terça-feira, 16 de abril de 2013

“Estamos vendo uma mudança e a única que não vê é Miami”, afirma jornalista cubano


O jornalista cubano Max Lesnik dirige em Miami a Aliança Martiana, instituição que agrega quatro grupos defensores do diálogo entre EUA e Cuba. Ele recebeu a reportagem da Carta Maior para esta entrevista na sede da organização em Little Havana.
 
Daniella Cambaúva, via Carta Maior
 
A partir de 1959, quando o Movimento 26 de Julho, liderado por Fidel Castro, conquista o poder e derruba a ditadura de Fulgêncio Batista em Cuba, a cidade de Miami, na Flórida, começa a se tornar uma segunda pátria para milhares de cubanos anticastristas. Alguns descontentes com os rumos da Revolução Cubana e outros ex-apoiadores de Batista mudaram-se para o outro lado do estreito, separado de Cuba por 366 quilômetros, distância menor que entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.
 
A comunidade cubano-americana se estabeleceu principalmente em Miami, concentrando-se no bairro que passaria a ser conhecido como Little Havana (Pequena Havana). Com um grande número de oposicionistas, o lugar ficou conhecido como um berço de organizações anticastristas – ali residem não apenas dissidentes que optaram por deixar a Ilha, mas também pessoas que dedicaram suas vidas a tentar matar Fidel Castro e a boicotar o regime cubano.
 
É ali que vive o jornalista Max Lesnik desde 1961. Cubano e amigo pessoal de Fidel, deixou a Ilha por não concordar com os rumos da Revolução. Depois de 52 anos, ele mantém relações com Cuba e já intermediou relações entre o governo da Ilha e o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter (1977-1981). Por ter escolhido um caminho distinto dos demais opositores, enfrenta uma dissidência anticastrista raivosa, que constantemente o ameaça de morte e já sofreu 11 atentados a bomba.
 
Aos 83 anos, Lesnik dirige a Aliança Martiana, instituição que agrega quatro grupos defensores do diálogo entre EUA e Cuba e em cuja sede, em Little Havana recebe a reportagem da Carta Maior para a entrevista abaixo:
 
Carta Maior – Como era Miami no início dos anos 1960, quando o senhor chegou aqui, que ficaria conhecido pela hostilidade à Cuba de Fidel Castro?
Max Lesnik – Eu fui um dos cubanos que chegou a este país no começo do processo de confrontação entre Cuba e Estados Unidos, em 1961. Vi crescer esta cidade que, no começo, estava integrada pelos cubanos que chegaram primeiro, em 1959, que eram os da ditadura de Batista. Depois chegaram os elementos economicamente afetados pela Revolução. E depois, um terceiro grupo de revolucionários que estava de alguma maneira descontente com o caminho que o processo revolucionário havia tomado, de sua aliança com o campo soviético. E, portanto, vi como foi crescendo o processo e como foi de alguma maneira emergindo toda uma corrente que ainda não terminou, de violência e de confrontação contra a Revolução Cubana. Os atos terroristas que foram realizados em outra época desapareceram do ponto de vista físico, mas isso não quer dizer que o ressentimento não se mantenha em certo setor da sociedade cubana. E o ódio ocorre por razões que vão desde os confiscos, aos interesses capitalistas, ao ódio a um processo que mudou suas vidas. Miami é uma cidade diferente das outras dos Estados Unidos. Esta não é uma cidade norte-americana: é uma república bananeira, ao estilo da época de Somoza e Trujillo. Não governam o país, mas esta cidade está controlada por políticos cubanos que pensam igual aos terroristas. Em qualquer cidade norte-americana que houver uma estação de rádio, um jornal ou uma publicação televisiva que colocasse como heróis aqueles que deveriam estar na cadeira seria inconcebível, mas isso acontece aqui. Aqui há figuras públicas que cometeram terrorismo de Estado, começando por congressistas, que foram os que pediram a liberdade de pessoas que deveriam estar presas, mas que estão pelas ruas. E estão em liberdade por pressão dessa extrema-direita e pelas vozes dos próprios congressistas cubano-americanos que eram os patrocinadores desses personagens.
 
CM – Como por exemplo?
ML – Posada Carriles é um representante exemplar do que é o embate entre o poder público – neste caso prefeitos, representantes, congressistas – e um terrorista confesso e convicto. Aqui, um terrorista como Posada Carriles é um personagem, digno de ser respeitado, inclusive pelos jornais. Não o chamam de terrorista, mas militante anticastrista. Eles não militam: eles fazem terrorismo.
 
CM – Little Havana é, para o senhor, um exílio ainda hoje?
ML – Não. Hoje sou um cidadão cubano que vive nos Estados Unidos, respeitando as leis norte-americanas. Também tenho direitos de viver aqui, ameaçado ou não. Mas não pelo Estado norte-americano, mas por essa extremíssima direita. Digo “extremíssima” no sentido diminutivo, porque cada vez está menor, mas também mais perigosa. Como toda fera encurralada.
 
CM – O contexto político também mudou?
ML – Veja o caso de Cuba: é recebida em toda a América e no mundo como um país soberano. Nas Nações Unidas, 128 países votaram pelo fim do bloqueio. Quando a comunidade latino-americana se reúne com a União Europeia, no Chile, não apenas houve uma saudação de todos os países a Cuba, como quem assumiu a presidência dessa organização, a Celac, que é como uma OEA, foi Raul Castro. O que estamos vendo é uma mudança. E a única que não vê essa mudança é Miami, onde acontece uma profunda cegueira política. Não se vê a realidade. E algumas emissoras locais acompanham isso. O Miami Herald, por exemplo, lamentavelmente deixou de ser um jornal para ser um panfleto de propaganda política. Em grande parte, não por interesse econômico, mas por covardia.
 
CM – Qual seria a motivação, se não por interesse econômico?
ML – Considerando a composição de Miami, em audiência, o melhor negócio, falando claramente, seria fazer uma publicação aberta a todas as opiniões. Mas eles se focam no assunto de Cuba e no anticastrismo. Resultado: aqui há 2 milhões e tanto [de habitantes], dos quais 60% são de origem hispânica, e destes, os cubanos passaram a ser a minoria, porque já foram substituídos, permeados pela comunidade colombiana, porto-riquenha, venezuelana, brasileira, que também representam uma corrente. Mas eles se dirigem apenas para os cubanos. Isso explica uma tiragem de 50 mil exemplares em uma comunidade hispânica muito maior. Os cubanos, a cada dia, são em menor número, são a minoria. [Uma comunidade] poderosa economicamente e sobretudo intimidatória. Eles já me intimidaram, intimidaram os anunciantes da revista Réplica, os leitores. Pegar aquela revista na mão era ter alguém que dissesse “tenha cuidado, essa revista é comunista”. Dizem que, em Cuba, não há liberdade de expressão. Mas aqui, tampouco há. Digo isso porque uma publicação impressa que tenha uma visão distinta da extrema-direita não pode ser editada.
 
CM – Há hoje em Miami uma terceira geração, netos dos cubanos que vieram depois de 1959 e que se mantiveram na luta para derrubar o atual governo cubano. Como eles lidam com esse tema?
ML – Depende de até que ponto seus pais ou seus avós exerceram influência neles. Em casos excepcionais, houve uma continuidade, mas, no geral, os filhos dos que se foram de Cuba – vamos chamá-los de batistianos – têm posições abertas porque estão rodeados de outros ambientes, que não são a casa e o bairro, mas a escola. A escola é um ambiente de integração social mais aberto e, portanto, desde que estão neste país, estão sendo educados em um sistema diferente daqueles que seus pais pretendiam. Seria ótimo se a mentalidade dos pais mudasse também, mas não acredito que seja fácil. As novas gerações são diferentes. Há uma geração de filhos e netos que não têm preconceito. Cuba é, para eles, a nação onde nasceram seus ancestrais.
 
CM – Como o senhor avalia as mudanças políticas e econômicas realizadas em Cuba desde o último Congresso do Partido Comunista?
ML – São mudanças naturais, fruto de desenvolvimento e de abertura. Cuba sempre esteve vulnerável à política externa dos Estados Unidos, que teve apoio de todos os países da América Latina, de seus governos. Podem-se fazer mudanças em Cuba. A maior expressão é a entrada e saída livre. Antes havia o problema de quem morava em Cuba não podia sair, não podia viajar. No mundo globalizado em que vivemos, ninguém é cidadão de um país, mas do mundo, uma aldeia globalizada. Por que eu tenho que, para ser brasileiro, viver no Brasil? Posso ser brasileiro, tão patriota quanto o mais brasileiro, e morar na Lua algum dia. Agora, são os EUA que precisam tomar medidas, eliminando as leis anticubanos. O ideal seria o estabelecimento das relações, o que não significa que precisa ser um casamento. Não sei por que poderia dar errado, já que Cuba não é um país terrorista, como diz a lei norte-americana. Para isso, estamos trabalhando. Todos os dias vamos às ruas para tentar convencer um norte-americano. Antes de normalizar a situação, os Estados Unidos precisam permitir a entrada livre dos norte-americanos em Cuba, para que vejam que ali não há qualquer perigo. A proibição das viagens a Cuba é para que as pessoas não saibam a verdade. Os norte-americanos não podem ir a Cuba para ver como funciona o comunismo. Se te mandam ao inferno – é claro, se te deixarem sair dele depois –, você vai e vê como é. Muito calor, mas bom, saio. Agora, não se pode ir ao inferno. E quem proíbe? O diabo? Não, o deus daqui, o deus do dinheiro.

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