sexta-feira, 24 de maio de 2013

Carta da Bahia à XXI Convenção Nacional de Solidariedade a Cuba

Do blog Sou Cuba

Foi realizada no último sábado, 18 de maio, na Escola Politécnica da UFBA, em Salvador, a 2ª Convenção Baiana de Solidariedade à Cuba com a presença do embaixador Zamora,  representantes de diversas entidades do movimento social baiano, da militância internacionalista e dos parlamentares Deputado Alvaro Gomes e Vereador Everaldo Augusto. Abaixo o texto da Carta aprovada pela plenária e dirigida à XXI Convenção Nacional de Solidariedade a Cuba, a se realizar em Foz do Iguaçu nos dias 13, 14 e 15 de junho.


CARTA DA BAHIA À 21ª CONVENÇÃO NACIONAL DE SOLIDARIEDADE A CUBA

"A vida sem idéias de nada vale. Não há felicidade maior que a de lutar por elas”. 
(Fidel Castro)


A batalha de idéias é, segundo Fidel Castro, a principal trincheira de luta do revolucionário contemporâneo. Não se trata de uma mudança do lugar da batalha. O campo da luta pela paz, pela justiça e pelo socialismo continua o mesmo de sempre: as ruas, os bairros, as fábricas, as escolas, os campos e cada quadrante do planeta. O que mudou, e isto Fidel constatou com sua particular perspicácia, é que o terreno das idéias é o mais propício para que as forças revolucionárias façam valer suas superioridades moral e científica sobre o imperialismo e o capitalismo.

Inspirados na lição do líder cubano, a América Latina, nos últimos 15 anos, se levantou e tem conquistado seu verdadeiro lugar na História. Nossos povos derrotaram o projeto imperialista da ALCA, reduziram o papel político da OEA a pouco mais que nada e construíram importantes instrumentos de integração a exemplo da CELAC, UNASUL e ALBA. Conscientes do papel crucial da batalha de idéias e da manipulação da informação pela grande mídia, muitos países latino-americanos têm instituído mecanismos democráticos de controle social da mídia e criado espaços alternativos de comunicação, como a TELESUR e canais televisivos nacionais de caráter público ou social.   

A Associação José Martí da Bahia, o CEBRAPAZ e os meios progressistas baianos sabem que, ao defender Cuba e sua Revolução, cumprem uma das mais importantes tarefas na atual batalha de idéias. Para os reacionários, Cuba tem significado uma terrível pedra no sapato, uma vez que é a demonstração real da superioridade moral do socialismo. Embora bloqueada economicamente por mais de 50 anos e sujeita ao terrorismo made in Miami, a pequena ilha resiste corajosamente ao cerco brutal dos Estados Unidos. Enfrentou as maiores adversidades após o fim da União Soviética sem fechar um único hospital ou escola e sem abrir mão da solidariedade internacional. Menor taxa de mortalidade infantil da América Latina, menor taxa de violência urbana, analfabetismo zero, todas as crianças na escola, primeiro país do continente americano a cumprir as metas do milênio segundo a ONU, melhor país da América Latina e 30º do mundo para ser mãe segundo a fundação inglesa Save the Children.

Firme na batalha de idéias, o movimento de solidariedade a Cuba na Bahia desmascarou, sem tergiversar, a blogueira Yoani Sanchez que junto com os apoiadores do imperialismo elegeu a Bahia para iniciar um périplo internacional de difamação da Revolução Cubana. Em alto e bom som dissemos não às mentiras da mercenária a soldo do imperialismo e da grande mídia internacional, que tem lado nessa disputa e busca, com uma campanha difamatória sem precedentes, reproduzir inverdades sobre a realidade do país e invalidar o esforço do povo cubano em construir a sua experiência revolucionária.

Cuba, desde a Revolução, tem sido um símbolo para todos nós que acreditamos na paz, na liberdade, no socialismo e sobretudo na força das idéias justas. Cuba é nossa trincheira na batalha mundial de idéias. Cuba é a prova viva de que o homem pode, se quiser, coletivamente, construir sua própria História baseada em valores como humanismo e solidariedade.

Quando, nos anos 60/70, a maior parte dos países latino-americanos, entre eles o Brasil, eram governados por cruéis ditaduras militares, recebíamos do povo cubano todo apoio moral e material para nossas lutas e era Cuba o porto seguro de muitos brasileiros exilados por combaterem o regime ditatorial.

Também nos anos 70, quando o regime sul-africano do apartheid, buscando sobrevida, invadiu Angola para derrotar o MPLA - a vanguarda do povo angolano -, foi Cuba que se postou ao lado de Angola. Mais de 50.000 combatentes cubanos desembarcaram em solo africano para defender a África negra. Juntos, o MPLA (Movimento pela Libertação de Angola) e exército cubano expulsaram o invasor racista cujo exército era não apenas o mais bem armado da África, mas tinha ainda o apoio dos Estados Unidos. Cabe lembrar também que em Cuba está asilada Asata Shakur, militante negra norte-americana, que integrou o Partido Panteras Negras, perseguida pelo FBI por sua luta em favor da igualdade racial.

Não faltam razões para manifestarmos aqui na Bahia, estado brasileiro em que a herança africana é mais presente, nossa irrestrita solidariedade ao povo cubano e a sua Revolução, com o que estamos a defender o direito de cada povo escolher seu próprio destino. Reafirmamos neste momento nossa luta contra o criminoso bloqueio econômico, pelo imediato fechamento da base estadunidense de Guantánamo – palco de inúmeras violações aos direitos humanos – e pela libertação dos patriotas ainda presos nos Estados Unidos por lutar contra o terrorismo. Queremos também manifestar nosso total apoio ao programa de modernização do sistema econômico cubano que identificamos como um instrumento devidamente sintonizado com a construção do socialismo.

Por fim, felicitamos René Gonzalez pelo retorno à liberdade e a sua pátria de onde lutará junto com todo o movimento internacional de solidariedade pela libertação de Gerardo, Antonio, Fernando e Ramon.  

Viva Cuba socialista!

Salvador, 18 de maio de 2013;

2ª Convenção Estadual de Solidariedade a Cuba.
Postado por AF Sturt Silva 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Abaixo-Assinado pela Libertação dos 5

Free The Cuban Five Antiterrorist Heroes | causes.com

Why is this campaign important to you?

Entrevista com René Gonzalez em Cuba

terça-feira, 21 de maio de 2013

Não fazemos propaganda mas hoje abrimos uma exceção

Médicos cubanos no Brasil?


Frei Betto na Adital

O Conselho Federal de Medicina (CFM) está indignado frente ao anúncio da presidente Dilma de que o governo trará 6.000 médicos de Cuba, e outros tantos de Portugal e Espanha, para atuarem em municípios carentes de profissionais da saúde. Por que aqui a grita se restringe aos médicos cubanos? Detalhe: 40% dos médicos do Reino Unido são estrangeiros.

Também em Portugal e Espanha há, como em qualquer país, médicos de nível técnico sofrível. A Espanha dispõe do 7º melhor sistema de saúde do mundo, e Portugal, o 12º. Em terras lusitanas, 10% dos médicos são estrangeiros, inclusive cubanos, importados desde 2009. Submetidos a exames, a maioria obteve aprovação, o que levou o governo português a renovar a parceria em 2012.

Ninguém é contra o CFM submeter médicos cubanos a exames (Revalida), como deve ocorrer com os brasileiros, muitos formados por faculdades particulares que funcionam como verdadeiras máquinas de caça-níqueis.

O CFM reclama da suposta validação automática dos diplomas dos médicos cubanos. Em nenhum momento isso foi defendido pelo governo. O ministro Padilha, da Saúde, deixou claro que pretende seguir critérios de qualidade e responsabilidade profissionais.

A opinião do CFM importa menos que a dos habitantes do interior e das periferias de nosso país que tanto necessitam de cuidados médicos. Estudos do próprio CFM, em parceria com o Conselho Regional de Medicina de São Paulo, sobre a "demografia médica no Brasil”, demonstram que, em 2011, o Brasil dispunha de 1,8 médico para cada 1.000 habitantes.

Temos de esperar até 2021 para que o índice chegue a 2,5/1.000. Segundo projeções, só em 2050 teremos 4,3/1.000. Hoje, Cuba dispõe de 6,4 médicos por cada 1.000 habitantes. Em 2005, a Argentina contava com mais de 3/1.000, índice que o Brasil só alcançará em 2031.

Dos 372 mil médicos registrados no Brasil em 2011, 209 mil se concentravam nas regiões Sul e Sudeste, e pouco mais de 15 mil na região Norte.

O governo federal se empenha em melhorar essa distribuição de profissionais da saúde através do Provab (Programa de Valorização do Profissional de Atenção Básica), oferecendo salário inicial de R$ 8 mil e pontos de progressão na carreira, para incentivá-los a prestar serviços de atenção primária à população de 1.407 municípios brasileiros. Mais de 4 mil médicos já aderiram.

O senador Cristovam Buarque propõe que médicos formados em universidades públicas, pagas com o seu, o meu, o nosso dinheiro, trabalhem dois anos em áreas carentes para que seus registros profissionais sejam reconhecidos.

Se a medicina cubana é de má qualidade, como se explica a saúde daquela população apresentar, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), índices bem melhores que os do Brasil e comparáveis aos dos EUA?

O Brasil, antes de reclamar de medidas que beneficiam a população mais pobre, deveria se olhar no espelho. No ranking da OMS (dados de 2011), o melhor sistema de saúde do mundo é o da França. Os EUA ocupam o 37º lugar. Cuba, o 39º. O Brasil, o 125º lugar!

Se não chegam médicos cubanos, o que dizer à população desassistida de nossas periferias e do interior? Que suporte as dores? Que morra de enfermidades facilmente tratáveis? Que peça a Deus o milagre da cura?

Cuba, especialista em medicina preventiva, exporta médicos para 70 países. Graças a essa solidariedade, a população do Haiti teve amenizado o sofrimento causado pelo terremoto de 2010. Enquanto o Brasil enviou tropas, Cuba remeteu médicos treinados para atuar em condições precárias e situações de emergência.

Médico cubano não virá para o Brasil para emitir laudos de ressonância magnética ou atuar em medicina nuclear. Virá tratar de verminose e malária, diarreia e desidratação, reduzindo as mortalidades infantil e materna, aplicando vacinas, ensinando medidas preventivas, como cuidados de higiene.

O prestigioso New England Journal of Medicine, na edição de 24 de janeiro deste ano, elogiou a medicina cubana, que alcança as maiores taxas de vacinação do mundo, "porque o sistema não foi projetado para a escolha do consumidor ou iniciativas individuais”. Em outras palavras, não é o mercado que manda, é o direito do cidadão.

Por que o CFM nunca reclamou do excelente serviço prestado no Brasil pela Pastoral da Criança, embora ela disponha de poucos recursos e improvise a formação de mães que atendem à infância? A resposta é simples: é bom para uma medicina cada vez mais mercantilizada, voltada mais ao lucro que à saúde, contar com o trabalho altruísta da Pastoral da Criança. O temor é encarar a competência de médicos estrangeiros.

Quem dera que, um dia, o Brasil possa expor em suas cidades este outdoor que vi nas ruas de Havana: "A cada ano, 80 mil crianças do mundo morrem de doenças facilmente tratáveis. Nenhuma delas é cubana”.

 Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais.

Convocatória para o VII Encontro Continental de Solidariedade a Cuba – Caracas/Julho de 2013


O Movimento de Amizade e Solidariedade Mútua Venezuela-Cuba, o Partido Socialista Unido da Venezuela, as forças políticas articuladas no Grande Polo Patriótico, movimentos e organizações sociais, convocam ao VII Encontro Continental de Solidariedade a Cuba, inspirada pelo pensamento vivo do Comandante Hugo Chávez, quando disse: "Venezuela e Cuba aprenderam a sonhar juntas", que será realizada em Caracas, de 24 a 27 de julho de 2013.

Conforme acordado na plenária da Cidade do México, em 2011, se organiza este VII Encontro como reconhecimento da contribuição, a solidariedade e a integração continental promovido pela Revolução Bolivariana, sob a liderança e orientação do Supremo Comandante Hugo Chávez Frias, que agora, com seu compromisso com a justiça, inspira os povos do mundo a intensificar a luta para colocar aos seus pés as correntes rompidas do imperialismo e os sentimentos de ódio e vingança que violam a liberdade.

Este sétimo encontro também ocorre em um momento importante da integração continental expressa no exercício de Cuba da presidência da CELAC e sua ativa participação nos novos cenários de união dos povos construídos sob a liderança dos comandantes Hugo Chávez, Fidel Castro e Raul Castro, que fortalecem novas relações sociais, políticas e econômicas a favor da justiça, da paz e da complementaridade.

Nos encontrarmos em Caracas será uma nova oportunidade para fortalecer nossas ações de solidariedade e reconhecimento à resistência da Revolução Cubana contra as políticas do bloqueio e agressão dos Estados Unidos, a luta pela libertação dos Cinco Heróis prisioneiros do império, a luta contra o terrorismo e contra a agressão midiática que os processos revolucionários e progressistas em andamento sofrem em diferentes latitudes.

Particularmente a Venezuela nos dá a oportunidade de conhecer os benefícios da solidariedade mútua no trabalho social impulsionado pela Revolução Bolivariana, com o apoio do povo e da Revolução cubana, tanto na Venezuela como em Cuba, compartilhando o que precisam para alcançar a maior felicidade dos povos, inspirada no Libertador Simon Bolívar, cumprindo assim o pensamento Martiniano que expressão "a melhor maneira de dizer é fazer."

A Solidariedade Continental a Cuba hoje se intensifica para fortalecer e acompanhar os povos de Bolivar nas ações para assegurar a irreversibilidade da Revolução Bolivariana, como forma de continuar lutando contra as políticas hegemônicas e a intervenção imperialista contra os povos que se destinam a serem livres e independentes, para fazer avançar a integração continental que fortalece os processos progressistas e revolucionários para a construção de sociedades onde imperem a justiça, a igualdade, a inclusão social, a fraternidade e a complementaridade.

A Venezuela bolivariana imbuída no exemplo e no legado do Comandante invicto Hugo Chávez Frias aguarda-os com hospitalidade que a caracteriza, para que entre todos e todas se faça do VII Encontro Continental uma nova vitória da solidariedade, da integração continental e do internacionalismo, rumo ao III Encontro Mundial de Solidariedade a Cuba, a realizar-se em Havana, em outubro de 2014.

COMISSÃO ORGANIZADORA
(tradução Blog Solidários)

sábado, 18 de maio de 2013

Cuba aposta no turismo bom e barato

Praia de Varadero: um dos principais destinos dos brasileiros.
 
Jaime Sautchuk
 
A República de Cuba quer ultrapassar este ano a marca do 3 milhões de turistas estrangeiros que visitarão o país, perto de 10% a mais do que em 2012. Para isto, apresenta um segredo: turismo barato e de boa qualidade.
 
Os cubanos acreditam que não existe contradição entre preços mais acessíveis que a média mundial e qualidade superior. São fatores que, para eles, devem servir para todos os tipos de turistas, desde os que estão na simples busca de sol e praia, até os que vão ao país para eventos de negócios, científicos ou culturais.
 
Há, entre todas as modalidades, os turistas mais exigentes, acostumados à qualidade cinco estrelas, ou os que poderiam ser classificados como ideológicos, que buscam sítios históricos acima de tudo. Para todos, porém, a capacitação da mão de obra joga papel fundamental na visão dos cubanos.
 
Débora Morales, de 28 anos, trabalha como garçonete num restaurante de um hotel da rede espanhola Meliá, em Varadero, um dos principais balneários cubanos. Ela tem curso superior em Turismo e especialização em Gastronomia, com nível de pós-graduação. E é apenas garçonete.
 
Como ela, todo cubano que vai trabalhar em bares, restaurantes, hotéis ou pousadas passa por rigorosa formação. Colocar um dedo na parte interna de um copo ou taça, mesmo após usados, é algo que nem passa pela cabeça de um profissional da Ilha, para citar um exemplo bem trivial.
 
Por mais simples que seja o restaurante, há talheres e recipientes de primeira qualidade, sempre arrumados com primor e fineza. E, em meio a tantos cuidados, nunca falta um sorriso nos lábios dos atendentes, desde os mais jovens, em início de carreira, até os com idade mais avançada, de cabelos brancos. É parte do serviço.
 
A maioria dos 2,8 milhões de turistas que visitaram Cuba no ano passado tinha o Canadá como país de origem. Em segundo lugar vem o México. Isso não quer dizer, no entanto, que esses viajantes sejam todos canadenses ou mexicanos.
 
Boa parte deles vem, em verdade, dos Estados Unidos, que ainda mantêm o bloqueio a Cuba, mas seus cidadãos visitam a Ilha em grande número, via México e Canadá, principalmente. O bloqueio de Washington a Cuba, aliás, suscita uma gama de assuntos correlatos. Como é sabido, o bloqueio só é mantido por sucessivos governos, inclusive o de Barack Obama, por causa de questões políticas.
 
O estado na Flórida, onde está concentrada grande parte da comunidade de endinheirados exilados cubanos, tem peso decisivo nas eleições presidenciais. No colégio eleitoral que elege o presidente os delegados dessa unidade da federação acabam sendo fiéis da balança. Por isso, ninguém quer desagradar os eleitores de origem cubana, que defendem o bloqueio como vindita, para usar o linguajar mafioso.
 
O fato é que o bloqueio acaba afetando bastante Cuba. A começar pelo número de turistas dos EUA que visitam a Ilha, que poderia ser muito maior, até pela proximidade. Vale lembrar que a distância de Havana para Miami é de apenas 180 quilômetros.
 
Mas há outros aspectos. Um exemplo são os cabos de telecomunicações norte-americanos, que passam sob o mar nas costas cubanas, mas é negado aos cubanos o acesso a eles. Com isso, a internet e a telefonia celular em Cuba são acessadas via satélite, o que encarece e dificulta esses serviços.
 
Isso não impede, contudo, que redes internacionais de hotéis e companhias de transportes aéreos se interessem por aquele mercado. A maior parte dos brasileiros que vão a Cuba, por exemplo, usa voos da Copa, que é apresentada como empresa panamenha, mas que, na realidade, é subsidiária da American Airlines.
 
A qualidade da rede hoteleira cubana também ajuda a atrair o turista. Comparando com o Brasil, podemos citar como exemplo o complexo hoteleiro da Costa do Sauipe, próxima a Salvador, na Bahia. Em Cuba, há vários complexos desse tipo, boa parte com hotéis de redes espanholas. É top mundial.
 
O governo cede o terreno e garante a infraestrutura urbanística. As empresas, por seu lado, constroem e administram os hotéis. E o lucro é rachado meio a meio.

Médicos cubanos, bem-vindos ao Brasil

Hermann Hoffman, via Adital
 
A dor da indignação supera a dor física naqueles que necessitam dos serviços médicos no Sistema Único de Saúde (SUS). Muitas vezes por um simples problema, outras, por estar ante a situação mais difícil de ser enfrentada: a morte aproximando-se pela falta de assistência médica. Os pacientes, sem o atendimento adequado, são entregues a própria sorte, restando apenas a esperança de encontrar algum alívio mediante o auxílio dado por enfermeiros, técnicos e agentes comunitários.
 
A pergunta que a sociedade faz frente tal situação é: “Cadê o médico?” A resposta nem sempre é tão fácil e pequena como a pergunta. O médico não está porque sempre chega atrasado à unidade de saúde, pois tem três locais de trabalho (quase 30% dos médicos brasileiros possuem quatro ou mais empregos e o tempo fica curto, é necessário inventar um dia de 48 horas), ou pior, porque simplesmente não existem médicos que ofereçam cobertura assistencial nas áreas de difícil provimento.
 
Na busca de uma solução, aqueles quem logicamente deveriam ser aliados a esta luta de alta prioridade no Brasil, são os principais que impõem freios e fazem a oposição aos propósitos do governo federal.
 
A batalha já é épica. Por um lado o Conselho Federal de Medicina, defendendo a proposta desumana e irresponsável, que o Brasil não necessita de mais médicos e assim criando obstáculos para registrar novos profissionais formados no exterior. Por outro, o governo federal, que há poucos dias anunciou que irá contratar mais de 6 mil médicos cubanos para trabalharem no Brasil, como também a disposição para aumentar o número das escolas de medicina no País e humanizar a revalidação dos diplomas de milhares de brasileiros que estudam em países como Argentina, Bolívia e Cuba.
 
Mais cédulas verdes que células vivas
Ainda não completaram seis meses da publicação de dois estudos do CFM em parceria com o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp). As pesquisas se tratam da “demografia médica no Brasil”, e revelam situações absurdas que conspiram contra o próprio colégio médico, quando foi ineficiente para regular a distribuição médica no Brasil e agora culpa o Governo. Somando-se a tudo, o CFM também tem promovido atos públicos, com parlamentares e profissionais da saúde, contra a entrada dos médicos de outros países.
 
A recente nota do CFM contra a entrada de médicos estrangeiros, afirma que as entidades médicas envidarão todos os esforços possíveis e necessários, inclusive as medidas jurídicas cabíveis para evitar que o Governo concretize o convênio para a chegada dos médicos cubanos no Brasil.
 
O jogo do colégio médico é de marcado interesse e agressividade, onde valem mais as cédulas verdes (dólares) que as células vivas (vida).
 
O tiro saiu pela culatra
Segundo estudos, em 2011 o Brasil tinha menos de 2 médicos para cada mil habitantes, somente em 2021 chegará próximo a 2,5. Em 2050, baseado em projeções, teremos 4,3 médicos por 1.000. Ora, diante de uma realidade como esta, devemos esperar quase 8 anos para ter menos de 3 médicos por 1.000?
 
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-americana da Saúde (Opas), esta última que apoia a entrada no Brasil de médicos cubanos, nossa vizinha, a Argentina, em 2005, possui mais de 3 médicos por 1.000 habitantes, quantidade que o Brasil somente alcançará em 2031 neste ritmo. Já Cuba, a título de comparação, ainda em 2008 ostentava quase 7 médicos por 1.000 habitantes.
 
É confiando na legitimidade dos números apresentados pelo CFM, “Demografia Médica no Brasil”, que não vem a ser uma crença, o que os setores da gestão governamental defendem: aumentando do número total de médicos em atividade e saúde irá melhorar.
 
Distorção na distribuição
Quando já é certo que necessitamos de mais médicos, é igualmente correto que a distribuição geográfica deve ser justa. Em 2011, dos quase 372 mil médicos registrados no Brasil, aproximadamente 209 mil estavam concentrados na Região Sudeste, e pouco mais de 15 mil na Região Norte, o cenário fiel da péssima distribuição no território nacional.
 
Por parte do governo federal estão sendo implementadas iniciativas que visam melhorar tal situação distributiva. Uma delas é o Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), lançado recentemente pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e que promoverá a atuação de mais de 4 mil médicos nos serviços de Atenção Primária, beneficiando a população de 1.407 municípios do Brasil.
 
Outra iniciativa, que está sendo criminalizada pelo CFM, é a ótima proposta do senador Cristóvão Buarque. Que os médicos brasileiros formados nas universidades públicas brasileiras trabalhem dois anos em pequenos municípios carentes para que seus registros médicos sejam reconhecidos. Seria uma forma de melhorar o atendimento onde muitos médicos não querem se fixar.
 
E agora?
Reduzir o caos da saúde pública no Brasil somente a desigual distribuição dos médicos e a questão do precário financiamento (sabemos que não é possível fazer mais com menos) é tornar o problema superficial, no afã de converter-se em vítima.
 
Uma coisa é certa! É necessário urgência para a resolução deste flagelo, que seja num ambiente tranquilo, sem que os burocratas do CFM convertam a tal situação numa arena de mais agressão, típico deles.
 
Clamamos para que o CFM baixe a guarda, assuma sua posição e respeite a decisão do governo federal de melhorar a saúde dos brasileiros aumentando o número total de médicos a partir da cooperação internacional.
 
Confiamos na vontade do governo de nosso país e em um amanhã com saúde para todos, e dizemos em voz alta: bem-vindos sejam os médicos cubanos e de todas as partes, desde que ajudem a melhorar a saúde dos brasileiros.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Salim Lamrani: Cuba, a ilha da saúde

Sede da Escola Latino-Americana de Medicina em Havana.
Salim Lamrani, via Opera Mundi
 
Desde o triunfo da Revolução de 1959, o desenvolvimento da medicina tem sido a grande prioridade do governo cubano, o que transformou a Ilha em uma referência mundial neste campo. Atualmente, Cuba é o país que concentra o maior número de médicos por habitante.
 
Em 2012, Cuba formou mais 11 mil novos médicos, os quais completaram sua formação de seis anos em faculdades de medicina reconhecidas pela excelência no ensino. Trata-se da maior promoção médica da história do país, que tornou o desenvolvimento da medicina e o bem-estar social as prioridades nacionais. Entre esses médicos recém-graduados, 5.315 são cubanos e 5.694 vêm de 59 países da América Latina, África, Ásia e até mesmo dos Estados Unidos, com maioria de bolivianos (2.400), nicaraguenses (429), peruanos (453), equatorianos (308), colombianos (175) e guatemaltecos (170). Em um ano, Cuba formou quase o dobro de médicos do total que dispunha em 1959.
 
Após o triunfo da Revolução, Cuba contava somente com 6.286 médicos. Dentre eles, 3 mil decidiram deixar o país para ir para os Estados Unidos, atraídos pelas oportunidades profissionais que Washington oferecia. Em nome da guerra política e ideológica que se opunha ao novo governo de Fidel Castro, o governo Eisenhower decidiu esvaziar a nação de seu capital humano, até o ponto de criar uma grave crise sanitária.
 
Como resposta, Cuba se comprometeu a investir de forma maciça na medicina. Universalizou o acesso ao ensino superior e estabeleceu a educação gratuita para todas as especialidades. Assim, existem hoje 24 faculdades de medicina (contra apenas uma em 1959) em 13 das 15 províncias cubanas, e o país dispõe de mais de 43 mil professores de medicina. Desde 1959, se formaram cerca de 109 mil médicos em Cuba. Com uma relação de um médico para 148 habitantes (67,2 médicos para 10 mil habitantes ou 78.622, no total), segundo a Organização Mundial da Saúde, Cuba é a nação mais bem dotada neste setor. O país dispõe de 161 hospitais e 452 clínicas.
 
No ano universitário 2011-2012, o número total de graduados em Ciências Médicas, que inclui 21 perfis profissionais (médicos, dentistas, enfermeiros, psicólogos, tecnologia da saúde etc.), sobe para 32.171, entre cubanos e estrangeiros.
 
A Elam
Além dos cursos disponíveis nas 24 faculdades de medicina do país, Cuba forma estudantes estrangeiros na Elam (Escola Latino-Americana de Medicina de Havana). Em 1998, depois que o furacão Mitch atingiu a América Central e o Caribe, Fidel Castro decidiu criar a Elam – inaugurada em 15 de novembro de 1999 – com o intuito de formar em Cuba os futuros médicos do mundo subdesenvolvido.
 
“Formar médicos prontos para ir onde eles são mais necessários e permanecer quanto tempo for necessário, esta é a razão de ser de nossa escola desde sua fundação”, explica a doutora Miladys Castilla, vice-reitora da Elam. Atualmente, 24 mil estudantes de 116 países da América Latina, África, Ásia, Oceania e Estados Unidos (500 por turma) cursam uma faculdade de medicina gratuita em Cuba. Entre a primeira turma de 2005 e 2010, 8.594 jovens doutores saíram da Elam. As formaturas de 2011 e 2012 foram excepcionais com cerca de 8 mil graduados. No total, cerca de 15 mil médicos se formaram na Elam em 25 especialidades distintas.
 
A Organização Mundial da Saúde prestou uma homenagem ao trabalho da Elam: “A Escola Latino-Americana de Medicina acolhe jovens entusiasmados dos países em desenvolvimento, que retornam para casa como médicos formados. É uma questão de promover a equidade sanitária […]. A Elam […] assumiu a premissa da “responsabilidade social”. A Organização Mundial da Saúde define a responsabilidade social das faculdades de medicina como o dever de conduzir suas atividades de formação, investigação e serviços para suprir as necessidades prioritárias de saúde da comunidade, região ou país ao qual devem servir.
 
A finalidade da Elam é formar médicos principalmente para fornecer serviço público em comunidades urbanas e rurais desfavorecidas, por meio da aquisição de competências em atendimento primário integral, que vão desde a promoção da saúde até o tratamento e a reabilitação. Em troca do compromisso não obrigatório de atender regiões carentes, os estudantes recebem bolsa integral e uma pequena remuneração e assim, ao se formar, não têm dívidas com a instituição.
 
No que diz respeito ao processo seletivo, é dada preferência aos candidatos de baixa renda, que de outra forma não poderiam pagar os estudos médicos. “Como resultado, 75% dos estudantes provêm de comunidades que precisam de médicos, incluindo uma ampla variedade de minorias étnicas e povos indígenas.”
 
Os novos médicos trabalham na maioria dos países americanos, incluindo os Estados Unidos, vários países africanos e grande parte do Caribe de língua inglesa.
 
Faculdades como a Elam propõem um desafio no setor da educação médica do mundo todo para que adote um maior compromisso social. Como afirmou Charles Boelen, ex-coordenador do programa de Recursos Humanos para a Saúde da OMS: “A ideia da responsabilidade social merece atenção no mundo todo, inclusive nos círculos médicos tradicionais [...]. O mundo precisa urgentemente de pessoas comprometidas que criem os novos paradigmas da educação médica.”
 
A solidariedade internacional
No âmbito dos programas de colaboração internacional, Cuba também forma, por ano, cerca de 29 mil estudantes estrangeiros em Ciências Médicas, em três especialidades: medicina, enfermagem e tecnologia da saúde, em sete países (Venezuela, Bolívia, Angola, Tanzânia, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e Timor Leste).
 
Desde 1963 e o envio da primeira missão médica humanitária a Argélia, Cuba se comprometeu a curar as populações pobres do planeta, em nome da solidariedade internacional e dos sete princípios da medicina cubana (equidade, generosidade, solidariedade, acessibilidade, universalidade, responsabilidade e justiça).
 
As missões humanitárias cubanas abrangem quatro continentes e têm um caráter único. De fato, nenhuma outra nação do mundo, nem mesmo as mais desenvolvidas, teceram semelhante rede de cooperação humanitária ao redor do planeta.
 
Desde seu lançamento, cerca de 132 mil médicos e outros profissionais da saúde trabalharam voluntariamente em 102 países. No total, os médicos cubanos curaram 85 milhões de pessoas e salvaram 615 mil vidas. Atualmente, 31 mil colaboradores médicos oferecem seus serviços em 69 nações do Terceiro Mundo.
 
Segundo o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), “um dos exemplos mais bem-sucedidos da cooperação cubana com o Terceiro Mundo é o Programa Integral de Saúde para América Central, Caribe e África”.
 
Nos termos da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), Cuba e Venezuela decidiram lançar em julho de 2004 uma ampla campanha humanitária continental com o nome de Operação Milagre. Consiste em operar gratuitamente latino-americanos pobres, vítimas de cataratas e outras doenças oftalmológicas, que não tenham possibilidade de pagar por uma operação que custa entre US$5 mil e US$10 mil. Esta missão humanitária se disseminou por outras regiões (África e Ásia). A Operação Milagre possui 49 centros oftalmológicos em 15 países da América Central e do Caribe. Em 2011, mais de 2 milhões de pessoas de 35 países recuperaram a visão.
 
A medicina de catástrofe
No que se refere à medicina de catástrofe, o Centro para a Política Internacional de Washington, dirigido por Wayne S. Smith, ex-embaixador dos Estados Unidos em Cuba, afirma em um relatório que “não há dúvida quanto à eficiência do sistema cubano. Apenas alguns cubanos perderam a vida nos 16 maiores furacões que atingiram a Ilha na última década e a probabilidade de perder a vida em um furacão nos Estados Unidos é 15 vezes maior do que em Cuba”.
 
O relatório acrescenta que “ao contrário dos Estados Unidos, a medicina de catástrofe em Cuba é parte integrante do currículo médico e a educação da população sobre como agir começa na escola primária […]. Até mesmo as crianças menores participam dos exercícios e aprendem os primeiros socorros e técnicas de sobrevivência, muitas vezes por meio de desenhos animados, e ainda como plantar ervas medicinais e encontrar alimento em caso de desastre natural. O resultado é a assimilação de uma forte cultura de prevenção e de uma preparação sem igual”.
 
Alto IDH
Esse investimento no campo da saúde (10% do orçamento nacional) permitiu que Cuba alcançasse resultados excepcionais. Graças a sua medicina preventiva, a Ilha tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa da América e do Terceiro Mundo – 4,9 por mil (contra 60 por mil em 1959) – inferior à do Canadá e dos Estados Unidos. Da mesma forma, a expectativa de vida dos cubanos – 78,8 anos (contra 60 anos em 1959) – é comparável à das nações mais desenvolvidas.
 
As principais instituições internacionais elogiam esse desenvolvimento humano e social. O Fundo de População das Nações Unidas observa que Cuba “adotou há mais de meio século programas sociais muito avançados, que possibilitaram ao país alcançar indicadores sociais e demográficos comparáveis aos dos países desenvolvidos”. O fundo acrescenta que “Cuba é uma prova de que as restrições das economias em desenvolvimento não são necessariamente um obstáculo intransponível ao progresso da saúde, à mudança demográfica e ao bem-estar”.
 
Cuba continua sendo uma referência mundial no campo da saúde, especialmente para as nações do Terceiro Mundo. Mostra que é possível atingir um alto nível de desenvolvimento social, apesar dos recursos limitados e de um estado de sítio econômico extremamente grave, imposto pelos Estados Unidos desde 1960, que situe o ser humano no centro do projeto de sociedade.
 
Salim Lamrani é doutor em Estudos Ibéricos e Latino-Americanos pela Universidade Paris Sorbonne – Paris IV, professor encarregado de cursos na Universidade Paris Sorbonne – Paris IV e na Universidade Paris-Est Marne-la-Vallée e jornalista, especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos.