sexta-feira, 19 de abril de 2013

Cuba segue na liderança em tecnologias de saúde


A vacina contra a meningite tipo B permitiu a primeira abertura no bloqueio norte-americano, que, desde os anos de 1960, proíbe todo e qualquer comércio de empresas estadunidenses com a Ilha, onde há cerca de 1.800 cientistas para cada mil habitantes.
 
Patrícia Grogg, via Terramérica e lido no Solidários
 
Ao começar o século 21, Cuba destaca-se mundialmente por seu notável progresso em tecnologias de saúde, a cujo desenvolvimento dedicou, enfrentando dificuldades econômicas, importantes recursos materiais e humanos. Entre as múltiplas descobertas dos cientistas da Ilha destaca-se um, não só por seu impacto social, mas também por seu significado político: a vacina contra a mortal meningite B. Única no mundo, a vacina denominada VA-Mengoc-BC abriu o caminho para o primeiro caso de transferência de tecnologia de Cuba para os Estados Unidos.
 
A empresa anglo-norte-americana Smith Kline Beecham Pharmaceuticals obteve, em junho de 1999, autorização do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos para assinar com o Instituto Finlay, de Havana, um convênio com o objetivo de introduzir a vacina no mercado europeu. Ainda está em marcha o complexo processo que permitirá a venda na Europa e, posteriormente, nos Estados Unidos, do antídoto contra a meningite B, uma doença que não respeita classes sociais, nem o maior ou menor grau de desenvolvimento. Desde sua assinatura, o contrato permitiu a primeira abertura no bloqueio norte-americano, que, desde os anos de 1960, proíbe todo comércio de empresas desse país com Cuba.
 
“Eles [os EUA] não têm essa vacina e dela precisam para seu sistema de saúde”, disse ao Terramérica Pedro López Saura, diretor de Regulamentos e Ensaios Clínicos do Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia (CIGB). Entre os produtos do Finlay, especializado na pesquisa e produção de vacinas humanas, estão a antitetânica Vax-TET e a Dupla Antidifetérica-Tetânica. O diretor de Assistência Científico-Técnica Aplicada do Instituto, Franklin Sotolongo, mencionou entre os projetos em curso as vacinas contra a leptospirose e contra o cólera, um produto para prevenir a meningite BC/Hepatite B e a vacina tríplice Tétano-Difteria-Pertussis melhorada.
 
Boa parte do êxito de Cuba no campo da pesquisa em saúde se deve a uma ampla infraestrutura científica e tecnológica. Existem em Cuba cerca de 1.800 cientistas e engenheiros para cada mil habitantes e 1,2% do Produto Interno Bruto destina-se a gastos no setor. O restante é aportado pela estreita coordenação entre os centros que integram o polo científico do oeste de Havana, sendo o mais antigo deles o CIGB, que caminha na vanguarda da engenharia genética e da biotecnologia modernas. “Uma das características da ciência cubana, e da biotecnologia em particular, é a cooperação entre os centros de pesquisa e produção”, disse Saura.
 
O CIGB, que em seu início dedicou-se à produção em pequena escala de interferones – incorporados ao arsenal terapêutico de enfermidades virais, hepatite e alguns tipos de câncer –, atualmente elabora e comercializa uma ampla gama de produtos. De seus laboratórios surgiu a estreptoquinasa recombinante, registrada como Heberkinasa, de comprovada eficácia em doenças trombóticas, especialmente infarto agudo do miocárdio. Além disso, seus cientistas criaram a vacina recombinante contra a hepatite B (Heberbiovac HB), tão importante como a VA-Mengoc-BC por seu impacto social, pois ambas fazem parte do programa que protege a infância cubana contra 13 doenças.
 
O CIGB agora trabalha em uma vacina terapêutica contra a aids, cujos testes clínicos estão anunciados para acontecerem no início de 2002, e continua as pesquisas em busca do antídoto imunizante contra essa doença. “As variantes terapêuticas, que estimulam o sistema imune do paciente para que se defenda contra o mal, ficam prontas antes”, assegurou Saura. Ele também indicou que se tenta obter uma vacina contra a meningite tipo C. No campo agropecuário, uma vacina recombinante contra a carrapato (Gavac) permitiu ao país economizar US$4 milhões desde que, em 1995, começou a ser aplicada no gado bovino, em substituição aos acaricidas químicos. O antídoto obtido por pesquisadores do CIGB cria um anticorpo que reage e destrói uma das proteínas do carrapato quando este suga o sangue do animal.
 
Por sua vez, o Centro de Imunologia Molecular, construído no início dos anos de 1990, especializa-se no desenvolvimento da imunologia com base na produção de anticorpos monoclonais e outras moléculas do sistema imunológico, fundamentalmente para o tratamento do câncer e de doenças autoimunes. Entre os medicamentos já registrados por esse centro figuram o anticorpo monoclonal Ior t3, indicado na profilaxia da rejeição do transplante renal, e o Ior Epocim (à base de ritropoyetina humana recombinante alfa), para o tratamento de anemia associada com insuficiência renal crônica. O Ior t3 foi seguido de outros anticorpos monoclonais efetivos em casos de psoríase e artrite reumatoide, até que estudos posteriores derivaram para versões que podem ser usadas no combate contra tumores de mama e pescoço, entre outros.
 
Um projeto de vacina terapêutica contra o câncer poderia seguir o caminho preparado pela antimeningocócica, se a empresa mista cubano-canadense CIMYM conseguir interessar empresas multinacionais farmacêuticas para o desenvolvimento do produto.
 
Patrícia Grogg é autora é corresponde da IPS.

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