de curiosidade intelectual sem limites.
 
Em tempos em que praticamente nenhum chefe de Estado lê coisa alguma – o que leriam os seus detratores, Bush, Aznar, Berlusconi, Menem, Fox, Fujimori? –, Chavez foi o leitor com que todos os autores sonham para seus livros. Lia muito, apesar das pesadas obrigações e responsabilidades de governo. E lia com paixão, tendo sempre a mão lápis, canetas, marcadores de texto de várias cores, com que ia marcando e anotava as passagens que o interessavam, as melhores frases, os argumentos de mais peso, de tudo que lia.
 
Esse homem extraordinário, que me honrou com sua amizade, está morto.
 
Deixou-nos um legado imenso, inapagável, e os povos de Nuestra América, inspirados por seu exemplo continuarão a andar pela trilha que leva à nossa segunda e definitiva independência.
 
Acontecerá com ele o que aconteceu ao Che: a morte, em vez de apagá-los da cena política, agigantará sua presença e sua gravitação nas lutas de nossos povos e de nosso tempo. Por um desses paradoxos que a história reserva só aos grandes, a morte o converte em personagem imortal. Parafraseando o hino nacional venezuelano: ¡Gloria al bravo Chavez! ¡Hasta la victoria, siempre, Comandante!
 
Traduzido por Vila Vudu

Nasce Hugo Chavez, o mito


Eduardo Guimarães em seu Blog da Cidadania
 
Gostaria de acreditar que enquanto a maioria absoluta dos venezuelanos chora copiosamente a “morte” de Hugo Rafael Chavez Frias não existe quem a esteja comemorando. Entretanto, não me iludo. Apesar de ser um homem de paz que nunca revidou com violência a violência que sofreu nos idos de abril de 2002, Chavez era odiado com fervor por uma minoria.
 
Seus inimigos não o combateram por seus defeitos, que, como qualquer ser humano, deveria ter muitos. Não, não. Ele foi combatido por suas qualidades, porque sua obra – que ultrapassou as fronteiras de seu país – tornou o mundo mais justo e a vida dos compatriotas desvalidos menos penosa.
Foi chamado de “ditador”, mas nenhum governante das três Américas jamais se apresentou tantas vezes ao voto popular limpo e inquestionável quanto ele. De 1999 até o ano passado, incontáveis foram as eleições que venceu sem que nunca um só questionamento à lisura dos processos eleitorais que lhe deram as vitórias tenha sido sequer levado a sério.
 
Chavez logrou fazer da Venezuela a campeã das Américas em redução da pobreza e da desigualdade social. Sua obra social, como não podia ser atacada por conta de êxitos como o de tornar o seu país o segundo da América Latina, ao lado de Cuba, a extirpar a chaga do analfabetismo, foi ignorada pela mídia internacional e até pela venezuelana.
 
Nunca me esquecerei de uma viagem que fiz à Venezuela em 2007, quando fui a um dos morros que cercam Caracas e, em visita ao uma unidade do programa social de Chavez que acabou com o analfabetismo, vi adolescentes e até adultos recém-alfabetizados estudando a constituição do país.
 
Mas a obra de Chavez extrapolou as fronteiras de seu país natal. A revolução bolivariana se espalhou pela América Latina. Sua influência mais forte tem sido sentida na Argentina, na Bolívia e no Equador, com um modelo revolucionário que reformou constituições e democratizou a comunicação de massas.
 
Perto da redução da pobreza, da miséria e da desigualdade que Chavez promoveu, a que conseguimos no Brasil, em comparação proporcional, não lhe chega nem aos pés. Isso porque, com risco da própria vida e sacrificando a paz pessoal, ele comprou brigas com poderes imensuráveis que, se não tivesse comprado, teria tido uma vida mais fácil no poder.
 
Dolorosamente, a morte física de Chavez será explorada de forma nauseabunda por multibilionários das mídias de ultradireita que infestam esta parte do mundo. Tentarão culpa-lo pela própria morte. Em lugar de destacarem sua obra, destacarão o processo sucessório na Venezuela.
 
A esses, digo que se antes tinham poucas chances de derrotar esse herói latino-americano, esse verdadeiro patrimônio da humanidade, agora suas chances são nulas, morreram fisicamente com ele, que acaba de renascer. Hugo Rafael Chavez Frias renasceu, chacais da miséria humana. Tornou-se um mito que os assombrará até o fim dos tempos.
 
Morto fisicamente, Chavez adquiriu poderes que nem todos os editoriais, colunas, telejornais ou reportagens mal-acabadas da Terra conseguirão equiparar. Sua verdadeira história só agora começará a ser contada às gerações futuras, mostrando que quando um homem devota sua vida ao bem comum como ele fez, torna-se imortal.
 
Descanse em paz, Hugo.

Hugo Rafael Chavez Frias (Sabaneta, 28/7/1954 – Caracas, 5/3/2013)

 
A morte do comandante presidente Hugo Chavez Frias na terça-feira, dia 5, provoca imensa dor e consternação no povo venezuelano, em todos os povos latino-americanos e na imensa legião de admiradores, seguidores, amigos e aliados que com sua força interior, seu carisma, seu talento e energia conquistou para a Revolução Bolivariana e a causa da libertação nacional e social de seu povo.
 
Hugo Chavez entra para a História como uma das maiores figuras já nascidas em solo latino-americano. Ao lado de Fidel Castro, o comandante da Revolução Cubana, foi o principal líder anti-imperialista dos tempos atuais, depositário da confiança dos povos da “Nuestra América”, como denominou José Martí.
Foi efetivamente um gigante. Chavez liderou um importante movimento político, que, de tão novo, ainda está no nascedouro. Com a força das suas ideias transformadoras e o seu exemplo edificante de dirigente revolucionário e estadista, tal movimento tende a se consolidar e perenizar como a grande tendência de nossa época. O movimento político protagonizado e dirigido por Chavez tem por essência o anti-imperialismo, que é o próprio espírito da nossa época, a marca da resistência tenaz dos povos à ofensiva neocolonialista dos potentados internacionais sob a égide do imperialismo estadunidense.
 
Outra marca indelével de seu pensamento e obra é a democracia popular, participativa, a mobilização permanente do povo, arma da vitória em qualquer batalha contra os inimigos por mais poderosos que se afigurem.
 
Chavez forjou a unidade do povo, bandeira da esperança, a partir das demandas e anseios dos humildes, dos trabalhadores, dos explorados e oprimidos do seu país, em luta contra oligarquias usurárias e cruéis.
 
Fez também da unidade dos povos latino-americanos e caribenhos uma bandeira de luta, uma meta a alcançar, cujos primeiros resultados estão em evidência nas atuais conquistas democráticas, patrióticas e no plano da integração soberana e solidária, cujas expressões maiores são a Aliança Bolivariana dos Povos de Nossa América (Alba) e a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac). Chavez passa à História como um internacionalista, um estrategista que repôs na ordem do dia das tarefas mais importantes da época a luta pelo socialismo, pela independência nacional e a paz.
 
Hugo Chavez é o libertador moderno da Venezuela e da América Latina. Antes da sua primeira vitória eleitoral, em 1998, as perspectivas de seu país e de toda a América Latina eram as mais sombrias. Estava em curso uma tremenda ofensiva neocolonialista e, com a honrosa exceção de Cuba revolucionária, o imperialismo contava com o consentimento, a permissividade e o beneplácito das classes dominantes, oligarquias e governos locais. Tudo indicava no sentido da submissão ao chamado Acordo de Livre Comércio para as Américas (Alca).
 
Esta situação começou a mudar a partir da tomada do poder por Hugo Chavez. Ele lançou o brado da integração dos povos, da unidade latino-americana e caribenha, a partir do ideário do libertador Simon Bolívar.
 
Chavez iniciou na Venezuela a revolução democrática, redigiu a Constituição bolivariana, que lhe deu força e legitimidade para iniciar o desmonte do sistema político das oligarquias ligadas ao imperialismo.
 
Chavez introduziu um modo novo de governar e de enfrentar a questão social, tão aguda em seu país. Não se deixou levar pela rotina do Estado burocrático. Lançou um ambicioso programa social e de mobilização popular a que chamou de Missões, pelo qual enfrentou os problemas da educação, da saúde, da educação, da alimentação e do bem-estar social.
 
Em outra frente estratégica, Chavez nacionalizou o petróleo, que passou a alimentar não mais os apetites insaciáveis de lucro das multinacionais, mas a sustentar o desenvolvimento de um país soberano.
 
Com isso, o líder bolivariano conquistou impressionante adesão popular, mas também, por outro lado, o ódio da burguesia e do imperialismo.
 
Por esta razão, foi vítima de um golpe de Estado, de sabotagens à economia e de uma tentativa de revogar seu mandato. Foram intentonas contrarrevolucionárias comandadas de fora pelo imperialismo com o apoio das oligarquias internas.
 
Depois de 14 anos de exercício do poder por Hugo Chavez, baseado em ampla frente política de esquerda e no imenso movimento popular que o respalda, a Venezuela avançou na construção do bem-estar social e na elevação da consciência política do povo.
 
Já enfermo, mas consciente das suas elevadas responsabilidades perante a Nação, o povo e os países irmãos, Chavez aceitou o desafio do embate eleitoral que culminou com sua vitória retumbante em 7 de outubro do ano passado, ocasião em que afirmou: “O que o que está em jogo é a própria Pátria”. Consciente das dimensões que essa batalha tinha para a América Latina e o mundo, o líder da Revolução cubana, Fidel Castro, disse que “poucas vezes, talvez nunca, pôde-se refletir, tão nitidamente, uma luta de ideias entre o capitalismo e o socialismo como a que se expressa hoje na Venezuela”.
 
Os inimigos da liberdade e da soberania dos povos percebem isto, e têm feito uma repugnante, covarde e traiçoeira campanha de desestabilização do país. Tudo indica que vão tentar aproveitar-se do momento de transe para dar curso às suas intentonas golpistas.
 
Nesse contexto, ganha força a afirmação do vice-presidente Nicolas Maduro, no pronunciamento em que anunciou o falecimento de Hugo Chavez: “Seu legado não morrerá nunca”, assim como o sentido apelo que fez à unidade e à mobilização do povo para defender as conquistas da Revolução e levá-la adiante.
 
A morte de Chavez é uma perda irreparável e abre imensa lacuna. Não é fácil substituir um líder do seu porte e da sua dimensão. Neste momento de profunda dor, os amigos do povo venezuelano em todo o mundo estão próximos e confiantes em que saberá marchar adiante, sob a nova liderança, com a luz e a força das ideias e do exemplo de Chavez. Sempre!

A hora e a vez de Hugo Chavez

Agora que Chavez não existe mais, o que permanece é o chavismo. Até então, o oposicionismo venezuelano enfrentava um líder carismático de carne e osso. A partir de agora, enfrentará uma lenda.
 
Antonio Lassance, via Carta Maior
 
A morte do presidente Hugo Chavez, na Venezuela, será chorada por muitos e comemorada por poucos. Neste momento em que grande parte da mídia internacional dedica seu tempo a falar mal do líder morto e torce para que ele permaneça a sete palmos debaixo do chão, seria bem melhor tentar entender Chavez enquanto figura política.
 
O fenômeno político que na Venezuela era conhecido pelo nome de Hugo Chavez transcende aquele país, à medida que nos traz à lembrança uma série de questões de primeira ordem para a compreensão da relação que o povo estabelece com a política. Por exemplo, os fenômenos em que a liderança política encarna um processo de ascensão popular que caracteriza o que pode ser chamado de democracia plebiscitária.
 
Chavez suscita ainda questões como a do papel da liderança carismática, na qual a supremacia de uma orientação política é calcada no heroísmo e no sacrifício – como fez Vargas, no Brasil. Chavez mostrou, de forma categórica, o quanto o nacionalismo permanece como a grande ideologia política de nosso tempo – como fez Allende, no Chile. Sua alcunha de “comandante” e sua patente de tenente-coronel eram a prova incontestável da forte presença dos militares na política latino-americana e de sua propensão bonapartista, ou seja, de se firmar acima de tudo e de todos como solução política dramática e enérgica, em momentos de crise profunda e de desgaste da política tradicional – assim como fez Perón, na Argentina.
 
Indo ainda mais longe, cai como uma luva, pelo desfecho trágico da trajetória de Chavez e pela comoção que se avoluma na Venezuela, a comparação com Júlio César – o romano e o shakespeariano. O cesarismo é, para Chavez, uma analogia perfeita para entender o que este presidente foi para a Venezuela e o que pode esse país tornar-se após essa morte.
 
O cesarismo de Chavez se afirmou em três dimensões. Assim como César, Chavez foi responsável pela dissolução da política aristocrática e pela popularização do poder, no sentido de que a sorte dos governantes passava a depender não de instituições sólidas e regras rígidas do jogo político; não de coalizões claramente organizadas em partidos; não mais de disputas com resultados previsíveis. Com Chavez, a política passava a extrair seus resultados do poder de mobilização popular de seu líder.
 
O azar da oposição venezuelana foi jamais ter produzido alguém minimamente capaz de disputar com Chavez de igual para igual. Essa medíocre oposição jamais conseguiu produzir um líder popular com a gama de atributos ostentada por Chavez.
 
O segundo aspecto é a visão heroica e grandiosa do poder. O bolivarianismo de Chavez e sua retórica latino-americanista eram bem mais que retórica. Eram a intenção verdadeira de encarnar um projeto de afirmação regional daquele país e a busca por um protagonismo continental que a Venezuela vez por outra acalentou, desde Simon Bolívar. A rivalidade chavista aguçava as diplomacias continentais, favoráveis ou contrárias ao seu projeto de Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba).
 
Chavez foi muitas vezes um espantalho, aparentemente inofensivo em seu poder de fogo, mas bastante eficiente em sua tarefa de atiçar os adversários com seu sul-americanismo antiamericano. Diante do espantalho, os que a ele faziam oposição caíram no erro de se comportar exatamente como corvos.
 
O terceiro aspecto é o do destino trágico. A morte de César foi aguardada e comemorada pelos que supunham que seu desaparecimento levaria junto, para o túmulo, a pessoa e o que ela representava. Mas, assim como na tragédia romana, o destino da Venezuela passa a estar umbilicalmente ligado aos desdobramentos do chavismo. Agora que Chavez não existe mais, o que permanece é o chavismo, como Gilberto Maringoni antecipou recentemente em artigo na Carta Maior.
 
O velório de Chavez é, no mínimo, o primeiro comício da campanha presidencial venezuelana. A depender do desenrolar dos fatos, pode ser o primeiro ato da institucionalização de um novo regime, erigido à sombra de sua liderança sacralizada. Até então, o oposicionismo venezuelano enfrentava um líder carismático de carne e osso. A partir de agora, enfrentará uma lenda.
 
Antonio Lassance é cientista político e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente opiniões do Ipea.

“Viva Hugo Chavez! Viva para sempre.”

O presidente da Venezuela e líder da Revolução Bolivariana, Hugo Chavez Frias, morreu na terça-feira, dia 5, aos 58 anos, vítima de câncer. O vice-presidente do país, Nicolas Maduro, fez o anúncio durante a tarde, em rede de rádio e televisão. Ele já havia confirmado, durante o dia, a notícia de que o estado de saúde de Chavez se agravara. “Viva Hugo Chavez! Viva para sempre”, celebrou Maduro.
 
 
O vice-presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, anunciou a morte do presidente Hugo Chavez, em pronunciamento em rede de rádio e televisão. Chavez tinha 58 anos e morre após enfrentar longo tratamento contra o câncer, parte dele feito em Cuba.
 
O governo ainda vai informar onde será velado o corpo de Chavez e dará detalhes sobre o sepultamento. Maduro pediu que o povo venezuelano enfrente este momento “com o amor que Chavez ensinou”. O vice-presidente encerrou a fala com a frase: “Viva Hugo Chavez! Viva para sempre”.
 
As Forças Armadas venezuelanas, também em comunicado em rede nacional de rádio e televisão, disseram que se unia ao povo “neste momento de dor”, que permanece unida e que manterá a luta pelos ideais de Chavez. O texto aponta que a Constituição seguirá sendo respeitada e que Maduro poderá “contar com as Forças Armadas”.
 
Por causa da morte do presidente da Venezuela, Dilma Rousseff cancelou a viagem que faria à Argentina na quinta-feira, dia 7. A presidenta iria a El Calafate para reuniões bilaterais com sua colega argentina, Cristina Kirchner.
 
Ao falar, com a voz embargada, sobre a morte de Chavez, Dilma afirmou: “O presidente Hugo Chavez deixará no coração, na história e nas lutas da América Latina um vazio. Lamento, como presidente da República e como uma pessoa que tinha por ele um grande carinho”.
 
A presidenta Dilma participava nesta terça do Congresso Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, que ocorre em Brasília. Ela e sua colega argentina, Cristina Kirchner, devem viajar à Venezuela para participar do velório de Chavez.
 
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que conviveu bastante com Chavez ao longo de seus oito anos de governo, divulgou nota oficial.
 
“Eu me solidarizo com o povo venezuelano, com os familiares e correligionários de Chavez, neste dia tão triste, mas tenho a confiança de que seu exemplo de amor à pátria e sua dedicação à causa dos menos favorecidos continuarão iluminando o futuro da Venezuela”, diz um trecho da nota.

terça-feira, 5 de março de 2013

“EUA deveriam acabar com as sanções contra Cuba”, diz presidente do Senado francês

Jean-Pierre Bel, presidente do Senado francês: “Queremos
aprofundar nossos laços com Cuba e desenvolver nossa cooperação.”
Em visita a Havana, Jean-Pierre Bel também defendeu que a França seja interlocutora de diálogo entre Cuba e União Europeia.
 
 
Presidente do Senado desde 2011, Jean-Pierre Bel é o segundo personagem do Estado francês, segundo a Constituição. Amigo íntimo do Presidente da República, François Hollande, converteu-se no primeiro socialista que ocupa esse cargo no Senado durante a V República. Domina o idioma espanhol e é um bom conhecedor da América Latina e, particularmente, de Cuba.
 
Nascido em 1951, no seio de uma família de resistentes comunistas do sul da França, Jean-Pierre Bel se envolveu a partir dos anos 1970 nas redes de solidariedade à oposição espanhola na luta contra a ditadura de Francisco Franco, acolhendo refugiados e fornecendo apoio material aos antifascistas. Durante uma dessas operações, foi preso pela polícia franquista e esteve vários meses nas prisões espanholas.
 
Eleito prefeito em 1983 e senador em 1998, Jean-Pierre Bel presidiu o grupo socialista do Senado de 2004 a 2011 e foi membro durante mais de 10 anos do Birô Nacional do Partido Socialista, antes de ser eleito o número dois da Nação. Jean-Pierre Bel é um ardente defensor de um estreitamento das relações entre França e América Latina, particularmente com Cuba, não apenas por razões políticas, mas também afetivas. Com efeito, admirador da Revolução Cubana desde a adolescência, o Presidente do Senado se casou com uma cubana e, dessa união, nasceu uma filha.
 
Na conversa, realizada na ilha, o Presidente do Senado aborda as relações entre Cuba e França, a política da União Europeia quanto ao governo de Raul Castro, o conflito bilateral entre Washington e Havana, assim como as perspectivas de sua normalização durante o segundo mandato de Barack Obama. Ele evoca também a distinção por ele concedida a Eusébio Leal, historiador de Havana, que recebeu em nome do Presidente da República a Cruz de Comendador da Legião de Honra. Por fim, este diálogo termina com uma reflexão sobre a figura de Maximiliano Robespierre, herói da Revolução Francesa.
 
Opera Mundi: Em que estado se encontram as relações entre Cuba e França?
Jean-Pierre Bel: Em uma etapa crucial. Houve recentemente, ao final de janeiro, o encontro entre a União Europeia e a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos em Santiago, na qual os dirigentes de ambos os continentes puderam trocar pontos de vista e ideias sobre o futuro de nosso mundo e sobre o modelo de sociedade que queremos construir. Cuba assumiu a presidência dessa instituição, a Celac, que agrupa as 33 nações da América Latina e do Caribe, e este é um acontecimento muito importante. O primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault, estava em Santiago e posso afirmar que há uma vontade muito forte, por parte do nosso país, França, de aprofundar as relações com Cuba. Falei pessoalmente com o Presidente da República, François Hollande, e há uma verdadeira determinação de reforçar nossos laços com Havana.
 
Quais são os vínculos entre ambas as nações?
Os laços são múltiplos e são de ordem histórica e cultural. A Revolução Francesa e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão influenciaram muito os grandes pensadores cubanos, particularmente o Apóstolo e Herói Nacional José Martí. A Revolução Francesa também marcou a Revolução Cubana em sua luta pela independência. O hino nacional cubano, La Bayamesa, é inspirado diretamente em La Marsellesa (A Marselhesa) e há uma grande similaridade entre nossas bandeiras. Grandes personagens franceses participaram na organização deste país. Para Havana, por exemplo, foi um arquiteto francês que realizou as grandes infraestruturas ao redor da capital. Franceses de Bordéus fundaram a cidade de Cienfuegos. Cuba é um país que sempre fascinou os franceses. A epopeia revolucionária de Fidel Castro marcou minha geração. Todos tínhamos a foto do Che Guevara em nossos quartos. Mais que um símbolo, França e Cuba compartilham uma história comum. Nós temos, então, a responsabilidade, as gerações de hoje, de retomar essa história e fazer com que nossos dois países, nossos dois povos, recuperem uma amizade forte e fraternal.
 
E nos dias de hoje?
Hoje a época é outra e eu desejo, levando em conta meus laços particulares com Cuba, contribuir para voltar a encontrar essa via da amizade e compartilhar nossos pontos de vista. A França tem um papel a desempenhar em Cuba, e estão presentes aqui importantes empresas francesas, como, por exemplo, Bouygues, que está construindo vários complexos hoteleiros e tem muitos projetos nesta ilha. Também está o magnífico casamento entre Cuba e França com a marca Havana Club e a empresa Pernod-Richard, que permite levar através do mundo a excelência cubana em matéria de rum. A Air France também ocupa um espaço importante em Cuba. Todos queremos aprofundar nossos laços com Cuba e desenvolver nossa cooperação. E, para isso, devemos respeitar o que é este país, sua identidade, seu sistema e seu modo de funcionar. Temos muita margem de progressão.
 
O que esta viagem a Cuba representa para o senhor?
Estou encarregado de levar esta mensagem de amizade e fraternidade da França a Cuba, e esta viagem tem uma dimensão emotiva particular para mim, pois minha segunda família se encontra neste país. Minha esposa é cubana e tenho este país no coração. Mas estou aqui como Presidente do Senado francês, isto é, como segunda figura da República para testemunhar a importância que meu país concede às relações e ao diálogo com Cuba.
 
A União Europeia impõe, desde 1966, uma Posição Comum a respeito de Cuba, oficialmente pela situação dos direitos humanos, o que faz da ilha a única nação do continente estigmatizada dessa forma. Seria sensato que a União Europeia modificasse seu enfoque em relação às autoridades cubanas?
Desde já a União Europeia tem que evoluir e, de fato, está modificando seu enfoque com relação a Cuba. A Posição Comum é uma política antiquada e a França quer se o interlocutor nessa realidade e convencer o restante da Europa de que o diálogo com Cuba é necessário. Somos conscientes das dificuldades, pois não temos a mesma visão sobre a realidade. Nossos sistemas políticos são diferentes. No entanto, somos lúcidos e sabemos tudo o que este país sofreu durante os últimos anos. Para o povo cubano, a realidade tem sido dura. Às vezes, vivo com o povo cubano, compartilho de sua vida cotidiana e sempre me surpreende a sua capacidade para fazer frente às dificuldades, para viver melhor, para comer melhor, para ter mais comodidade. Mas se trata, sobretudo, de uma luta pela dignidade. Para nós, franceses, Cuba é terra de espíritos livres, é sinônimo de inteligência, dignidade e beleza. Sob essa perspectiva, nos sentimos muito próximos deste povo e destes valores que levamos juntos.
 
Os Estados Unidos impõem sanções econômicas a Cuba há mais de meio século. Afetam as categorias mais vulneráveis da sociedade. A imensa maioria da comunidade internacional, 186 países em 2012, se pronuncia a favor de seu fim imediato. Chegou o momento de Washington normalizar suas relações com Cuba?
Não quero me meter nas relações entre ambos os países, mas sim tenho de expressar minha opinião. Diria que chegou o momento, mais do que nunca, de voltar a encontrar o sentido das realidades. Há apenas 170 quilômetros entre essas duas nações que, na sua história, sempre se olharam frente a frente. É tempo de que ambos os povos caminhem juntos, um ao lado do outro. Seria bom para todos deixar de lado as diferenças e olhar coletivamente o porvir com um olhar apaziguado. É tempo de acabar com as sanções econômicas que existem há 50 anos e fazem o povo cubano sofrer.
 
Em nome do Presidente da República francesa, François Hollande, o senhor acaba de condecorar Eusébio Leal, historiador da cidade de Havana, com a Cruz de Comendador da Legião de Honra. Trata-se da mais alta e antiga distinção que nossa nação outorga. Quais critérios motivaram essa decisão?
Eusébio Leal é para nós um grande personagem. Eu me reuni com ele várias vezes em Paris e em Havana e uma amizade e uma admiração fortes nos unem. Sempre me impressionou seu imenso talento, sua cultura incrível e sua insaciável curiosidade. Eusébio Leal tem a particularidade de conhecer nossa própria história melhor do que nós. Estudou-a com muita paixão, particularmente o período napoleônico. Sempre me lembrarei de nosso encontro no Palácio de Luxemburgo, sede do Senado da República. Encontrávamo-nos diante do trono onde foi coroado o Imperador Napoleão e escutávamos as explicações de vários especialistas da época. Eusébio Leal, historiador de Havana, cubano, nos fez uma grande surpresa ao completar a exposição dos historiadores e esclarecer detalhes e aspectos que todos ignorávamos. De fato, em Cuba, em Havana, encontra-se um dos maiores museus do mundo sobre Napoleão, obra de Leal, e é de uma riqueza extraordinária. Foi inaugurado em 2011 com a presença da Princesa Napoleão.
 
Que valores Eusébio Leal representa para o senhor?
Eusébio Leal representa os valores da França, dos princípios de nossa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Compartilha da luta da França pela liberdade e a emancipação da humanidade, mediante a conquista de novos direitos sociais. Compartilha de nosso espírito de resistência e solidariedade para com os mais frágeis. É o laço entre a França de Victor Hugo e Aimé Césaire e a Cuba de José Martí. É o laço entre nossas duas culturas convergentes. Leal é, ao mesmo tempo, o símbolo dessa extraordinária cultura cubana, tão próxima de nós. Eusébio Legal é um grandessíssimo embaixador de Cuba na França e no exterior, e creio que merece essa distinção particularmente importante. Poucas personalidades estrangeiras foram condecoradas com a Cruz de Comendador da Legião de Honra, estabelecida por Napoleão Bonaparte em 19 de maio de 1802. Que eu saiba, com exceção de Nelson Mandela, ninguém recebeu distinção semelhante.
 
Maximilien de Robespierre, nosso Libertador, o defensor da soberania popular, era sem dúvida o mais fiel representante das aspirações do povo francês durante a Revolução. Quando ergueremos uma estátua sua em Paris?
Muitos franceses se interessam pela história de Robespierre e, assim como em Cuba, temos na França nossos grandes debates. O modo como Robespierre levou nossa Revolução e as razões pelas quais foi guilhotinado em pleno período do Terror são objeto de controvérsia. É verdade que também existiu o terror branco dos realistas. Venho de um Departamento cujo presidente da Corte de Segurança Geral, na época do Terror, derrubou Robespierre e lhe cortou a cabeça.
 
Por acaso, defender o legado de Robespierre não é defender a democracia?
Convém analisar esses acontecimentos com um olhar histórico. As ideias da Revolução são minhas. O ideal de Robespierre é meu. Talvez compartilhe hoje da forma como se exerceu o poder naquela época. Mas hoje é outro dia, outra época, e é difícil fazer julgamentos a posteriori, pois não vivemos na epopeia revolucionária, e quem sabe como teríamos atuado se estivéssemos no poder e tivéssemos que enfrentar uma guerra civil e o assalto de todas as monarquias europeias coligadas contra nossa Pátria e nossa Revolução. Posso fazer um julgamento histórico, certamente, mas não um julgamento político.