sexta-feira, 30 de agosto de 2013

"Bem-vindos, colegas cubanos"

Por Dr. Manoel Dias da Fonsêca Neto em 27/08/2013 às 18:40

Estive em Cuba em 1986, junto com uma centena de brasileiros, para participarmos do I Seminário Internacional em Atención Primaria de La Salud, promovido pela Organização Panamericana de Saúde (OPS), Organização Mundial da Saúde (OMS) e Ministério de Saúde Pública de Cuba. Há quase 30 anos, o Programa de Saúde da Família de Cuba era o destaque deste Seminário Internacional, exemplo de estratégia de incorporação de baixa densidade tecnológica, centrada na pessoa humana, na família e no vínculo permanente de uma equipe com a população de um território, com resultados significativos na melhoria de indicadores de saúde.
Qual era o segredo desta estratégia? Os médicos cubanos aprendiam o que os nossos mestres Dr. Paulo Marcelo, Dr. Elias Salomão, Dr. Oto, Dr. Pessoa, Dr. Haroldo Juaçaba nos ensinavam: ouvir o paciente e sua história familiar, examiná-lo, palpá-lo, auscultá-lo, observando sinais e sintomas, fazer, enfim, uma anamnese e exame clínico detalhado e sistemático. Respeitando o ser humano que nos procura em sofrimento, a sua individualidade, com ética e humanismo. Os médicos cubanos são excelentes médicos de família e vêm aperfeiçoando o seu conhecimento há 30 anos.
Os brasileiros estarão em muito boas mãos aos seus cuidados. Fico muito triste ao presenciar expressões de xenofobia e até etnofobia, arrogância, preconceito e agressividade de presidentes de alguns CRMs, do CFM e AMB contra médicos estrangeiros, especificamente cubanos. Xenofóbico é quem demonstra temor, aversão ou ódio aos estrangeiros.
Será que esta não é uma forma camuflada de expressar aversão ou ódio aos pobres do Brasil? Por que tememos os médicos cubanos? Porque são disciplinados e cumprirão a carga horária contratada? Porque são excelentes médicos de família e cuidarão com carinho, respeito e sabedoria do nosso povo. Porque se fixarão num só emprego e dedicarão todo o seu tempo às famílias sob sua responsabilidade? Espero que nossos colegas médicos cubanos e demais estrangeiros não sejam hostilizados por senhores da “casa grande e senzala” da modernidade e sejam acolhidos com simpatia e respeito, como fui por eles, quando estive em Cuba há 30 anos.
Publicado na Gazeta do Oeste – 29/8/201

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Fidel Castro: A mentira tarifada




O que me move a escrever é o fato de que estão para ocorrer acontecimentos graves. Não transcorrem em nossa época 10 ou 15 anos sem que nossa espécie corra perigos reais de extinção. Nem Obama nem ninguém poderia garantir outra coisa; digo isto por realismo, já que somente a verdade nos poderia oferecer um pouco mais de bem-estar e um sopro de esperança. Em matéria de conhecimentos, chegamos à maior idade. Não temos direito a enganar nem a nos enganarmos.
  Em sua imensa maioria a opinião pública conhece bastante sobre o novo risco que está às suas portas.
  Não se trata simplesmente de que os mísseis de cruzeiro apontem para objetivos militares da Síria, mas que esse valente país árabe, situado no coração de mais de um bilhão de muçulmanos, cujo espírito de luta é proverbial, declarou que resistirá até o último alento a qualquer ataque a seu país.
  Todos sabem que Bashar al Assad não era político. Estudou medicina. Graduou-se em 1988 e se especializou em oftalmologia. Assumiu um papel político com a morte de seu pai, Hafez al Assad, no ano 2000 e depois da morte acidental de um irmão, antes de assumir aquela tarefa.
  Todos os membros da Otan, aliados incondicionais dos Estados Unidos e uns poucos países petroleiros aliados ao império naquela região do Oriente Médio, garantem o abastecimento mundial de combustíveis de origem vegetal, acumulados ao longo de mais de um bilhão de anos. Em contrapartida, a disponibilidade de energia procedente da fusão nuclear de partículas de hidrogênio, tardará pelo menos 60 anos. A acumulação dos gases de efeito estufa continuará, assim, crescendo a elevados ritmos e após colossais investimentos em tecnologias e equipamentos.
  Por outro lado, afirma-se que em 2040, em apenas 27 anos, muitas tarefas que a polícia realiza hoje, como impor multas e outras tarefas, seriam realizadas por robôs. Imaginam os leitores quão difícil será discutir com um robô capaz de fazer milhões de cálculos por minuto? Na realidade era algo inimaginável há alguns anos.
  Há apenas algumas horas, na segunda-feira, 26 de agosto, notícias das agências clássicas, bem conhecidas por seus serviços sofisticados aos Estados Unidos, dedicaram-se a difundir a informação de que Edward Snowden teve que se estabelecer na Rússia porque Cuba tinha cedido às pressões dos Estados Unidos.
  Ignoro se alguém em algum lugar disse algo ou não a Snowden, porque essa não é minha tarefa. Leio o que posso sobre notícias, opiniões e livros que são publicados no mundo. Admiro o que há de valente e justo das declarações de Snowden, com o que, a meu juízo, prestou um serviço ao mundo ao revelar a política repugnantemente desonesta do poderoso império que mente e engana o mundo. Com o que eu não estaria de acordo é que alguém, quaisquer que fossem os seus méritos, possa falar em nome de Cuba.
  A mentira tarifada. Quem a afirma? O diário russo “Kommersant”. O que é esse libelo? Segundo explica a própria agência Reuters, o diário cita fontes próximas ao Departamento de Estado norte-americano: “o motivo disso foi que no último minuto Cuba informou às autoridades que impediram que Snowden tomasse o voo da companhia aérea Aeroflot.
  “Segundo o jornal, […] Snowden passou um par de dias no consulado russo de Hong Kong para manifestar sua intenção de voar para a América Latina, via Moscou.”
  Se eu quisesse, poderia falar destes temas sobre os quais conheço amplamente.
  Hoje observei com especial interesse as imagens do presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro, durante sua visita ao navio principal do destacamento russo que visita a Venezuela depois de sua escala anterior nos portos de Havana e da Nicarágua.
  Durante a visita do presidente venezuelano ao navio, várias imagens me impressionaram. Uma delas foi a amplitude dos movimentos de seus numerosos radares capazes de controlar as atividades operacionais da embarcação em qualquer situação que se apresente.
  Por outro lado, indagamos sobre as atividades do jornal mercenário “Kommersant”. Em sua época, foi um dos mais perversos veículos de imprensa a serviço da extrema direita contrarrevolucionária, a qual se aproveita do fato de que o governo conservador e lacaio de Londres envie seus bombardeiros à base aérea no Chipre, prontos para lançar suas bombas sobre as forças patrióticas da heróica Síria, enquanto no Egito, qualificado como o coração do mundo árabe, milhares de pessoas são assassinadas pelos autores de um grosseiro golpe de Estado.
  É nesse clima que se preparam os meios navais e aéreos do império e de seus aliados para iniciar um genocídio contra os povos árabes.
  É absolutamente claro que os Estados Unidos sempre tratarão de pressionar Cuba como faz com a ONU ou qualquer instituição pública ou privada do mundo, uma das características dos governos desse país e não seria possível esperar de seus governos outra coisa; mas não é vão que há 54 anos se resiste defendendo sem trégua — e o tempo adicional que for necessário —, enfrentando o criminoso bloqueio econômico do poderoso império.
  Nosso maior erro é não termos sido capazes de aprender muito mais em muito menos tempo.
Fidel Castro Ruz
27 de agosto de 2013,
20h34 •

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Vídeo com a chegada dos médicos cubanos em Salvador (Bahia)

Médicos cubanos: avança a integração da América Latina




 “O que brilha com luz própria , ninguém pode apagar
                        Seu brilho pode alcançar a escuridão de outras costas
                        Que pagará este pesar do tempo que se perdeu….
                        Das vidas que nos custou e das que nos podem custar..
                        Ou pagará a unidade dos povos em questão….
                        E a quem negar esta razão, a história condenará…”
                        Canción por La Unidad Latinoamericana
                        Pablo Milanés
Não faltaram emoção, lágrimas e dignidade na chegada dos 176 médicos cubanos, que desembarcaram neste sábado à noite em Brasília, para um trabalho indispensável em municípios brasileiros, mais de 700, ainda sem qualquer assistência médica.  Quando aqueles cidadãos cubanos, muitos deles negros, muitas mulheres, com bandeirolas brasileiras e cubanas nas mãos, pisaram  o solo brasileiro,  ali estava o retrato do enorme progresso social, educacional e sanitário alcançado pela Revolução Cubana. Mas, também, uma prova concreta de que a integração da América Latina está avançando; não é só comércio, é também  saúde. O Brasil coopera com Cuba na construção do Complexo Portuário de Mariel  -   sua  mais importante obra de infra-estrutura  atualmente  – e Cuba coopera com o Brasil preenchendo uma lacuna imensa, a falta de médicos.
A campanha conservadora contra a integração latino-americana sofrerá um revés tremendo quando o programa Mais Médicos ,  começar a apresentar seus efeitos concretos. Esses resultados terão a força para revelar o teor medieval  das críticas feitas pelas representações médicas e pela mídia teleguiada pelos publicidade da indústria farmacêutica.
Volumosa desinformação
Tendo em vista o volume de desinformação que circulou contra a vinda de médicos estrangeiros,  mas contra os médicos cubanos em especial, é obrigatório travar a batalha das idéias, primeiramente, em defesa da Revolução Cubana como uma conquista de toda a humanidade. Cercada, sabotada, agredida, a Revolução Cubana,  que antes de 1959,  possuía os mais tenebrosos indicadores sociais,  analfabetismo massivo, mortalidade infantil indecente, desemprego e atraso social generalizado, consegue libertar-se da condição de colônia, e, mesmo sem ter uma base industrial como a brasileira, por exemplo,  e passa a exportar médicos, professores, vacinas, desportistas.Exporta, principalmente, exemplos!
Esse salto histórico da Revolução Cubana deixa desconcertada a crítica, seja  emanada pela mídia colonizada  pelas lucrativas transnacionais fabricantes de fármacos ou equipamentos hospitalares, seja a crítica oligarquia difundida pelas representações médicas. Os que questionam a qualidade da formação profissional dos médicos cubanos são desafiados a responder por que a mortalidade infantil em Cuba é das mais baixas do mundo, sendo inferior, inclusive, àquela registrada no Estado de Washington, nos EUA? 
                                                          Cuba e a libertação africana
Vale lembrar que Cuba possuía, antes de 1959, pouco mais de 6 mil médicos, dos quais, a metade deixou o país porque não queria perder privilégios, nem concordava com a socialização da saúde. Apenas cinco décadas depois, é esta mesma Cuba que tem capacidade de exportar milhares de médicos para socorrer o povo brasileiro de uma indigência   grave construída por um sistema de saúde ainda determinado pelos poderosos interesses das indústrias hospitalar, farmacêutica e de equipamentos, privilegiando a noção de uma medicina como um negócio, uma atividade empresarial a mais, não como um direito, como determina nossa constituição.
Já em 1963, quando a Revolução na Argélia precisou, iniciou-se a prática de cubana de enviar brigadas médicos aos povos irmãos. Ensanguentada pela herança da dominação francesa, a Revolução Argelina encontrou em Cuba a fraternidade concreta, quando ainda não havia na Ilha um contingente médico tão numeroso como o existente atualmente. Predominou sempre na Revolução Cubana a idéia de que em matéria de solidariedade internacional comparte-se o que se  tem, não o que lhe sobra. Foi exatamente ali na Argélia que se estabeleceram laços indestrutíveis entre a  Revolução Cubana e os diversos movimentos de libertação da África. A partir daí, Cuba participou com  brigadas militares e médicas em diversos processos de libertação nacional do continente. De tal sorte que, em 1966, a primeira campanha de vacinação contra a poliomielite realizada no Congo, foi organizada por médicos cubanos! Os CRMs conhecem esta informação? Sabem que a poliomielite foi erradicada em Cuba décadas antes do Brasil fazê-lo?
                  Será que o Revalida capaz de avaliar a dimensão libertadora da medicina cubana?
Quando Angola foi invadida por tropas do exército racista da África do Sul, baseado nas supremas leis do internacionalismo proletário, Agostinho Neto, presidente angolano, também médico e poeta, solicita a Fidel Castro ajuda militar para garantir a soberania da nação africana. Uma das mais monumentais obras de solidariedade foi realizada por Cuba que, ao todo, enviou a Angola, cerca de 400 mil homens e mulheres para, ao lado dos angolanos e namíbios, expulsar as tropas imperialistas sul-africanas tanto de Angola como da Namíbia. E sob a ameaça de uma bomba atômica, que Israel ofereceu à  África do Sul, argumentando que as tropas cubanas tinham que ser dizimadas porque pretendiam chegar até Pretória….. Na heroica Batalha de Cuito Cuanavale  -  que todos os jornalistas, historiadores, militantes deveriam conhecer a fundo   –   lá estavam as tropas cubanas, mas lá estavam também as brigadas médicas de Cuba, que se espalharam por várias pontos de Angola. A vitória de Angola e da Namíbia contra a invasão da África do Sul,  foi também a derrota do regime do Apartheid. Citemos Mandela:
“ A Batalha de Cuito Cuanavale foi o começo do fim do Apartheid.  Devemos o fim do Apartheid a Cuba!”.
Qual exame Revalida será capaz de dimensionar adequadamente o desempenho de um médico cubano em Cuito Cuanavale, com sua maleta de instrumentos numa das mãos e na outra uma metralhadora, livrando a humanidade da crueldade do Apartheid?  Como dimensionar o bem que o fim do Apartheid, com a decisiva participação cubana, proporcionou  para a saúde social da História da Humanidade?
                                                       As crianças de Chernobyl em Cuba
O sentido de solidariedade internacionalista está tão plasmado na sociedade cubana que, quando aquele terrível acidente ocorreu na Usina Nuclear de Chernobyl, em 1986,   o estado cubano recebeu, das organizações dos Pioneiros  -   que congregam crianças e adolescentes cubanos  -   a proposta de oferecer tratamento médico às crianças contaminadas pela radioatividade vazada no desastre. Um documentário realizado pelo extinto Programa Estação Ciência, dirigido pelo jornalista Hélio Doyle, exibido com freqüência TV Cidade Livre de Brasília, registra como Cuba compartilhou seus recursos médicos e hospitalares, mas, sobretudo, sua fraterna solidariedade com cerca de 3 mil crianças russas que foram levadas para tratamento na Ilha, nas instalações dos Pioneiros, em Tarará.  Destaque-se, primeiramente, que a ideia partiu dos Pioneiros. Segundo, que Cuba não se colocava na condição de doadora, mas apenas cumprindo um dever solidário. Lembravam que o povo soviético havia sido solidário com Cuba quando os EUA iniciaram o bloqueio contra a Ilha cortando a cota de petróleo e do açúcar, suspendendo o comércio bilateral, na década de 60. A URSS passou a comprar todo o açúcar cubano, pelo dobro do preço do mercado internacional, e a abastecer Cuba de petróleo, pela metade do preço de mercado mundial. São páginas escritas, em uma outra lógica, solidária, fraterna, socialista. É de se imaginar o quanto os dirigentes das representações médicas brasileiras poderiam aprender com aquelas crianças cubanas que ofertaram tratamento às 3 mil crianças russas, um contingente menor que o de médicos cubanos que virão para o Brasil?
                                                                     Impublicável
A cooperação entre Brasil e Cuba em matéria de saúde não está iniciando-se agora. Durante o governo Sarney, recém re-estabelecidas as relações bilaterais, em 1986,  foram as vacinas cubanas contra a meningite que permitiram ao  nosso país enfrentar aquele surto. Na época, a mídia teleguiada também fez uma sórdida campanha contra o governo Sarney, primeiro por reatar as relações, mas também por comprar grandes lotes da vacina desenvolvimento pela avançada ciência de Cuba.  De modo venenoso, tentou-se desqualificar as vacinas, afirmando serem de qualidade duvidosa, tal como agora atacam a medicina cubana.  Na época, foram as vacinas cubanas que permitiram controlar aquele surto e salvar vidas. Mas, também trouxeram, por meio do exemplo, a possibilidade de que aprendêssemos um pouco dos valores e das conquistas de uma revolução. Afinal, por que um país com poucos recursos, com uma base industrial muito mais reduzida, conseguia não apenas elevar vertiginosamente o padrão de saúde de seu povo, mas, também desenvolver uma tecnologia com capacidade para  produzir e exportar vacinas, enquanto o Brasil, com uma indústria muito mais expandida, capaz de produzir carros, navios e aviões,  não tinha capacidade para defender seu próprio povo de um surto de meningite? São sagradas as prioridades de uma revolução. E é por isso, que, ainda hoje, a sexta maior economia do mundo,  se vê na obrigação de recorrer a Cuba para  não permitir a continuidade de um crime social configurado na não prestação de  atendimento médico a milhões de brasileiros.
Mais recentemente, quando a Organização Mundial da Saúde convocou a indústria farmacêutica internacional a produzir vacinas para combater um tenebroso surto de febre amarela  que se espalhou pela África, obteve como resposta desta indústria o mais sonoro e insensível NÃO. Os preços que a OMS podia pagar pelas vacinas não eram, segundo as transnacionais farmacêuticas, apetitosos.  Milhões de vidas africanas passaram correr risco, não fosse a cooperação entre dois laboratórios estatais, o Instituto Bio Manguinhos, brasileiro, e o  Instituto Finley, cubano. Essa cooperação permitiu a produção, até o momento, de 19 milhões de doses da vacina que a África necessitava, a um preço 90 por cento menor que o preço do mercado internacional. Onde foi publicada esta informação?
Apenas na Telesur e na imprensa cubana. A ditadura dos anúncios da indústria farmacêutica, que dita a linha editorial da mídia  brasileira em relação ao programa Mais Médicos e à cooperação da Medicina de Cuba, simplesmente impediu que o grande público brasileiro tomasse conhecimento desta importantíssima cooperação estatal brasileiro-cubana. 
Os médicos cubanos e o furacão Katrina
Para dimensionar a inqualificável onda de insultos que os médicos cubanos vêm recebendo aqui na mídia oligárquica, lembremos um fato também sonegado por esta mesma mídia, o que revela suas dificuldades monumentais para o exercício do jornalismo como missão pública. Quando ocorre o trágico furacão Katrina, que devasta Nova Orleans, deixando uma população negra e pobre ao abandono, dada a incapacidade e o desinteresse do governo dos EUA naquela oportunidade, em prestar-lhe socorro,  também foi Cuba que colocou  à disposição  do governo estadunidense   -   malgrado toda a hostilidade ilegal deste para com a Ilha   -   um contingente de 1300  médicos ,  postados no Aeroporto de Havana, com capacidade de chegar prestar ajuda à população afetada pelo furacão. Aguardavam apenas autorização para o embarque, e  em questão de 3 horas de vôo estariam em Nova Orleans salvando vidas. Esta autorização nunca chegou da Casa Branca.  A resposta animalesca do presidente George Bush foi um sonoro NÃO  à oferta de Cuba, o que tampouco foi divulgado pela mídia oligárquica, provavelmente para protegê-lo do vexame de ver difundido seu tosco caráter,  que tal recusa representava. Os Eua estão sempre prontos para enviar militares e mercenários pelo mundo. Mas, são incapazes de prestar ajuda ao seu próprio povo, e também arrogantes o suficiente para permitir uma ajuda de Cuba à população pobre e negra afetada pelo furacão.
                                           Uma Escola de Medicina para outros povos
Também não circulam informações aqui de que Cuba, após o furacão Mity, que devastou a America Central e parte do Caribe, decide montar uma Escola Latino-americana de Medicina, que, em pouco mais de 10 anos de funcionamento, já formou mais de 10 mil médicos estrangeiros, gratuitamente. Entre eles,  500 jovens negros e pobres dos EUA, moradores dos bairros do Harlem e do Brooklin. Eles me revelaram que se tivessem continuado a viver ali, eram fortes candidatos a serem presa fácil do narcotráfico. Frisavam que, estar ali em Cuba, formando-se em medicina, gratuitamente, era uma possibilidade que a maior potência capitalista do mundo não lhes oferecia. Há,  estudando na ELAM, cerca de uma centena de jovens do MST, filhos de assentados da reforma agrária.  Isto significa que Cuba compartilha com vários países do mundo seus modestos recursos. Também estudam lá cerca de 600 jovens do Timor Leste, sendo que existem 40 médicos cubanos trabalhando já agora no Timor. O tipo de exame Revalida seria capaz de dimensionar esta solidariedade cubana com a saúde dos povos?
                                                        Ampliar a integração em outras áreas
Também não se divulgou por aqui,  que Cuba montou três Faculdades de Medicina na África, (Eritreia, Gambia e Guiné Equatorial),  em pleno funcionamento, com professores cubanos. Toda esta campanha de insultos contra Cuba e os médicos cubanos, abre uma boa possibilidade para discutir e conhecer  mais a fundo todas estas conquistas da Revolução Cubana, mas, especialmente, para que as forcas progressistas  reflitam sobre quantas outras possibilidades de cooperação existem entre Brasil e Cuba, em muitas outras áreas.
Mas, serve também para reavaliar a posição de certos parlamentares médicos da esquerda no Brasil que se opõe,  inexplicavelmente, ao Programa Mais Médicos, alguns chegando, ao  absurdo de terem apresentado  projetos de lei proibindo, pelo prazo de 10 anos, a abertura de qualquer novo curso de medicina no Brasil.
                                                     Qualificar o debate sobre a integração
Enfim, um debate democrático e qualificado em torno do programa Mais Médicos, da presença de médicos cubanos aqui no Brasil e em mais de 70 países, e também, sobre as conquistas da Revolução Cubana, deve ser organizado pelos partidos e sindicatos, pelo movimento estudantil, pelos movimentos sociais, pela Solidariedade a Cuba, pelas TVs e rádios comunitárias, como forma de impulsionar a integração da America Latina, que, neste episódio, está demonstrando o quanto pode ser útil à população mais pobre. A TV Brasil pode cumprir uma função muito útil, pode divulgar documentários já existentes sobre o trabalho de médicos em regiões inóspitas e adversas em diversos países.
É preciso expandir esta integração, avançar pela educação, pela informação, não havendo justificativas para que o Brasil ainda  não esteja conectado com a Telessur, por exemplo, que divulgado amplo material jornalístico informando que 3 milhões e meio de cidadãos latino-americanos já foram salvos da cegueira graças a Operação Milagro,  pela qual médicos cubanos e venezuelanos realizam, gratuitamente, cirurgias de cataratas em vários países da região. Enquanto o povo argentino, por exemplo, já  pode sintonizar gratuitamente a Telesur e informar-se de tudo isto, o povo brasileiro está impedido, praticamente, de receber informações que revelam o andamento da integração da America Latina. Mas, com a chegada dos médicos cubanos, a integração será cada vez mais pauta da agenda do debate político nacional e  receberá , certamente,  um impulso político e social, notável, pois o povo brasileiro, saberá , com nobreza e humanismo, valorizar e apoiar o programa Mais Médicos. Alias, é exatamente  isto o que tanto apavora a medicina capitalista.
                                           Há 70 mil engenheiros estrangeiros no Brasil hoje!
Segundo dados recentes do Ministério do Trabalho, existem hoje trabalhando no Brasil cerca de 70 mil engenheiros estrangeiros. Nenhuma gritaria foi feita. Neste caso, trata-se de petróleo e outros projetos, muito lucrativos para as multinacionais. Mas, quando se trata de salvar vidas, acendem-se todas as fogueiras do inferno da nova inquisição contra uma cooperação que é lógica e indispensável, solidária e humanitária. Por que é aceitável  a importação de telefones, equipamentos médicos, remédios, cosméticos, roupas, caviar, bebidas, vacinas e não se aceita a cooperação de médicos de Cuba, sendo este o único pais  em condições  objetivas  de apresentar-se prontamente e de maneira eficaz com profissionais experimentados.  Será que as representações médicas brasileiras possuem sequer uma remota idéia de que estão proferindo insultos a esta bela história da medicina  socialista de Cuba? 
                                           Quem pagará a conta da demora?
A presidenta Dilma tem inteira razão em convocar os Médicos Cubanos, algo que já poderia ter sido feito há mais tempo, amenizando a dor e o sofrimento de milhões de brasileiros abandonados por um sistema de saúde e por uma mentalidade de parcelas das representações médicas que, por mais absurdo que pareça, ainda tentam justificar este abandono. Aliás, com a determinação da presidenta Dilma está absolutamente revelada a importância da integração da América Latina, não havendo justificativas para que esta modalidade de integração nas esferas sociais,  não avance também para outras áreas, como a educação, por exemplo. Foi exatamente com o método cubano denominado “Yo, si, puedo”,  que Venezuela, Bolívia, Equador são países declarados pela UNESCO como “Territórios Livres do Analfabetismo”, sempre com a participação direta de professores cubanos. Muito em breve, será a Nicarágua, que vai recuperar aquele galardão, que já havia conquistado durante a Revolução Sandinista, mas depois perdeu,  na era neoliberal.  Por quanto tempo o Brasil terá apenas projetos pilotos, em apenas 3 cidades, com o método de alfabetização cubano, que, aliás, já tem absoluta comprovação e reconhecimento mundiais?  Que espera a sexta economia do mundo em  convocar ainda mais a cooperação cubana para erradicar o analfabetismo? Quem pagará a conta desta injustificável demora?
Termino com a declaração da Dra Milagro Cárdenas Lopes,  cubana, negra, 61 anos“Somos médicos por vocação, não nos interessa um salário, fazemos por amor”, afirmou.  Em seguida, dirigiu-se com seus companheiros para os ônibus organizados pelo Exército Brasileiro, que cuida de seu alojamento. Sinal de que a integração está escrevendo uma nova página na história da América Latina.
Beto Almeida
Diretor da Telesur                   
25 de agosto de 2013
Retirado de MidiaCrucis

domingo, 25 de agosto de 2013

O debate sobre a chegada de médicos cubanos é vergonhoso.

Paulo Moreira Leite
Diretor da Sucursal da ISTOÉ em Brasília, é autor de "A Outra História do Mensalão". Foi correspondente em Paris e Washington e ocupou postos de direção na VEJA e na Época. Também escreveu "A Mulher que Era o Outro General da Casa".


Do ponto de vista da saúde pública, temos um quadro conhecido. Faltam médicos em milhares de cidades brasileiras, nenhum doutor formado no país tem interesse em trabalhar nesses lugares pobres, distantes, sem charme algum – nem aqueles que se formam em universidades públicas sentem algum impulso ético de retribuir alguma coisa ao país que lhes deu ensino, formação e futuro de graça.

Respeitando o direito individual de cada pessoa resolver seu destino, o governo Dilma decidiu procurar médicos estrangeiros. Não poderia haver atitude mais democrática, com respeito às decisões de cada cidadão.

O Ministério da Saúde conseguiu atrair médicos de Portugal, Espanha, Argentina, Uruguai. Mas continua pouco. Então, o governo resolveu fazer o que já havia anunciado: trazer médicos de Cuba.

Como era de prever, a reação já começou.

E como eu sempre disse neste espaço, o conservadorismo brasileiro não consegue esconder sua submissão aos compromissos nostálgicos da Guerra Fria, base de um anticomunismo primitivo no plano ideológico e selvagem no plano dos métodos. É uma turma que se formou nesta escola, transmitiu a herança de pai para filho e para netos. Formou jovens despreparados para a realidade do país, embora tenham grande intimidade com Londres e Nova York.

Hoje, eles repetem o passado como se estivessem falando de algo que tem futuro.

Foi em nome desse anticomunismo que o país enfrentou 21 anos de treva da ditadura. E é em nome dele, mais uma vez, que se procura boicotar a chegada dos médicos cubanos com o argumento de que o Brasil estará ajudando a sobrevivência do regime de Fidel Castro. Os jornais, no pré-64, eram boicotados pelas grandes agencias de publicidade norte-americanas caso recusassem a pressão americana favorável à expulsão de Cuba da OEA. Juarez Bahia, que dirigiu o Correio da Manhã, já contou isso.

Vamos combinar uma coisa. Se for para reduzir economia à política, cabe perguntar a quem adora mercadorias baratas da China Comunista: qual o efeito de ampliar o comércio entre os dois países? Por algum critério – político, geopolítico, estético, patético – qual país e qual regime podem criar problemas para o Brasil, no médio, curto ou longo prazo?

Sejamos sérios. Não sou nem nunca fui um fã incondicional do regime de Fidel. Já escrevi sobre suas falhas e imperfeições. Mas sei reconhecer que sua vitória marcou uma derrota do império norte-americano e compreendo sua importância como afirmação da soberania na América Latina.

Creio que os problemas dos cidadãos cubanos, que são reais, devem ser resolvidos por eles mesmos.

Como alguém já lembrou: se for para falar em causas humanitárias para proibir a entrada de médicos cubanos, por que aceitar milhares de bolivianos que hoje tocam pedaços inteiros da mais chique indústria de confecção do país?

Denunciar o governo cubano de terceirizar seus médicos é apenas ridículo, num momento em que uma parcela do empresariado brasileiro quer uma carona na CLT e liberar a terceirização em todos os ramos da economia. Neste aspecto, temos a farsa dentro da farsa. Quem é radicalmente a favor da terceirização dos assalariados brasileiros quer impedir a chegada, em massa, de terceirizados cubanos. Dizem que são escravos e, é claro, vamos ver como são os trabalhadores nas fazendas de seus amigos.

Falar em democracia é um truque velho demais. Não custa lembrar que se fez isso em 64, com apoio dos mesmos jornais que 49 anos depois condenam a chegada dos cubanos, erguendo o argumento absurdo de que eles virão fazer doutrinação revolucionária por aqui. Será que esse povo não lê jornais?

Fidel Castro ainda tinha barbas escuras quando parou de falar em revolução. E seu irmão está fazendo reformas que seriam pura heresia há cinco anos.

O problema, nós sabemos, não é este. É material e mental.

Nossos conservadores não acharam um novo marqueteiro para arrumar seu discurso para os dias de hoje. São contra os médicos cubanos, mas oferecem o que? Médicos do Sírio Libanês, do Einstein, do Santa Catarina?

Não. Oferecem a morte sem necessidade, as pragas bíblicas. Por isso não têm propostas alternativas nem sugestões que possam ser discutidas. Nem se preocupam. Ficam irresponsavelmente mudos. É criminoso. Querem deixar tudo como está. Seus médicos seguem ganhando o que podem e cada vez mais. Está bem. Mas por que impedir quem não querem receber nem atender?

Sem alternativa, os pobres e muito pobres serão empurrados para grandes arapucas de saúde. Jamais serão atendidos, nem examinados. Mas deixarão seu pouco e suado dinheiro nos cofres de tratantes sem escrúpulos.

Em seu mundo ideal, tudo permanece igual ao que era antes. Mas não. Vivemos tempos em que os mais pobres e menos protegidos não aceitam sua condição como uma condenação eterna, com a qual devem se conformar em silêncio. Lutam, brigam, participam. E conseguem vitórias, como todas as estatísticas de todos os pesquisadores reconhecem. Os médicos, apenas, não são a maravilha curativa. Mas representam um passo, uma chance para quem não tem nenhuma. Por isso são tão importantes para quem não tem o número daquele doutor com formação internacional no celular.

O problema real é que a turma de cima não suporta qualquer melhoria que os debaixo possam conquistar. Receberam o Bolsa Família como se fosse um programa de corrupção dos mais humildes. Anunciaram que as leis trabalhistas eram um entrave ao crescimento econômico e tiveram de engolir a maior recuperação da carteira de trabalho de nossa história. Não precisamos de outros exemplos.

Em 2013, estão recebendo um primeiro projeto de melhoria na saúde pública em anos com a mesma raiva, o mesmo egoísmo.

Temem que o Brasil esteja mudando, para se tornar um país capaz de deixar o atraso maior, insuportável, para trás. O risco é mesmo este: a poeira da história, aquele avanço que, lento, incompleto, com progressos e recuos, deixa o pior cada vez mais distante.

É por essa razão, só por essa, que se tenta impedir a chegada dos médicos cubanos e se tentará impedir qualquer melhoria numa área em que a vida e a morte se encontram o tempo inteiro.

Essa presença será boa para o povo. Como já foi útil em outros momentos do Brasil, quando médicos cubanos foram trazidos com autorização de José Serra, ministro da Saúde do governo de FHC, e ninguém falou que eles iriam preparar uma guerrilha comunista. Graças aos médicos cubanos, a saúde pública da Venezuela tornou-se uma das melhores do continente, informa a Organização Mundial de Saúde. Também foram úteis em Cuba.

Os inimigos dessas iniciativas temem qualquer progresso. Sabem que os médicos cubanos irão para o lugar onde a morte não encontra obstáculo, onde a doença leva quem poderia ser salvo com uma aspirina, um cobertor, um copo de água com açúcar. Por isso incomodam tanto. Só oferecem ameaça a quem nada tem a oferecer aos brasileiros além de seu egoísmo.
Retirado de ISTO É

Médicos cubanos desembarcam sob aplausos no aeroporto do Recife


O primeiro grupo de médicos cubanos que chega ao Brasil trabalhar pelo Programa Mais Médicos desembarcou às 13h55 no no Aeroporto Internacional dos Guararapes, no Recife. Depois, em Brasília, às 18h. Na capital federal, eles chegaram no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek e foram recebidos pelo secretário especial da Saúde Indígena do Ministério da Saúde, Antônio Alves, pois vão atuar nas áreas indígenas. O restante do grupo chega neste domingo em Fortaleza, às 13h20, no Recife, às 16h, e em Salvador, às 18h, segundo o ministério.
Ao todo, 644 médicos, incluindo os 400 cubanos, com diploma estrangeiro chegam ao Brasil neste fim de semana. Na sexta-feira, começaram a chegar os médicos inscritos individualmente em oito capitais. Neste sábado, no Recife, eles foram recebidos com aplausos por um grupo de funcionários do Ministério da Saúde que os recepcionou cantando a marchinha carnavalesca “Ó Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga. A letra dizia “Ó Abre Alas, que os cubanos vão passar”. Eles agradeceram a acolhida do povo brasileiro.
Os profissionais cubanos fazem parte do acordo entre o ministério com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) para trazer, até o final do ano, 4 mil médicos cubanos. Eles vão atuar nas cidades que não atraírem profissionais inscritos individualmente no Mais Médicos. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, rebateu as críticas das entidades médicas que questionam a formação médica dos profissionais cubanos.
– Neste sábado e domingo chegam 400 médicos cubanos muito experientes e 86% deles têm mais de 16 anos de experiência em missões internacionais. Chegam para os 701 municípios que nenhum médico brasileiro ou estrangeiro escolheu individualmente. O ministério vai acompanhar a qualidade dos médicos cubanos. Por isso que nós exigimos que sejam médicos experientes, todos eles têm especialização em medicina da família e outros programas de pós-graduação – disse Padilha.
Sobre as críticas de que os médicos cubanos vão receber menos (entre R$ 2,5 e R$ 4 mil) do que os outros médicos do programa, que vão ganhar R$ 10 mil, o ministro destacou que não é possível fazer comparação por serem realidade diferentes.
– Os médicos cubanos têm uma carreira e vínculo permanente com Cuba, o fato de virem em uma missão internacional faz com que os salários deles aumente, é um bônus no salário além da remuneração que vão ter aqui, diferentemente de outros médicos estrangeiros que vêm para cá (Brasil) e não têm emprego no país de origem. Esses médicos terão moradia e alimentação garantidas pelos municípios que assumiram o compromisso de participar do programa. O Ministério da Saúde vai acompanhar de perto as condições de vida desses profissionais para que tenham tranquilidade para atuar e atender bem a nossa população – declarou o ministro.
De acordo com o Ministério da Saúde, serão repassados R$ 10 mil por médico cubano à Opas, que fará o pagamento ao governo cubano. Em acordos como esse, Cuba fica com uma parte da verba. Na segunda-feira, tantos os médicos inscritos individualmente (brasileiros e estrangeiros), quanto os 400 cubanos contratados via acordo, começam a participar do curso de preparação, com aulas sobre saúde pública brasileira e língua portuguesa. Após a aprovação nesta etapa, eles irão para os municípios. Os médicos formados no país iniciam o atendimento a população no dia 2 de setembro. Já os com diploma estrangeiro começam a trabalhar no dia 16 de setembro.
Vocação
Assim que desembarcaram no Recife, os médicos cubanos disseram que vieram (ao Brasil) “por solidariedade, e não por dinheiro”.
– Nós somos médicos por vocação e não por dinheiro. Trabalhamos porque nossa ajuda foi solicitada, e não por salário, nem no Brasil nem em nenhum lugar do mundo – afirmou o médico de família Nélson Rodríguez, de 45 anos.
Rodriguez disse que a atuação dos profissionais no Brasil seguirá as ações executados em países como Haiti e Venezuela, onde já trabalhou.
– O sistema de saúde no Brasil é mais desenvolvido que nesses outros países que visitamos, então poderemos fazer um trabalho até melhor na saúde básica – afirmou.
À imprensa, outros médicos que deram entrevistas concordaram com o colega. Todos eles falaram “portunhol” – afirmaram que tiveram contato com o português quando trabalharam na África ou por terem amigos que já trabalharam no continente.
A médica Natacha Sánchez, de 44 anos, que trabalhou em missões médicas na Nicarágua e na África, disse que os cubanos estão preparados para o trabalho em locais com “condições críticas” e querem trabalhar em conjunto com os médicos brasileiros. Ela desconhece as críticas feitas pelo Conselho Federal de Medicina ao programa Mais Médicos.
Vestindo jaleco, com bandeiras do Brasil e de Cuba, os médicos cubanos cumpriram os procedimentos de imigração e alfândega, depois seguiram em vans para alojamentos das Forças Armadas na capital pernambucana.
Retirado de CORREIO DO BRASIL

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Quem são os médicos cubanos que chegam ao Brasil ?

Estão chegando 400 médicos cubanos.


Na quarta-feira, dia 21, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou a formalização do acordo com Cuba para a vinda de 400 médicos ao Brasil. Outros 1.500 profissionais cubanos devem desembarcar um pouco mais adiante. A decisão reflete um novo momento do Programa Mais Médicos que, progressivamente, furou o bloqueio duplo da má vontade conservadora e do elitismo corporativista.
Lançado em 8 de julho, a iniciativa ataca fatores emergenciais e estruturais que multiplicam áreas desassistidas no País. O Brasil tem apenas 1,8 médico por mil habitante; a Argentina tem três. O governo quer elevar o índice brasileiro para 2,5 por mil. Precisará de mais 168.424 médicos. As escolas brasileiras formam cerca de 18 mil médicos por ano. Mais de 3.500 municípios aderiram ao programa.
O ministro Padilha pretende acudir a emergência com a vinda imediata de profissionais estrangeiros; e corrigir a usina estrutural desse hiato incorporando as escolas de medicina à política da saúde pública no Brasil. De dois modos: incentivando a formação do clínico geral e transformando a residência médica em prestação de serviço remunerada no SUS.
O acordo com Cuba, bombardeado originalmente, foi revalidado pelo próprio boicote corporativista, que tornou explícita a indiferença das elites em relação aos segmentos mais vulneráveis da população. Foi obra da paciência política do governo. Atualmente, mais de 54% dos brasileiros declaram-se favoráveis à vinda de estrangeiros para socorrer as regiões distantes e periferias conflagradas. Mais que uma vitória isolada, o Mais Médicos descortina uma nova família de políticas públicas, que convoca a universidade se incorporar ao do passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.




O CFM e os médicos cubanos

O Conselho Federal de Medicina, que lidera o boicote ao Programa Mais Médicos, declarou na quinta-feira, dia 22, que a vinda de profissionais cubanos “coloca em risco a saúde da população”. Curioso. Por ilação poderíamos entender que na visão do CFM, os brasileiros discriminados pelo elitismo corporativo estariam mais seguros se deixados à própria sorte.
Os termos do acordo divulgados pelo Ministério da Saúde desautorizam o terrorismo em torno da chegada dos primeiros 400, de um total de 4 mil médicos cubanos contratados para trabalhar no País. Os primeiros profissionais chegam no próximo fim de semana e passarão por avaliação de três semanas juntamente com os demais médicos com diploma do exterior.
Os cubanos que trabalharão no Brasil já participaram de outras missões internacionais: 42% deles já estiveram em pelo menos dois países, entre mais de 50 que já fizeram acordos semelhantes com Cuba. Todos têm especialização em Medicina da Família. A experiência também é alta: 84% têm mais de 16 anos de exercício da Medicina.

Esse perfil atende ao requisito de trazer profissionais credenciados no atendimento a populações em situação de vulnerabilidade. Os médicos terão autorização especial para trabalhar por três anos exclusivamente nas áreas designadas pelo governo brasileiro.



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Retirado de Limpinho e Cheiroso

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Milhares de crianças de exilados cubanos em Miami passam as férias em Cuba.

Fonte: ADITAL

Muitas crianças de Miami regressaram às aulas com muitas aventuras para contar. São os filhos dos exilados cubanos que foram passar as férias de verão na ilha comunista.

"Me banhava todo o dia no rio da casa de minha avó”, diz para ElMundo.es, José Luis González, um jovem de 12 anos, que regressou ao país de seus pais pelo segundo ano consecutivo para passar o verão com a avó materna.

O jovem é um dos milhares de crianças e adolescentes cubanos que foram enviados em junho-julho para Cuba por seus pais, e voltaram maravilhados com o ambiente que encontraram. "Claro que não tive problemas; que problemas teria? Estive com meus primos de novo; fomos ao cinema, à praia; andei à cavalo...”, agrega.

O que aconteceu com José Luis pode parecer normal em alguns países do mundo; porém, na Flórida, onde, sem contar as praias ou a Disneylândia, os pais não têm muitas opções para entreter seus filhos nos meses de verão, Cuba parece uma alternativa sedutora.

"Para nós, é muito mais barato mandar nosso filho a Cuba com minha mãe”, conta Luisa Menéndez, a mãe de José Luis. E completa: "é muito mais seguro; nunca sabemos o que acontece nesses acampamentos de verão, nos EUA”.

Todos os anos, quando chega o verão, milhões de pais se debatem com o mesmo problema: o que fazer com seus filhos? Em uma sociedade como a de Miami, onde geralmente tanto a mãe quanto o pai trabalham, a menos que tenham algum dos avós aposentados que cuidem aos netos nesses meses, o assunto é uma dor de cabeça.

"Os acampamentos de verão são caros; uns 500 dólares pelos dois meses. Ir à Disneylândia um fim de semana [pai, mãe e filho] não custa menos de 700 dólares. Eu mando o José Luis para a casa de minha mãe em Cuba por menos de 400 dólares; envio dinheiro para que o alimente e compre algumas coisas para os demais membros da família. Porém, também é muito mais seguro. Em Cuba não há violência; não há drogas; as crianças não são abusadas. Eu sei que com minha mãe, meu filho estará seguro”, enfatiza Menéndez.

Não existe uma cifra exata sobre a quantidade de crianças cubano-americanas que estão viajando a Cuba para passar o verão com suas famílias. Porém, não só os funcionários da alfândega no aeroporto de Havana ecoaram o fenômeno. Também os que vivem em Miami. É fácil constatar como durante o verão se incrementa notavelmente o número de crianças que viajam sozinhos a Cuba. Inclusive, nos supermercados, salões de beleza e centros de trabalho é comum encontrar pessoas falando sobre as viagens de seus filhos a Cuba durante o verão, seja porque pensam enviá-los ou porque já voltaram.

Curiosamente, em uma cidade altamente politizada como Miami, onde o exílio cubano anticomunista ainda tem alguma influência, esse tipo de viagens não está levantando muitas críticas apesar de que muitos exilados de linha dura criticam todos os nexos com a ilha. Tampouco se escuta comentários nas rádios locais, tão pródigas em socavar tudo o que tenha conexões com Cuba. Há várias interpretações.

Uma tranquilidade

"Família é família. Já passou de moda isso de criticar as viagens familiares. Além disso, lá ninguém se mete com as crianças. E para os pais, gostemos ou não das viagens, é uma tranquilidade. Veja bem, somente na semana passada, morreram quatro crianças em Miami, vítimas de balas perdidas”, comenta o advogado cubano-americano Carlos Gutiérrez.

Porém, não é o que pensa Piedad Montalvo, uma aposentada cubana que se opõe a todo tipo de "composição com os comunistas” e para quem o culpado de tudo isso é o presidente Barack Obama. "Ele abriu as portas ao regime comunista. Está deixando que pais inescrupulosos mandem essas crianças a Cuba para doutriná-los e que voltem para destruir esse grande pais”, disse a ElMundo.es.

Há dois anos, Obama aprovou o levante de todo tipo de restrições nas viagens dos cubano-americanos a seu país de origem. Inclusive, retirou todas as limitações ao envio de remessas. Há três semanas, o Departamento de Estado anunciou que passará a conceder visto múltiplo aos cubanos que entrem aos EUA, válidas por 5 anos.

No dia 14 de janeiro, entrou em vigência uma reforma migratória em Cuba, que acabou com as permissões de saída para os cubanos; estes podem viajar livremente ao exterior a menos que se encontrem em liberdade condicional por causas políticas ou delito comum.
"Esse é um fenômeno muito interessante, criado em menos de seis meses; muito rapidamente, sem que ninguém pudesse antecipar. As crianças de cá estão viajando para lá; porém, agora, as de lá também podem viajar de Miami para cá, para visitar suas famílias. Me pergunto que influência isso terá no futuro de Cuba, porque os velhinhos daqui já não contam, o mais que podem é suspirar”, diz Gutiérrez.
Retirado de SOLIDÁRIOS

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

As verdades objetivas e os sonhos

A espécie humana reafirma com frustrante força que existe há aproximadamente 230 mil anos. Não lembro afirmação alguma que alcance mais idade. Existiram, sim, outras classes de humanos, como os Neandertais de origem europeia; ou uma terceira, o hominídeo de Denisova no norte da Ásia mas, em nenhum caso, existem fósseis mais antigos que os do Homo Sapiens da Etiópia.

Tais restos, em troca, existem de inúmeras espécies então vivas, como os dinossauros, cujos fósseis datam de há mais de 200 milhões de anos. Muitos cientistas falam de sua existência antes do meteorito que impactou no istmo de Tehuantepec provocando a morte daqueles, alguns dos quais mediam até 60 metros de comprimento.

No mundo explorado e saqueado vivem incontáveis pessoas generosas e sacrificadas, especialmente as mães, as quais a própria natureza dotou de especial espírito de sacrifício.

Pensemos que mais de duzentos grupos humanos se disputam os recursos da Terra. O patriotismo é simplesmente o sentimento solidário mais amplamente alcançado. Nunca digamos que foi pouco. Com certeza assim se iniciou pelas atividades familiares de grupos reduzidos de pessoas que os escritores da história qualificaram de clã familiar, para percorrer o caminho da cooperação entre grupos de famílias que colaboravam entre si para cumprir com as tarefas a seu alcance. Houve luta entre grupos de famílias noutras etapas, até alcançar níveis superiores de organização como, sem dúvida, foi a tribo. Decorreram mais de cem mil anos. As lembranças escritas em sofisticados pergaminhos datam, porém, de não mais de 4 mil anos.
É conhecida igualmente a pré-história do planeta que hoje habitamos, desprendido da nebulosa solar e seu esfriamento como massa compacta quase plana, constituída por um número crescente de matérias bem definidas que aos poucos adquiririam características visíveis. Também não se sabe ainda quantas faltam por serem descobertas e os insólitos usos que a tecnologia moderna pode contribuir com os seres humanos.
É conhecido que as sementes de algumas plantas comestíveis foram descobertas e começaram a ser utilizadas há aproximadamente 40 mil anos. Existe também constância do que foi um calendário de plantio gravado em pedra há aproximadamente 10 mil anos.
As ciências devem ensinar todos a sermos sobretudo humildes, dada nossa autossuficiência congênita. Estaríamos assim mais preparados para enfrentar e inclusive desfrutar o raro privilégio de existir.


O conceito de pai, que não existe na natureza, é, em troca, fruto da educação social nos seres humanos e se observa como norma em qualquer canto, do ártico, onde se encontram os esquimós, às selvas mais tórridas da África nas quais as mulheres não só cuidam da família, mas também trabalham a terra para produzir alimentos.
Quem lê as notícias que chegam todos os dias sobre velhos e novos comportamentos da natureza e as descobertas dos métodos para enfrentar o de ontem, hoje e amanhã, compreenderia as exigências de nosso tempo.
Os vírus se transformam de forma inesperada e atacam as plantas mais produtivas ou os animais, que possibilitam a alimentação humana, o que torna mais insegura e custosa a saúde de nossa espécie, gera e agrava as doenças, sobretudo, nos mais idosos ou nos mais jóvens.
Como enfrentar com honra o número crescente de obstáculos que os habitantes do planeta sofrem?


A capacidade humana para pensar e elaborar ideias era já notável, e não acredito sinceramente que os gregos eram menos inteligentes que o homem atual. Seus poemas, seus textos filosóficos, suas esculturas, seus conhecimentos médicos, seus jogos olímpicos; seus espelhos, com os que incendiavam naves adversárias concentrando os raios solares; as obras de Sócrates, Platão, Aristóteles, Galeno, Arquimedes e outros iluminaram o mundo antigo. Eram homens de inusual talento.
Chegamos, após um longo caminho, à etapa contemporânea da história do homem.
Dias críticos não tardaram em aparecer para nossa Pátria, a 90 milhas do território continental dos Estados Unidos, depois de que uma profunda crise alcançou à URSS.
Desde 1o. de janeiro de 1959 nosso país assumiu o comando de seu próprio destino após 402 anos de colonização espanhola e 59 como neocolônia. Já não existíamos como indígenas que não falavam sequer o mesmo idioma; éramos uma mistura de brancos, negros e índios que integrávamos uma nação nova com suas virtudes e seus defeitos como todas as outras. Não é necessário dizer que imperava na Ilha a tragédia do desemprego, do subdesenvolvimento e um paupérrimo nível de educação. Possuíam conhecimentos inculcados pela imprensa e pela literatura dominante nos Estados Unidos, que ignoravam, se é que não desprezavam, os sentimentos duma nação que combateu com as armas durante décadas pela independência do país, e no fim inclusive contra centenas de milhares de soldados a serviço da metrópole espanhola. É preciso não esquecer a história da “Fruta Madura”, imperante na mentalidade colonialista da poderosa nação vizinha que fez prevalecer sua força e negava ao país não apenas o direito de ser livre hoje, amanhã e sempre, mas que pretendia anexar nossa Ilha ao território desse poderoso país.
Quando explodiu no porto de Havana o acouraçado norte-americano Maine, o exército espanhol, integrado por centenas de milhares de homens, estava já derrotado, como um dia os vietnamitas derrotaram a base de heroísmo o poderoso exército dotado de sofisticado armamento, inclusive com o “Agente Laranja” que a tantos vietnamitas prejudicou para toda a vida, e Nixon, mais de uma vez, esteve tentado ao uso das armas nucleares contra aquele povo heroico. Não em vão lutou para enfraquecer os soviéticos com suas discussões sobre a produção de alimentos naquele país.
Deixaria de ser diáfano se não assinalo um momento amargo de nossas relações com a URSS. Isso derivou da reação que tivemos ao saber a decisão de Nikita Kruschev quando a Crise dos Mísseis de 1962, a qual no próximo mês de outubro fará 51 anos.
Quando soubemos que Kruschev tinha acertado com John F. Kennedy a retirada dos projéteis nucleares do país, publiquei uma nota com os 5 Pontos que considerei indispensáveis para um acordo. O chefe soviético sabia que inicialmente nós advertimos ao marechal chefe da foguetearia soviética que a Cuba não interessava aparecer como emprazamento de foguetes da URSS, dada sua aspiração a ser exemplo para os demais países da América Latina na luta pela independência de nossos povos. Mas, apesar disso, o marechal chefe de tais armas, uma pessoa excelente, insistia na necessidade de contar com alguma arma que persuadisse os agressores. Insistindo ele no tema, expressei que se lhes parecia uma necessidade imprescindível para a defesa do socialismo, tratava-se já de outra coisa, porque éramos acima de tudo revolucionários. Pedi-lhes duas horas para que a Direção de nossa Revolução tomasse uma decisão.
Kruschev tinha tido um comportamento de grande altura com Cuba. Quando os Estados Unidos suspenderam totalmente a cota açucareira e bloqueou nosso comércio, ele decidiu comprar o que deixasse de adquirir esse país, e aos mesmos preços; quando meses depois aquele país nos suspendeu as cotas de petróleo, a URSS nos forneceu as necessidades desse vital produto sem o qual nossa economia tivesse sofrido um grande colapso: uma luta a morte teria sido imposta, já que Cuba nunca se renderia. Os combates teriam sido sangrentos, tanto para os agressores como para nós. Tínhamos acumulado mais de 300 mil armas, inclusive as 100 mil que ocupamos à tirania de Batista.
O líder soviético tinha acumulado grande prestígio. Quando a ocupação do Canal de Suez pela França e Inglaterra, as duas potências que eram proprietárias do canal, com o apoio de forças israelenses, atacaram e ocuparam aquela via. Kruschev advertiu que usaria suas armas nucleares contra os agressores franceses e britânicos que ocuparam esse ponto. Os Estados Unidos, sob a direção de Eisenhower, não estava disposto naquele momento a envolver-se numa guerra. Lembro uma frase de Kruschev por aqueles dias: “nossos foguetes podem acertar uma mosca no ar”.
Não muito tempo depois, o mundo se viu envolvido num gravíssimo perigo de guerra. Infelizmente, foi o mais grave que se tenha conhecido. Kruschev não era qualquer líder, durante a Grande Guerra Pátria se tinha destacado como comissário chefe da defesa de Stalingrado, atual Volgogrado, na batalha mais forte que se travou no mundo com a participação de 6 milhões de homens. Os nazistas perderam mais de meio milhão de soldados. A Crise dos Mísseis em Cuba custou-lhe o cargo. Em 1964, foi substituído por Leonid Brejnev.
Supostamente, embora a um preço alto, os Estados Unidos cumpririam seu compromisso de não invadir Cuba. Brejnev desenvolveu excelentes relações com nosso país, visitou-nos em 28 de janeiro de 1974, desenvolveu o poder militar da União Soviética, treinou na escola militar de seu grande país a muitos oficiais de nossas Forças Armadas, continuou o fornecimento  gratuito de armamento militar a nosso país, promoveu a construção duma usina eletronuclear de resfriamento de água, na qual se aplicavam as máximas medidas de segurança e deu apoio aos objetivos econômicos de nosso país.
Após sua morte, em 10 de novembro de 1982, sucedeu-lhe o diretor da KGB, Yuri Andropov, que presidiu as honras funerárias de Brejnev e tomou posse como presidente da URSS. Este era um homem sério, assim o aprecio, e também muito franco.
Ele nos disse que se fôssemos atacados pelos Estados Unidos deveríamos lutar sozinhos. Perguntamos-lhe se podiam fornecer-nos as armas gratuitamente como até esse momento. Respondeu que sim. Comunicamos-lhe então: “não se preocupe, envie-nos as armas que dos invasores nos ocupamos nós”.
Sobre este tema só um mínimo de colegas estivemos informados já que era muito perigoso que o inimigo tivesse esta informação.
Decidimos solicitar a outros amigos as armas suficientes para contar com um milhão de combatentes cubanos. O companheiro Kim II Sung, um veterano e irrepreensível combatente, nos enviou 100 mil fuzis AK e suas correspondentes munições sem cobrar um centavo.
O que contribuiu a desatar a crise? Kruschev tinha percebido a clara intenção de Kennedy de invadir Cuba logo estivessem preparadas as condições políticas e diplomáticas, especialmente depois da esmagadora derrota da invasão mercenária da Baía dos Porcos, escoltada por navios de assalto da infantaria de Marina e um porta-aviões ianque. Os mercenários controlavam o espaço aéreo com mais de 40 aviões entre bombardeiros B-26, aviões de transporte aéreo e outros de apoio. Um ataque surpresa prévio, à principal base aérea, não encontrou nossos aviões alinhados, senão dispersos em diversos pontos, os que podiam mover-se e os que careciam de peças. Apenas afetaram alguns. No dia da invasão traiçoeira nossas naves estavam no ar antes do amanhecer em direção à Baía dos Porcos. Digamos só que um honesto escritor norte-americano descreveu aquilo como um desastre. Basta dizer que no fim daquela aventura só dois ou três dos expedicionários puderam retornar a Miami.
A invasão programada pelas forças armadas dos Estados Unidos contra a Ilha tinha sofrido grandes baixas, muito superiores aos 50 mil soldados que perderam no Vietnã. Não tinham então as experiências que adquiririam mais tarde.
Será lembrado que em 28 de outubro de 1962 eu declarei que não concordava com a decisão inconsulta e ignorada por Cuba de que a URSS retiraria seus projéteis estratégicos, para os quais se estavam preparando as plataformas de lançamento que seriam no total 42. Expliquei ao líder soviético que esse passo não tinha sido consultado conosco, requisito essencial de nossos acordos. Numa frase está a ideia: “O senhor pode convencer-me de que estou errado, mas não pode dizer-me que estou errado sem convencer-me”, e numerei 5 Pontos que se mantinham intocáveis: Fim do bloqueio econômico e de todas as medidas de pressão comercial e econômica que exercem os Estados Unidos em toda parte do mundo contra nosso país; fim de todas as atividades subversivas, lançamento e desembarque de armas e explosivos por ar e por mar, organização de invasões mercenárias, infiltração de espiões e sabotadores, ações todas que se executam do território dos Estados Unidos e de alguns países cúmplices; fim dos ataques piratas que se executam das bases existentes nos Estados Unidos e Porto Rico; fim de todas as violações de nosso espaço aéreo e naval por aviões e navios de guerra norte-americanos; e a retirada da Base Naval de Guantânamo e devolução do território cubano ocupado pelos Estados Unidos.
É bem conhecido igualmente que o jornalista francês Jean Daniel tinha entrevistado o presidente Kennedy após a Crise dos Mísseis; este lhe contou a experiência muito difícil que tinha vivido, e tinha-lhe perguntado se eu realmente conhecia o perigo daquele momento. Pediu ao repórter francês que viajasse a Havana, falasse comigo e esclarecesse essa dúvida.
Este viajou a Havana e pediu a entrevista. Marquei um encontro com ele naquela noite e transmiti-lhe que desejava vê-lo e conversar com ele sobre o tema, e sugeri-lhe conversar em Varadero. Chegamos ao lugar e convidei-o para almoçar. Era meio-dia. Liguei a rádio e naquele instante uma notícia glacial informou que o presidente tinha sido assassinado em Dallas.
Praticamente já não havia de que falar. Eu, com certeza, pedi-lhe que me falasse de sua conversa com Kennedy; ele estava realmente impressionado com seu contato. Disse-me que Kennedy era uma máquina de pensar, estava realmente traumatizado. Não voltei a vê-lo. Por meu lado, pesquisei o que pude, ou mais bem supus o que aconteceu naquele dia. Foi estranho o comportamento de Lee Harvey Oswald. Soube que este tinha tentado visitar Cuba não muito tempo antes do assassinato de Kennedy, e supostamente disparou com um rifle semiautomático de mira telescópica contra um alvo em movimento. De sobra conheço o emprego dessa arma. A mira, quando se faz um disparo, se move e o alvo se perde um instante; o que não ocorre com outra classe de sistema de pontaria de qualquer fuzil. O telescópico, de vários poderes, é muito preciso se a arma se apoia, mas estorva quando se faz com um objetivo em movimento. Dizem que foram dois os disparos mortais consecutivos em fração de segundos. A presença dum delinquente conhecido por seu ofício, que mata Oswald nada menos que numa estação de polícia, comovido pela dor que estaria sofrendo a esposa de Kennedy, parece uma cínica brincadeira.
Johnson, um bom magnata petroleiro, não perdeu um minuto em tomar o avião em direção a Washington. Não quero fazer imputações, é assunto deles, mas se trata de que nos planos estava envolver Cuba no assassinato de Kennedy. Mais tarde, decorridos os anos, visitou-me o filho do presidente assassinado e jantou comigo. Era um jovem cheio de vida que gostava de escrever. Pouco tempo depois, viajando em noite tempestuosa a uma ilha de férias num simples avião, aparentemente não encontraram a meta e se espatifaram. Também conheci em Caracas a esposa e os filhos pequenos de Robert Kennedy, que foi procurador, e negociador com o enviado de Kruschev e tinha sido assassinado. Assim estava desde então o mundo.
Muito próximo já a terminar este relato, que coincide com 13 de agosto, 87o. aniversário de seu autor, peço que me desculpem qualquer imprecisão. Não tive tempo de consultar documentos.
Os despachos cabográficos quase diariamente falam de preocupantes temas que se acumulam no horizonte mundial.
Noam Chomsky, segundo o site do canal de televisão Rusia Today, expressou: “A política dos Estados Unidos está projetada para que aumente o terror”.
“Segundo o prestigioso filósofo, a política dos EUA está projetada de maneira que aumente o terror entre a população. ‘Os EUA estão levando a cabo a campanha terrorista internacional mais impressionante jamais vista [...], a dos drones e a campanha das forças especiais'...”.
“A campanha de drones está criando potenciais terroristas”.
“Na opinião dele, é absolutamente assombroso que o país norte-americano leve a cabo por um lado uma campanha de terror em massa, que possa gerar potenciais terroristas contra ele mesmo, e por outro proclame que é absolutamente necessário contar com vigilância em massa para proteger contra o terrorismo”.
“Segundo Chomsky, existem inúmeros casos similares. Um dos mais chamativos, na opinião dele, é o do Luis Posada Carriles, acusado pela Venezuela da participação num atentado contra um avião, no qual morreram 73 pessoas”.
Hoje guardo uma especial lembrança do melhor amigo que tive em meus anos de político ativo — que muito humilde e pobre se fraguou no Exército Bolivariano da Venezuela — Hugo Chávez Frías.
Entre os muitos livros que li, impregnados de sua linguagem poética e descritiva, há um que destila sua rica cultura e sua capacidade de expressar em términos rigorosos sua inteligência e suas simpatias através das mais de duas mil perguntas formuladas pelo jornalista, também francês, Ignacio Ramonet.
Em 26 de julho deste ano, quando visitou Santiago de Cuba por ocasião do 60o. aniversário do assalto aos quartéis Moncada e Carlos M. De Céspedes, dedicou-me seu último livro: Hugo Chávez Minha primeira vida.
Experimentei o são orgulho de ter contribuído à elaboração dessa obra, porque Ramonet me submeteu a esse questionário implacável, que apesar de tudo serviu para treinar o autor nessa matéria.
O pior é que não tinha terminado minha tarefa como dirigente quando lhe prometi revisá-lo.
Em 26 de julho de 2006, adoeci gravemente. Apenas compreendi que seria definitivo não hesitei um segundo em proclamar no dia 31 que deixava meus cargos como presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, e propus que o companheiro designado para exercer essa tarefa procedesse de imediato a ocupá-lo.
Restava-me concluir a revisão prometida de Biografia a Duas Vozes. Estava deitado, temia perder o conhecimento enquanto ditava e às vezes ficava dormido. Contudo, dia por dia respondia as complicadas perguntas que me pareciam interminavelmente longas; mas persisti até que terminei.
Estava longe de imaginar que minha vida se prolongaria mais outros sete anos. Só assim tive o privilégio de ler e estudar muitas coisas que devi aprender antes. Penso que as novas descobertas nos surpreenderam a todos.
De Hugo Chávez faltaram muitas perguntas por responder, do momento mais importante de sua existência, quando tomou posse de seu cargo como presidente da República de Venezuela. Não existe uma só pergunta que responder nos mais brilhantes momentos de sua vida. Os que o conheceram bem sabem a prioridade que dava a esses desafios ideológicos. Homem de ação e ideias, surpreendeu-o uma classe de doença sumamente agressiva que fez com que sofresse bastante, mas enfrentou com grande dignidade e com profunda dor para familiares e amigos próximos que tanto amou. Bolívar foi seu mestre e o guia que orientou seus passos na vida. Ambos reuniram a grandeza suficiente para ocupar um lugar de honra na história humana.


Fidel Castro Ruz
13 de agosto de 2013
  21h05