quinta-feira, 25 de abril de 2013

Mais de metade dos prisioneiros de Guantânamo está em greve de fome

Há 166 homens ainda em Guantânamo.
 
Sofia Lorena, via Publico de Portugal
“Posso ter de morrer. Espero que não, quero voltar a ver a minha família”, diz Shaker Aamer, há 11 anos na prisão da baía de Cuba.
 
Podem ser 84 ou 77: são muitos e mais do que se pensava os prisioneiros de Guantânamo em greve de fome. Alguns iniciaram o protesto contra a detenção indefinida e as condições do centro a 6 de fevereiro.
 
Segundo disse ao jornal The Miami Herald o tenente-coronel Samuel House, 77 dos 166 prisioneiros que permanecem na prisão norte-americana estão em greve de fome. Destes, 17 estão a ser alimentados à força através de tubos inseridos nos seus narizes, o que alguns dos advogados consideram tortura.
 
De acordo com responsáveis militares dos Estados Unidos citados pelo diário britânico Guardian são já 84 os grevistas, mais de metade dos prisioneiros. O último balanço oficial dizia que 52 prisioneiros estavam em greve de fome.
 
Um dos que se recusam a comer é Shaker Aamer, há 11 anos na prisão da baía de Cuba e há seis à espera de ser libertado, depois de ter sido declarado que não constituía uma ameaça.
 
“Agora, tenho nódoas negras em todo o meu corpo. Penso que faço marcas mais facilmente, há 60 dias em greve de fome, com as minhas defesas físicas a quebrarem”, escreve Aamer num texto publicado no Independent.
 
“A greve de fome de Guantânamo é, no fim de contas, um protesto contra a Grande Mentira de George Orwell”, escreve. “A Grande Mentira aqui é a ideia de que manter 166 prisioneiros em Cuba de alguma forma torna a América mais protegida do extremismo. Numa espécie de filme épico de Hollywood, a América é o bom polícia do mundo, que põe as algemas nos maus. Estes 166 malvados poderiam, aparentemente, derrubar uma nação poderosa, caso não estivessem trancados 24 horas.”
 
Um movimento sem precedentes
Guantânamo foi o centro de detenção escolhido para os suspeitos de terrorismo depois dos atentados do 11 de Setembro, a solução da Administração de George W. Bush para “os piores dos piores”, na expressão de Donald Rumsfeld, então secretário da Defesa. Mas como recorda Aamer, dos quase 800 homens que por ali passaram desde janeiro de 2002, “613 prisioneiros foram enviados para casa e os EUA consideraram não perigosos 86 dos que ainda estão neste lugar esquecido. Ao todo, isso são 699 pessoas, mais de 90% do total.”
 
Esta não é a primeira greve de fome de Guantânamo, mas está a ser levada mais longe por parte dos prisioneiros. No início do mês, alguns já tinham perdido 20 quilos. David Remes, advogado de 15 presos, 13 deles em greve de fome, dizia há duas semanas que este movimento de protesto “não tem precedentes, tanto pela amplitude como pela duração e determinação”.
 
Os prisioneiros deixaram de comer quando se soube que alguns guardas tinham voltado a desrespeitar o Corão. A 6 de fevereiro, durante uma busca, os guardas confiscaram objetos dos presos e em algumas celas o Corão foi examinado de uma forma que os presos consideraram ofensiva.
 
O protesto evoluiu e, para alguns, parece ter-se tornado num caminho sem retorno. “[Agora] a greve de fome é por eles me terem dito há seis anos que eu podia ser libertado e voltar para a minha mulher e os meus quatro filhos, mas aqui estou eu, ainda em Guantânamo”, escreve Aamer. “É sobre o homem no meu bloco de celas que está numa cadeira de rodas, ou estaria, se eles não lha tivessem tirado em protesto pela greve de fome.”
“Posso ter de morrer”, escreve Aamer. “Espero que não, quero voltar a ver a minha mulher e a minha família.”

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