terça-feira, 16 de abril de 2013

Guantânamo: A vergonha ainda persiste

 
 
Há quase dois meses, dezenas de internos da prisão militar de Guantânamo iniciaram uma greve de fome, em protesto pelo confisco de cartas, fotografias e correio legal, bem como pela profanação de exemplares do Alcorão, durante revista em suas celas. Além das motivações originais, há indícios de que a manifestação adquiriu dimensões de rebelião generalizada na prisão, como sugere a afirmação do prisioneiro saudita Shaker Aamer, tornada pública por seu advogado, de que 130 dos 166 internos aderiram ao jejum. As autoridades informaram que somente 39 pessoas participam do protesto.
 
Além dos números, a greve de fome em Guantânamo é indicativa do grau de desesperança a que têm sido levados os prisioneiros, e obriga a lembrar que esta constitui una negação rotunda da legalidade. Este enclave, ocupado pelos Estados Unidos há mais de um século, como parte do acordo colonialista e anacrônico — que é um dos múltiplos focos de tensão entre os governos estadunidense e cubano — adquiriu, na década passada, projeção e fama internacional como um dos exemplos – junto com os cárceres Abu Ghraib e Bagram e os voos secretos da CIA para transferir suspeitos de terrorismo – da rede criminosa armada pela Casa Branca, em muitos países, para sequestrar, desaparecer, torturar e assassinar supostos integrantes da Al Qaeda e de outras organizações próximas ao integrismo islâmico, bem como pessoas do mundo árabe e muçulmano que, segundo Washington, pudessem representar uma ameaça de qualquer índole. O pior é que os cativos nessa prisão não só têm que enfrentar um tratamento extremamente cruel, como também padecem a negação de praticamente todos seus direitos humanos e a redução à inexistência jurídica: não foram considerados supostos delinquentes que deviam ser representados a uma autoridade judicial, porém também não foram reconhecidos como integrantes de uma força militar inimiga, o que lhes teria garantido o estatuto e os direitos reservados aos prisioneiros de guerra.
 
A persistente condenação internacional a essas e outras ações realizadas pelo governo de Washington, desde o tempo de George W. Bush, foi aproveitada por Barack Obama, durante sua primeira campanha pela presidência dos Estados Unidos, e a promessa do fechamento de Guantânamo no curso do primeiro ano da nova administração foi um dos pontos centrais da agenda de transformação do atual presidente. No entanto, uma vez na Casa Branca e antes de se cumprir o prazo estabelecido, Obama rendeu-se às pressões e ao poder fático do complexo industrial-militar da nação vizinha — que sobreviveu à derrota dos republicanos, na eleição presidencial de 2008 — e o fechamento da prisão sediada no país caribenho foi adiado indefinidamente.
 
Mais de uma década depois de sua habilitação como centro de detenção de supostos terroristas, a prisão de Guantânamo é o sinal mais inequívoco do fracasso das aspirações e promessas de mudança do atual presidente estadunidense: de fato, se Obama foi incapaz de cumprir com uma medida de óbvia necessidade, que gera amplo consenso entre a opinião pública, dentro e fora de seu país, dificilmente poderá concretizar, no quadriênio que lhe resta à frente da Casa Branca, o restante das transformações que seu país requer com urgência. A comunidade internacional, por seu lado, participou durante todo este tempo da degradação moral de Washington, na medida em que tolerou as práticas abomináveis e os tratamentos desumanos que acontecem em Guantânamo, e contribuiu para que esse campo de concentração represente, atualmente, um dos maiores ícones de injustiça, ilegalidade e vergonha para a humanidade.

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