segunda-feira, 20 de outubro de 2014

New York Times afirma que ajuda de Cuba contra o ebola é "a mais robusta do mundo".

Primeira leva de médicos cubanos chegou a Serra Leoa na semana passada

Em editorial publicado neste domingo (19), o jornal The New York Times elogia a ação de Cuba na luta contra o ebola, afirmando que o país "desempenha o papel mais robusto entre as nações que buscam conter o vírus". Além disso, o maior veículo de comunicação impressa do mundo concordou e defendeu a posição do ex-presidente cubano Fidel Castro, que no fim de semana pediu para que Estados Unidos e Cuba ponham suas diferenças de lado e trabalhem juntos para combater a epidemia. Para o Times, Fidel está "totalmente certo". Leia abaixo o editorial:

"Cuba é uma ilha empobrecida que permanece em grande parte isolada do mundo e encontra-se a cerca de 4,5 mil quilômetros das nações do Oeste Africano onde o ebola está se espalhando a uma velocidade alarmante. No entanto, tendo se comprometido a enviar centenas de profissionais médicos para as linhas de frente da pandemia, Cuba desempenha o papel mais robusto entre as nações que buscam conter o vírus.
A contribuição cubana sem dúvidas indica a intenção de, pelo menos em parte, reforçar a sua já sitiada posição internacional. No entanto, ela deve ser elogiada e imitada.
O pânico global com o ebola não ainda não trouxe uma resposta adequada das nações que mais têm a oferecer. Enquanto os Estados Unidos e vários outros países ricos ficaram felizes em somente prometer fundos, apenas Cuba e algumas organizações não-governamentais estão oferecendo o que é mais necessário: profissionais de saúde no campo da epidemia.
Médicos na África Ocidental precisam desesperadamente de apoio para estabelecer instalações de isolamento e mecanismos para detectar casos mais agilmente. Mais de 400 profissionais de saúde foram infectados, e cerca de 4.500 pacientes morreram até o momento. O vírus já chegou aos Estados Unidos e à Europa, aumentando os temores de que a epidemia poderá em breve tornar-se uma ameaça global. 
É uma pena que Washington, o principal doador na luta contra o Ebola, é diplomaticamente afastado de Havana, justamente o contribuinte mais ousado. Neste caso, a cisma tem consequências de vida ou morte, porque as autoridades americanas e cubanas não estão equipadas para coordenar os esforços globais em alto nível. Isso deve servir como um lembrete urgente ao governo Obama de que os benefícios de se restabelecer rapidamente as relações diplomáticas com Cuba de longe superam as desvantagens.
Os profissionais de saúde cubanos estarão entre os estrangeiros mais expostos, e alguns poderiam muito bem contrair o vírus. A Organização Mundial de Saúde (OMS) está orientando a equipe de médicos, mas ainda não está claro como a instituição iria tratar e evacuar os cubanos que adoecerem. O transporte de pacientes em quarentena requer equipes sofisticadas e aeronaves especialmente adaptadas para tal fim. Mas a maioria das companhias de seguros que oferecem serviços de evacuação médica disse que não fará voos de pacientes com ebola.
O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, elogiou na última sexta-feira "a coragem de qualquer profissional de saúde que encara este desafio", e fez um breve reconhecimento da iniciativa de Cuba. Por uma questão de bom senso e compaixão, os militares dos Estados Unidos, que agora tem cerca de 550 tropas na África Ocidental, devem comprometer-se a oferecer a qualquer cubano doente o acesso ao centro de tratamento do Pentágono construído em Monrovia e a auxiliar com a evacuação do paciente.
O trabalho destes médicos cubanos beneficia todo o esforço global e deve ser reconhecido por isso. Mas as autoridades do governo Obama têm, insensivelmente, se recusado a dizer se lhes oferecerão alguma ajuda.
O setor de saúde cubano está ciente dos riscos em missões perigosas. Médicos cubanos assumiram o papel principal no tratamento de doentes de cólera no rescaldo do terremoto do Haiti em 2010. Alguns voltaram para casa doentes, fazendo então a ilha ter seu primeiro surto de cólera em um século. Uma epidemia de ebola em Cuba seria um risco muito mais perigoso e aumentaria as chances de uma rápida propagação do vírus no hemisfério ocidental.
Cuba tem uma longa tradição de envio de médicos e enfermeiros para áreas de desastre no exterior. Nos dias seguintes ao furacão Katrina, em 2005, o governo cubano criou um corpo médico de reação rápida e se ofereceu para enviar médicos para New Orleans. Os Estados Unidos, sem surpresa, não aceitaram o bom gesto de Havana. No entanto, autoridades em Washington pareciam sensibilizadas ao saberem nas últimas semanas que Cuba havia preparado equipes médicas para missões em Serra Leoa, Libéria e Guiné.
Com o apoio técnico da OMS, o governo cubano treinou 460 médicos e enfermeiros sobre as precauções rigorosas que devem ser tomadas para tratar pacientes com o vírus altamente contagioso. O primeiro grupo de 165 profissionais chegou a Serra Leoa nos últimos dias. José Luis Di Fabio, representante da OMS em Havana, disse que os médicos cubanos já estavam especialmente preparados para a missão, pois muitos tinham trabalhado na África.
- Cuba tem profissionais médicos muito competentes - disse Di Fabio, que é uruguaio.
Di Fabio afirmou ainda que os esforços de Cuba para ajudar em situações de emergência de saúde no exterior são frustrados pelo embargo dos Estados Unidos impõe na ilha, que luta para adquirir equipamentos modernos e manter as prateleiras médicas adequadamente abastecidas.

Em uma coluna publicada no fim de semana no jornal estatal de Cuba, Granma, Fidel Castro argumentou que os Estados Unidos e Cuba deveriam colocar de lado suas diferenças, mesmo que apenas temporariamente, para combater o flagelo mortal. Ele está absolutamente certo."


Fidel Castro: A hora do dever


Nosso país não demorou um minuto em dar resposta aos órgãos internacionais perante a solicitação de apoio à luta contra a brutal epidemia desatada na África Ocidental. 

É o que sempre fez nosso país sem excluir ninguém. O Governo já tinha dado as instruções apropriadas para mobilizar com urgência e reforçar o pessoal médico que prestava seus serviços nessa região do continente africano. Ao pedido das Nações Unidas também foi dada resposta rápida, como sempre fazemos frente a uma solicitação de cooperação. 

Qualquer pessoa consciente sabe que as decisões políticas que significam riscos para esses trabalhadores, altamente qualificados, implicam um alto nível de responsabilidade por parte de quem os convoca a cumprir uma tarefa perigosa. É mais difícil ainda que a [tarefa] de enviar soldados a combater e inclusive morrer por uma causa política justa, o que também sempre foi feito como um dever.

O pessoal médico que viaja a qualquer lugar para salvar vidas, ainda com risco de perder a sua, é o maior exemplo de solidariedade que o ser humano pode oferecer, principalmente quando não está movido por interesse material algum. Seus familiares mais próximos também contribuem com essa missão [ao dar] uma parte do que é para eles o mais querido e admirado. Um país curtido por longos anos de luta heróica pode compreender bem o que aqui se expressa. 

Todos compreendemos que, ao cumprir esta tarefa com o máximo de preparação e eficiência, estamos protegendo nosso povo e os povos irmãos do Caribe e da América Latina, ao evitar que se alastre, já que infelizmente foi introduzido e poderia se expandir pelos Estados Unidos, que tantos vínculos pessoais e intercâmbios mantém com o resto do mundo. Com prazer cooperaremos com os funcionários estadunidenses nessa tarefa, e não em busca da paz entre os dois Estados que têm sido adversários durante tantos anos, mas, em qualquer caso, pela Paz para o Mundo, um objetivo que pode e deve ser buscado. 

Na segunda-feira 20 de outubro, a pedido de vários países da região, será realizada uma reunião em Havana com a participação de importantes autoridades desses países que expressaram a necessidade de dar os passos apropriados para impedir a extensão da epidemia e combatê-la de forma rápida e eficiente. 

Os caribenhos e latino-americanos estaremos enviando também uma mensagem de alento e de luta aos demais povos do mundo. Chegou a hora do dever. 

17 de outubro de 2014

Fidel Castro.


Leia mais: NYT CUBA EBOLA
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